Mercados
S&P 5007.689▲ 1,58%Nasdaq25.737▲ 1,44%Dow Jones53.356▲ 3,03%Ibovespa167.563▲ 1,23%FTSE 10010.829▲ 1,79%DAX26.438▲ 2,22%Nikkei61.699▼ 0,79%DólarR$ 5,46▲ 0,01%EuroR$ 6,15▲ 0,25%BitcoinR$ 440.408▲ 0,30%Powered by WIREDESK OSS&P 5007.689▲ 1,58%Nasdaq25.737▲ 1,44%Dow Jones53.356▲ 3,03%Ibovespa167.563▲ 1,23%FTSE 10010.829▲ 1,79%DAX26.438▲ 2,22%Nikkei61.699▼ 0,79%DólarR$ 5,46▲ 0,01%EuroR$ 6,15▲ 0,25%BitcoinR$ 440.408▲ 0,30%Powered by WIREDESK OS
Powered by WIREDESK OS
Inteligência Artificial

IA faz data centers consumir 20 mi litros de água e ameaça rios?

Explosão da inteligência artificial faz data centers globais consumirem centenas de bilhões de litros de água por ano. Especialistas cobram soluções adaptadas ao clima brasileiro.

IA faz data centers consumir 20 mi litros de água e ameaça rios?

Inteligência Artificial

O aumento do uso de IA eleva o consumo de água nos data centers, pressionando recursos hídricos e exigindo soluções sustentáveis.

Leia também: Grupo usa IA para atacar 40 bancos no Brasil e roubar dados

O avanço da inteligência artificial está aumentando de forma acelerada a sede dos data centers, que já podem consumir quase 20 milhões de litros de água por dia em grandes instalações, pressionando rios, aquíferos e comunidades em várias partes do mundo e abrindo um debate urgente sobre tecnologias de resfriamento compatíveis com o clima brasileiro.

Por que o uso de inteligência artificial consome tanta água?

A inteligência artificial consome tanta água porque depende de enormes data centers que precisam ser intensamente refrigerados e abastecidos por energia elétrica, processos que, somados, já representam centenas de bilhões de litros de água por ano no planeta.

Cada imagem gerada por IA, cada conversa em um chatbot e cada vídeo visto em plataformas digitais passa por servidores que trabalham em alta performance e esquentam muito. Para evitar o superaquecimento, esses equipamentos são instalados em galpões com milhares de máquinas, os data centers, que exigem sistemas de resfriamento contínuo.

Segundo o Instituto de Estudos Ambientais e Energéticos (EESI), um único data center de grande porte pode chegar perto de 20 milhões de litros de água consumidos por dia. Já a Agência Internacional de Energia calcula que, somando refrigeração, geração de energia e fabricação de componentes, o setor usou cerca de 560 bilhões de litros de água recentemente e pode se aproximar de 1,2 trilhão de litros por ano até o fim da década.

A popularização da IA agrava esse quadro porque treinar e rodar modelos avançados exige muito mais capacidade computacional do que aplicações digitais tradicionais. Na prática, isso significa mais servidores ligados por mais tempo, mais calor gerado e, consequentemente, maior demanda por resfriamento e por energia, ambos com forte pegada hídrica.

Resfriamento evaporativo domina e puxa consumo

Uma das tecnologias mais usadas hoje é o resfriamento evaporativo, em que a água entra diretamente no processo de dissipação de calor. Parte desse volume evapora ao carregar o calor para fora da instalação, o que obriga a reposição constante. Não é um circuito fechado: o que evapora se perde para a atmosfera, e daí o consumo tão alto.

O economista Lourenço Faria, pesquisador convidado da Universidade de Copenhague, lembra que há uma grande variedade de projetos e que o impacto não é homogêneo. “Não é que todo data center gasta muita água”, afirma. O nível de consumo depende do porte da instalação, do tipo de processamento, do clima local e do desenho da engenharia de refrigeração.

Além do uso direto nos sistemas de resfriamento, há o gasto embutido na eletricidade que mantém os servidores ligados e na cadeia industrial dos chips e outros componentes, em geral altamente dependente de água. Assim, mesmo uma instalação que quase não use água para resfriar ainda carrega, indiretamente, um peso hídrico importante via consumo de energia.

