Ibovespa cai 0,82% com Selic em 13,75% e incerteza fiscal
Ibovespa fecha em queda após ganhos iniciais, pressionado por juros altos, incertezas fiscais e perdas em tecnologia nos EUA, enquanto mercado aguarda pronunciamento de Lula.

Mercado Financeiro
Ibovespa recua influenciado por alta da Selic e dúvidas sobre a política fiscal do país.
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O Ibovespa fechou em queda de 0,82%, aos 166.191 pontos, nesta quinta-feira, depois de tocar a máxima de 168.994,33 pontos e perder fôlego na reta final do pregão, em meio à manutenção da Selic em 13,75% ao ano pelo Banco Central, à cautela com o rumo das contas públicas no governo Lula e ao mau humor das bolsas de Nova York.
O índice da B3 oscilou entre a mínima de 166.249,09 e a máxima próxima de 169 mil pontos, com volume financeiro de R$ 31,16 bilhões. A volatilidade refletiu a combinação de juros ainda muito altos no Brasil, resultados corporativos relevantes e um ambiente externo mais pesado, principalmente para ações de tecnologia.
Selic alta segura setores sensíveis a juros
Ao manter a taxa básica em 13,75% ao ano, o Banco Central reforçou a estratégia de cautela diante da inflação e das incertezas fiscais. Na prática, o juro elevado mantém caro o crédito para famílias e empresas, freando consumo e investimentos e pesando sobre segmentos como varejo, construção civil e parte da indústria.
No comunicado da decisão, o BC sinalizou a intenção de manter a política monetária restritiva pelo tempo necessário para garantir a convergência da inflação à meta, citando riscos ligados ao petróleo, ao câmbio e ao quadro fiscal. Analistas avaliam que, sem um sinal mais claro de controle dos gastos públicos, a autoridade monetária deve seguir resistente a iniciar um ciclo de cortes.
O ministro da Fazenda, Dario Durigan, reconheceu o custo desse nível de juros para a atividade. “Temos que dar condições para a taxa caia”, afirmou, ao reforçar que o plano econômico do governo parte do compromisso com a sustentabilidade das contas públicas, com melhora progressiva do resultado primário e eventuais ajustes nas regras fiscais.
Entenda o contexto
O receio de que o governo amplie a arrecadação sem atacar despesas também entrou no radar dos investidores com o envio ao Congresso do Imposto Seletivo, apelidado de imposto do “pecado”. Segundo Durigan, o tributo não tem objetivo arrecadatório amplo, atinge poucos setores e vem acompanhado de isenção de IPI para a indústria.
No mercado, porém, há ceticismo. “O mercado não está precificando o que o governo promete. Saiu o imposto do ‘pecado’. É mais uma forma de aumentar a receita sem cortar gastos”, disse Kevin Oliveira, sócio e advisor da Blue3.
Durigan afirmou ainda que levará a Lula, nas próximas semanas, propostas e ideias da equipe econômica para detalhar a agenda de médio prazo, incluindo caminhos para melhorar o resultado fiscal e, assim, abrir espaço para a queda dos juros.
Commodities reagem, mas não salvam o índice
Enquanto setores cíclicos seguem travados pelo juro alto, papéis ligados a commodities mostram algum alívio com a melhora pontual no cenário internacional, incluindo a possibilidade de resolução de conflitos no Oriente Médio.
“Tentou um respiro”, resumiu Gabriel Mota, analista de renda variável da Manchester Investimentos, sobre o comportamento do índice. Ele destaca que ações como Vale e Petrobras começaram “a andar” diante da perspectiva de fim da guerra no Irã e da alta de preços de produtos como minério de ferro, embora outros segmentos ainda operem com fraqueza. Em Dalian, o minério avançou 1,77% nesta manhã.
Mota avalia que o movimento recente em alguns ativos é uma tentativa de reequilibrar o Ibovespa, hoje muito concentrado em poucos pesos pesados. “Porém, ainda é um cenário complicado, diante da dificuldade de o Banco Central cortar juros. Enquanto não houver quedas, alguns setores, como os cíclicos, não vão andar. Tem de haver sinal sobre corte de gastos por parte do governo”, disse.
Wall Street pesa, Londres aperta juros e bolsa sente
No exterior, as bolsas de Nova York tiveram um dia negativo, com vendas fortes em ações de empresas de chips e data centers, o que ajudou a tirar força do rali inicial na B3. O humor global ainda é influenciado pela conjuntura política nos Estados Unidos e por incertezas sobre comércio e tarifas, que afetam expectativas para crescimento e inflação.
Na Europa, o Banco da Inglaterra elevou os juros básicos em 0,25 ponto percentual, para 4% ao ano, em linha com o previsto, reforçando o ambiente de aperto monetário nas grandes economias. A combinação de juros altos lá fora com prêmio de risco fiscal no Brasil deixa investidores mais seletivos na tomada de risco em mercados emergentes.
Pronunciamento de Lula é aguardado pelo mercado
Com a curva de juros travada e o câmbio ainda sensível a declarações de autoridades, o mercado financeiro volta agora as atenções para o pronunciamento do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, previsto para domingo. A expectativa é que ele reforce o discurso de responsabilidade fiscal e detalhe, ao menos em parte, a direção da política econômica para o restante do mandato.
Lula já se reuniu com a equipe econômica e conselheiros para discutir a agenda de crescimento e de consolidação das contas públicas. Mas, por enquanto, não foram anunciadas medidas concretas, o que mantém uma dose de ceticismo entre investidores e ajuda a explicar a volatilidade recente da bolsa e dos juros futuros.
No radar dos gestores seguem ainda os resultados corporativos de grandes companhias listadas, como C&A, CBA e Porto Seguro, já conhecidos, e os balanços de Suzano, Assaí, Allos, Lojas Renner e Sabesp, programados para após o fechamento. O desempenho setorial nesses números tende a calibrar, nos próximos dias, a alocação de recursos dentro do próprio Ibovespa em um ambiente ainda marcado por juros altos e incerteza fiscal.


