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Inteligência Artificial

Especialista alerta para risco de IA em brinquedos infantis

Brinquedos com inteligência artificial que conversam, filmam e guardam dados de crianças podem criar laços de confiança e abrir caminho para manipulação, alerta pesquisador da UFRPE.

Especialista alerta para risco de IA em brinquedos infantis

Inteligência Artificial

Pesquisador da UFRPE destaca perigos de brinquedos com IA que coletam dados e influenciam crianças.

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Brinquedos com inteligência artificial generativa, capazes de conversar, reconhecer rostos e filmar ambientes, estão criando vínculos de confiança com crianças e abrindo espaço para manipulação emocional e exposição de dados íntimos, alertou o professor e pesquisador de computação George Valença, da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), em entrevista ao programa Provoca, apresentado por Marcelo Tas na TV Cultura.

Brinquedo que ouve, grava e responde como “amigo”

Na conversa exibida nesta semana, Valença explicou que esses brinquedos coletam voz, imagens, geolocalização e outras informações sensíveis, que costumam ser armazenadas em servidores de empresas de tecnologia. Ao interagir de forma contínua e personalizada, a máquina passa a ser vista pela criança como alguém confiável.

“Ela vai achar que aquele brinquedo merece a confiança dela”, afirmou o pesquisador. Segundo ele, a criança tende a esquecer que está falando com um dispositivo conectado a uma empresa, e não com um amigo neutro, o que aumenta o risco de exposição de segredos, hábitos e rotina da família.

O alerta mira especialmente pais e responsáveis que veem nesses produtos uma forma de entretenimento ou até de acompanhamento educacional. Para Valença, a combinação de vigilância constante — por câmera, microfone e sensores — com respostas envolventes cria um ambiente propício à coleta massiva de dados infantis, muitas vezes sem transparência ou controle efetivo por parte dos adultos.

Design pensado para viciar e dificultar o “sair”

O pesquisador também chamou atenção para os chamados padrões manipulativos de design, usados por plataformas digitais para manter usuários conectados o máximo de tempo possível e tornar difícil ações como cancelar uma conta ou desativar um serviço.

Ele citou notificações, cores de botões, textos de confirmação e caminhos confusos em telas de configuração como exemplos de escolhas deliberadas para influenciar comportamento. Em vez de facilitar a decisão do usuário, esses elementos empurram para o uso contínuo e desestimulam a desconexão.

No caso de crianças, essas estratégias se somam ao apelo lúdico de jogos, vídeos e brinquedos conectados, criando um cenário em que o público infantil fica mais exposto a estímulos contínuos e a decisões que, na prática, são tomadas pelas empresas ao definir a arquitetura das interfaces.

IA como “companheira” e terapeuta sob suspeita

Outro ponto de preocupação levantado por Valença é o uso de inteligência artificial como companhia ou espécie de terapeuta digital. Ferramentas conversacionais que se propõem a ouvir desabafos e oferecer conforto emocional tendem a responder de forma muito complacente, criando laços afetivos fortes.

Para o pesquisador, isso pode levar pessoas — inclusive adolescentes — a compartilhar detalhes íntimos de sua vida com sistemas controlados por grandes empresas, sem clareza sobre como essas informações serão armazenadas, usadas ou cruzadas com outros dados. O vínculo emocional, em vez de proteção, pode reforçar a sensação de que é seguro contar “tudo” para a máquina.

Ele ressalta que a presença de um mediador humano, como pais, professores ou profissionais de saúde, é essencial para colocar limites, interpretar respostas e evitar que a IA substitua relações reais de cuidado.

Entenda o contexto

A discussão acontece em meio à rápida popularização de sistemas de IA generativa em aplicativos, assistentes virtuais e produtos voltados ao público infantil. A combinação de brinquedos conectados, plataformas de vídeo, jogos online e chatbots cria um ecossistema em que dados de crianças circulam em grande escala.

Segundo Valença, isso pressiona a indústria de brinquedos e o mercado de tecnologia digital a rever padrões de privacidade, segurança e transparência. Ele defende que famílias, escolas, órgãos reguladores e empresas discutam regras mais rígidas para coleta e uso de dados de menores, bem como limites para práticas de design consideradas manipulativas.

O pesquisador também apontou que entidades de proteção à infância e o poder público tendem a ser chamados a agir com mais firmeza, seja na criação de normas específicas, seja em campanhas educativas para orientar pais e responsáveis sobre como avaliar brinquedos e serviços baseados em IA.

Potencial na medicina exige supervisão humana

Apesar dos alertas, Valença destacou que a inteligência artificial pode ser positiva em áreas como a medicina, desde que usada de forma complementar ao trabalho de médicos e equipes de saúde, com supervisão constante de profissionais humanos.

Na avaliação dele, sistemas de IA podem ajudar a analisar grandes volumes de exames, apoiar diagnósticos e organizar informações clínicas, mas não devem tomar decisões sozinhos nem substituir o contato direto entre paciente e médico. O mesmo princípio, diz, vale para o contato das crianças com a tecnologia: a presença ativa de adultos continua sendo a principal garantia de uso responsável.

O Provoca, apresentado por Marcelo Tas, vai ao ar às terças-feiras, às 22h30, na TV Cultura, e os programas também ficam disponíveis no site oficial da emissora e no canal da TV Cultura no YouTube.