Explosão da IA exige mais capital, e mercado teme correção
Líderes de gigantes como Blackstone, Goldman e JPMorgan dizem que empresas de tecnologia terão de captar muito mais capital para IA, mas alertam para risco de correção e volatilidade.

Inteligência Artificial
Gigantes do mercado financeiro alertam para necessidade de maior capital e riscos associados à volatilidade no setor de IA.
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Empresas de tecnologia em todo o mundo terão de correr atrás de muito mais capital para sustentar a corrida da inteligência artificial, mas podem enfrentar uma correção nas bolsas e avaliações esticadas, alertaram nesta terça-feira alguns dos principais nomes das finanças globais, reunidos em Hong Kong.
Demanda por IA dispara e pressiona infraestrutura
No encontro organizado pela Autoridade Monetária de Hong Kong, o presidente da Blackstone, Jon Gray, resumiu o momento do setor: “Agora você está em um ambiente onde a demanda está muito à frente da oferta”. Segundo ele, a procura “bastante extraordinária” por poder computacional está forçando as gigantes de tecnologia a ampliar emissões de títulos, buscar financiamentos bilionários e considerar aberturas de capital.
Os gastos globais em inteligência artificial devem superar US$ 730 bilhões neste ano, após cerca de US$ 700 bilhões no ano anterior. Só os seis maiores grupos de computação em nuvem dos Estados Unidos projetam investir mais de US$ 7 trilhões entre 2025 e 2030 em data centers e infraestrutura ligada à IA, mantendo o fluxo de caixa livre no terreno negativo pelo menos até o ano que vem.
Gray citou o movimento de empresas como Meta, Google e Oracle em busca de mais recursos, além de operações de mercado envolvendo grupos como SpaceX e a desenvolvedora de modelos de IA Anthropic. “Meta, Google e Oracle captando investimentos… SpaceX abrindo capital, Anthropologie abrindo capital”, disse, destacando ainda que “os centros de dados têm necessidades energéticas enormes”. Para abastecer essa corrida, a própria Blackstone fechou na semana passada um pacote de financiamento de US$ 63 bilhões, em parceria com grandes bancos, para compra de chips e equipamentos de rede destinados à Anthropic.
Na avaliação do executivo, mesmo com juros elevados e investidores mais seletivos, a direção é clara: “A tendência geral aponta para maiores investimentos e, portanto, para uma maior necessidade de múltiplas formas de capital”.
Volatilidade cresce com avaliações apertadas
O entusiasmo com o potencial da IA veio acompanhado de avisos sobre riscos. As ações de tecnologia têm sofrido pressão nas últimas semanas, em meio a dúvidas sobre a velocidade com que receitas e lucros vão acompanhar o aumento dos investimentos. De acordo com o CEO do Goldman Sachs, David Solomon, empresas com fundamentos sólidos e “boas histórias” continuarão a se financiar, mas o caminho não será linear.
“Mas as coisas também vão dar errado, e nós vamos errar”, afirmou Solomon. Para ele, os investidores inevitavelmente vão fazer escolhas equivocadas e perder dinheiro em parte dessas apostas, o que torna “importante ter uma visão equilibrada e diversificada”.
O vice-presidente do JPMorgan, Daniel Pinto, disse ver a inteligência artificial com otimismo, porém avaliou que o mercado pode estar superestimando o ritmo de crescimento dos resultados das companhias ligadas ao tema. “Acredito que tenha uma curva positiva e lenta, e que talvez não seja tão acentuada quanto o mercado está precificando”, afirmou. “Portanto, acredito que possa ser uma correção no setor de IA”, acrescentou, prevendo pressão especialmente sobre empresas com avaliações muito altas e fundamentos mais frágeis.
No mercado americano, o CEO do Morgan Stanley, Ted Pick, apontou que os principais índices de ações já acumulam quedas próximas de 10%, o que ele enxerga como sinais iniciais de correção. Ele destacou que “o teste mais recente do apetite dos investidores é a venda de € 6 bilhões em títulos na segunda-feira pela Alphabet”, dona do Google, operação acompanhada de perto por todo o setor.
Entenda o contexto
O avanço da IA exige investimentos maciços não só em desenvolvimento de software e modelos, mas em toda a espinha dorsal de infraestrutura: data centers, redes de alta capacidade, chips avançados e, cada vez mais, energia elétrica. Esse tipo de gasto é intensivo em capital e tem retorno de longo prazo, o que pressiona o caixa das empresas e amplia a necessidade de financiamento externo.
Para levantar esses recursos, as companhias têm recorrido a emissões de dívida em diferentes moedas, ofertas de ações, parcerias estratégicas e linhas de crédito estruturadas com grandes bancos e fundos. O problema, dizem os executivos, é que esse ciclo de investimentos ocorre em um momento de custo de capital mais alto e de crescente ceticismo em relação às avaliações de empresas ligadas à IA nas bolsas.
