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Economia

Crise no Ueno Bank paralisa maiores bancos do Paraguai hoje

Banco Central intervém no Ueno Bank, prende executivos e negocia lei emergencial para pagar 3 milhões de clientes; renúncia no BC expõe desgaste político de Santiago Peña.

Crise no Ueno Bank paralisa maiores bancos do Paraguai hoje

Economia

Intervenção do Banco Central e prisão de executivos geram impacto no sistema financeiro paraguaio.

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O Ueno Bank, um dos maiores bancos digitais do Paraguai, entrou em regime de intervenção nesta terça-feira (3) após uma crise de solvência que levou à renúncia do presidente do Banco Central, à abertura de investigação criminal e à prisão de executivos da instituição. Saques e transferências foram bloqueados, e o governo de Santiago Peña corre para aprovar uma lei emergencial que permita usar recursos públicos para pagar os depositantes.

O que aconteceu com o Ueno Bank no Paraguai?

O Banco Central do Paraguai interveio no Ueno Bank e colocou a instituição em regime de resolução depois que o índice de solvência do banco caiu para menos da metade do mínimo exigido em lei, revelando incapacidade de honrar compromissos. Na prática, isso significa que os depósitos serão transferidos para outros bancos, enquanto o Ueno é desmontado sob controle da autoridade monetária.

Com cerca de 3 milhões de clientes — algo em torno de 60% da população adulta do país — o Ueno teve todas as operações de saque e transferência bloqueadas. Agências em Assunção e no interior amanheceram fechadas, sob vigilância policial, e filas se formaram na porta de unidades físicas e caixas eletrônicos.

O Banco Central garantiu que depósitos de até 228 milhões de guaranis por pessoa (cerca de US$ 38 mil) estão cobertos pelo seguro de depósitos, o que, segundo a autoridade, protege aproximadamente 97% dos clientes. Numa primeira etapa, cada correntista poderá sacar até 10 milhões de guaranis (cerca de US$ 1.700), valor que será liberado já descontadas eventuais dívidas com o próprio banco.

O Ministério Público abriu investigação por suspeita de gestão fraudulenta e outros crimes financeiros. Pelo menos oito pessoas ligadas ao Ueno foram presas, entre elas o presidente do banco, Juan Manuel Gustale, e o diretor-executivo Federico Miguel Vázquez Villasanti, integrante do Grupo Vázquez, controlador da instituição.

O Ueno administrava cerca de US$ 850 milhões em recursos públicos, incluindo aproximadamente US$ 380 milhões do instituto estatal de previdência e saúde (IPS). Ao todo, depósitos governamentais no banco somavam em torno de 5 trilhões de guaranis, o equivalente a US$ 869 milhões.

Do lado de fora de uma agência em Ñemby, região metropolitana de Assunção, clientes passaram a manhã tentando entender o que aconteceu. “Estamos exigindo acesso ao dinheiro que temos aqui no banco Ueno. Infelizmente, muita gente, inclusive eu, está passando a manhã assim”, relatou o morador Manuel Cáceres.

Renúncia no Banco Central aumenta desgaste político

A crise estourou no coração do poder econômico do Paraguai. O presidente do Banco Central, Carlos Carvallo, apresentou renúncia e confirmou que deixa o cargo, mas aceitou permanecer temporariamente para conduzir a intervenção no Ueno até a conclusão do processo.

Carvallo comandou o banco que deu origem ao Ueno até pouco antes de assumir a presidência do BC, o que alimenta críticas sobre conflito de interesses e suposto afrouxamento da supervisão. Parlamentares de oposição vinham questionando a atuação da autoridade monetária diante do crescimento acelerado do banco e de sucessivos alertas do mercado.

O presidente Santiago Peña, que foi sócio do Grupo Vázquez até março de 2025, também é pressionado pela proximidade com os controladores do Ueno e pelo volume de recursos públicos direcionados à instituição durante seu governo. Ele cancelou uma viagem internacional, convocou reuniões de emergência e pediu a renúncia de Carvallo.

Peña tenta agora aprovar com urgência, no Congresso, um projeto de lei que autoriza o uso de fundos públicos — incluindo recursos do IPS e de outros fundos de previdência — para bancar o pagamento imediato dos depositantes do Ueno. A proposta evidencia a gravidade da situação e coloca pressão adicional sobre as contas públicas.

Em mensagem divulgada nas redes sociais, o presidente buscou isolar o episódio. “Este é um caso isolado de uma entidade, não do sistema financeiro nacional. Os responsáveis terão que responder à Justiça sem exceção nem privilégios”, afirmou Santiago Peña.

A oposição, porém, já fala em responsabilização política. Uma senadora apresentou pedido de abertura de processo de impeachment contra Peña, ainda sem perspectiva concreta de avançar, já que o governo mantém maioria confortável no Congresso.