Existe alguma forma de reduzir o gasto de água no uso da inteligência artificial?

Reduzir o gasto de água da IA passa por trocar tecnologias de resfriamento, planejar onde e como os data centers são construídos e criar regras específicas para o clima e a realidade hídrica de cada região, em vez de importar modelos pensados para países frios.

Há alternativas ao resfriamento evaporativo, como sistemas que resfriam diretamente os chips, sem climatizar todo o ambiente, ou o uso de líquidos especiais que absorvem o calor com mais eficiência. Também existem projetos que aproveitam a temperatura externa em períodos mais frios para auxiliar no resfriamento e reduzir o uso de água.

Essas soluções, porém, costumam ser mais caras, exigem engenharia mais complexa e não estão livres de riscos ambientais — vazamentos de líquidos podem contaminar solo e água, por exemplo. Por isso, Faria defende que o foco seja em inovação pensada desde o início para a realidade brasileira. “Precisamos fazer pesquisa de ponta sobre quais soluções tecnológicas podemos utilizar para o nosso contexto aqui, para o nosso país”, diz.

Entenda o contexto

O Brasil, com clima predominantemente tropical, não tem as mesmas condições de países que usaram frio externo como aliado para resfriar data centers. Temperaturas médias mais altas e ondas de calor mais frequentes, associadas às mudanças climáticas, tendem a aumentar o desafio de manter grandes estruturas computacionais funcionando sem sobrecarregar rios e reservatórios.

A professora Jeamylle Nilin, do Instituto de Biologia da UFU e coordenadora do projeto Guardiãs das Águas, reforça que qualquer projeto de data center precisa ser analisado caso a caso. Para ela, não basta saber o volume consumido: é essencial entender de onde virá essa água, quais são as condições ambientais da bacia hidrográfica e que outros usos — como abastecimento humano, agricultura, indústria e manutenção dos ecossistemas — dependem da mesma fonte.

Nilin alerta para a falsa sensação de segurança em regiões que hoje têm água em abundância, mas podem enfrentar restrições em períodos de estiagem ou sob cenários climáticos diferentes. “Precisamos entender que a água não é um recurso que existe para o nosso uso. Ela existe para o planeta existir”, afirma.

Quando um empreendimento de alto consumo hídrico chega a territórios que já vivem dificuldades de abastecimento, o risco é de aumentar disputas pela água e aprofundar desigualdades. Comunidades rurais e periferias costumam estar na base dessa cadeia, arcando com impactos sem participar das decisões sobre localização, tecnologia empregada ou contrapartidas sociais.

Pressão por regulação e pesquisa no Brasil

No Brasil, a expansão da infraestrutura digital vem acompanhada de uma legislação recente que oferece incentivos fiscais para a instalação de data centers, ao mesmo tempo em que condiciona benefícios a exigências ambientais e de investimento em pesquisa e inovação nacionais.

Especialistas, porém, avaliam que não basta vincular critérios ambientais apenas às empresas que aderem a regimes especiais. A tendência é que cresça a pressão por normas que estabeleçam limites de consumo de água e energia para todo o setor, levando em conta as especificidades de cada estado e município.

Para além da regulação, pesquisadores defendem o envolvimento das comunidades afetadas nas discussões desde a fase de planejamento, com transparência sobre impactos previstos e sobre quais tecnologias estão sendo consideradas. Jeamylle Nilin destaca também o papel da educação ambiental e da divulgação científica para que a sociedade consiga relacionar hábitos digitais à infraestrutura física necessária para sustentá-los.

Com a inteligência artificial se tornando peça central da economia e dos serviços, a disputa entre avanço tecnológico e segurança hídrica tende a se intensificar. Na avaliação de especialistas, quem investir em inovação sustentável e adaptada ao clima tropical deve ganhar competitividade, enquanto ecossistemas e comunidades que já vivem sob estresse hídrico podem pagar a conta de uma tecnologia que, em grande parte, opera longe de seus olhos.