O diretor executivo da Citadel Securities, Peng Zhao, ressaltou que o próprio ineditismo da tecnologia dificulta a tarefa de colocar um preço justo nesse futuro. “Nossa capacidade de realmente saber o que essa tecnologia fará e seu potencial de receita é muito, muito limitada devido ao fato de nunca termos visto nada parecido”, disse. Segundo ele, não se trata de pessimismo em relação ao que a IA pode entregar, mas de reconhecer que o mercado só consegue enxergar “até certo ponto” em um cenário em que “os números envolvidos são enormes”. Essa incerteza tem alimentado fortes oscilações nas ações e nos títulos das empresas do setor.
Por que as empresas de tecnologia estão buscando mais capital para investir em inteligência artificial?
O salto previsto para mais de US$ 730 bilhões em gastos com IA neste ano está forçando as empresas de tecnologia a buscar mais capital porque a infraestrutura necessária para sustentar essa expansão é extremamente cara e intensiva em investimento. Modelos de linguagem, sistemas de recomendação e outras aplicações exigem data centers gigantescos, chips de última geração e redes cada vez mais potentes, além de projetos de energia capazes de manter tudo isso em pé 24 horas por dia.
Dados recentes indicam que os maiores grupos de computação em nuvem dos EUA planejam aplicar mais de US$ 7 trilhões entre 2025 e 2030 em ativos ligados à IA, o que deve manter seus fluxos de caixa livres negativos no curto prazo. Isso amplia a dependência de emissões de títulos, empréstimos estruturados e ofertas de ações para financiar o plano de expansão.
Ao mesmo tempo, a corrida entre gigantes como Alphabet, Amazon, Microsoft, Meta e outros concorrentes globais cria uma pressão competitiva: quem investir menos corre o risco de ficar para trás na próxima geração de produtos de IA. Foi nesse contexto que a Blackstone e um consórcio de bancos se comprometeram com um pacote de US$ 63 bilhões em financiamento para a Anthropic comprar chips de IA e equipamentos de rede.
Na Ásia-Pacífico, o movimento é semelhante. A captação de recursos por empresas de tecnologia na região mais que triplicou nos três primeiros trimestres de 2026, atingindo US$ 125,8 bilhões, ante US$ 36 bilhões no ano anterior. Parte relevante desse salto veio de negócios diretamente ligados a semicondutores e IA, como o IPO de US$ 9,8 bilhões da fabricante chinesa de chips CXMT e a listagem da Enflame Technology, que levantou US$ 910,6 milhões.
Como a captação de recursos vai impactar o desenvolvimento de IA pelas empresas de tecnologia?
Os US$ 125,8 bilhões já captados em tecnologia na Ásia-Pacífico só neste ano e a ofensiva trilionária anunciada pelos grandes grupos de nuvem mostram que a capacidade de levantar capital será decisiva para o ritmo de desenvolvimento da IA. As empresas que conseguirem acessar volumes elevados de financiamento tendem a acelerar a construção de data centers, a contratação de energia, a compra de chips e a expansão de equipes, encurtando o ciclo entre pesquisa, teste e lançamento de novos produtos.
Na prática, isso significa mais rapidez na oferta de serviços de nuvem com recursos de IA, assistentes virtuais mais sofisticados, ferramentas de automação empresarial e aplicações em setores como finanças, saúde, indústria e varejo. O efeito em cadeia se espalha pela cadeia produtiva: fabricantes de semicondutores, provedores de infraestrutura de rede e empresas de energia também se beneficiam dessa onda de investimentos.
Por outro lado, a dependência de capital externo e o aumento do custo desse dinheiro tornam o desenvolvimento da IA mais sensível ao humor do mercado. Se a correção antecipada por executivos como Daniel Pinto e Ted Pick se aprofundar — com mais quedas em ações e um apetite menor por novas emissões —, projetos considerados marginais ou muito arriscados podem ser adiados ou encolhidos. O foco tende a migrar para iniciativas com retorno mais previsível e empresas com balanços robustos.
Investidores como a gestora PIMCO enxergam oportunidade nesse ambiente. O CEO Emmanuel Roman classifica os negócios de financiamento de IA como atraentes e afirma esperar mais operações do tipo. Para ele, o desafio será selecionar quais companhias conseguirão transformar o ciclo atual de megainvestimentos em fluxos de caixa sustentáveis, em vez de apenas inflar avaliações de curto prazo.
Nesse equilíbrio entre apetite e cautela, a mensagem que saiu de Hong Kong é de que a revolução da inteligência artificial vai exigir uma maratona de captação de recursos — e não uma corrida de tiro curto. Quem tiver acesso estável a múltiplas fontes de capital, dizem os executivos, largará na frente na próxima fase do setor.