Entenda o contexto

O Ueno Bank se consolidou em poucos anos como um dos maiores bancos do Paraguai e líder em cartões de crédito, com cerca de 1,1 milhão de plásticos emitidos até setembro. O crescimento agressivo, baseado em oferta de crédito e forte presença digital, tornou a instituição uma peça central na bancarização da população, mas também levantou sinais de alerta entre reguladores e concorrentes.

O banco já vinha sendo investigado por suspeita de operações irregulares dentro do próprio grupo econômico, incluindo possível financiamento indireto para compra de carteira de ativos de empresas ligadas ao Grupo Vázquez. Em meio a esse cenário, o ajuste contábil recente derrubou o índice de solvência para níveis considerados insustentáveis pelo Banco Central.

Para o economista Luis Rojas, erros regulatórios abriram espaço para que a situação se deteriorasse. “Houve muita flexibilidade nas regras financeiras e bancárias, o que permitiu que essa instituição crescesse muito rápido. Houve tratamento preferencial, o que levantou muitas suspeitas”, disse.

Apesar da gravidade do caso, agentes financeiros avaliam que o risco de contágio ao restante do sistema é limitado. “Esta era uma instituição com uma gestão controversa. Todo o sistema financeiro já vinha alertando sobre isso, então os bancos estavam preparados e tinham exposição limitada à instituição”, afirmou Alvaro Acosta, presidente da corretora Investor Casa de Bolsa.

A credibilidade do governo e do próprio Banco Central, porém, sai arranhada. O aumento expressivo de depósitos públicos no Ueno, a ligação prévia de Carvallo com o banco e a antiga sociedade de Peña com o Grupo Vázquez reforçam a percepção de proximidade entre poder político e o conglomerado financeiro agora sob intervenção.

Quantos clientes foram afetados pela crise no Ueno Bank?

A crise do Ueno Bank atinge diretamente cerca de 3 milhões de clientes, o que corresponde a aproximadamente 60% da população adulta do Paraguai, todos sujeitos a bloqueio de saques e transferências desde a intervenção. Esse alcance torna o episódio um dos mais amplos já registrados no sistema financeiro paraguaio em termos de impacto sobre correntistas individuais.

A grande base de clientes decorre da estratégia de atuar como banco digital de massa, com abertura simplificada de contas via aplicativo, tarifas competitivas e forte oferta de cartões de crédito, sobretudo para consumidores antes pouco atendidos pelos bancos tradicionais. O bloqueio repentino expôs a vulnerabilidade de famílias e pequenos negócios que concentravam praticamente toda a movimentação financeira no Ueno.

O Banco Central afirma que o seguro de depósitos até 228 milhões de guaranis cobre a imensa maioria desses correntistas e promete uma liberação inicial de 10 milhões de guaranis por pessoa para aliviar o aperto imediato no consumo e nos pagamentos do dia a dia. Clientes com valores acima do teto do fundo garantidor, porém, seguem sem clareza sobre eventuais perdas.

Brasileiros que têm conta no Paraguai foram impactados pela crise do Ueno Bank?

Brasileiros com conta no Ueno Bank estão sujeitos às mesmas restrições impostas aos paraguaios, com saques e transferências bloqueados e acesso limitado aos recursos, inclusive para quem usa o Paraguai como praça bancária para negócios na fronteira ou investimentos.

O Ueno era visto por muitos estrangeiros, especialmente brasileiros com atuação comercial no país, como uma opção ágil para abrir conta e movimentar recursos. Esses clientes também dependerão do cronograma definido pelo Banco Central paraguaio para ter o dinheiro liberado em outras instituições ou por meio do seguro de depósitos, respeitado o teto de 228 milhões de guaranis por titular.

Para quem avalia qual é o melhor banco para abrir conta no Paraguai, especialistas recomendam, neste momento, atenção redobrada à solidez de capital, ao histórico regulatório e ao grau de exposição a ativos de risco. Bancos tradicionais, com presença antiga no país e supervisão mais intensa, tendem a ser vistos como alternativas menos arriscadas durante a crise.

Impacto nos mercados e na reputação do Paraguai

A intervenção no Ueno Bank repercute também no mercado financeiro internacional. Títulos da dívida soberana paraguaia sofreram pressão, e os papéis do próprio Ueno, emitidos no mercado externo, já vinham registrando queda forte após notícias negativas sobre o balanço do banco.

Para o ex-ministro das Finanças Manuel Ferreira, o dano potencial vai além do balanço de uma única instituição. “A reputação do Paraguai está em jogo neste momento, e tudo depende de como as autoridades reagem e das medidas que tomam”, avaliou. Ele ressalta que o impacto macroeconômico pode ser contido se o Banco Central garantir liquidez ao sistema e preservar o funcionamento dos meios de pagamento.

No curto prazo, o governo enfrenta um duplo desafio: proteger os 3 milhões de clientes do Ueno e, ao mesmo tempo, evitar que o uso massivo de recursos públicos para cobrir o rombo pressione ainda mais as contas do Estado e afaste investidores estrangeiros. A forma como Assunção conduzir a resolução do Ueno tende a influenciar a confiança no sistema financeiro paraguaio e na capacidade regulatória do país pelos próximos anos.