Escolas católicas mudam uso de IA e telas para proteger alunos
Professora Lily Abadal defende que escolas católicas liderem uma virada no uso de telas e inteligência artificial, privilegiando virtudes, leitura em papel e escrita manual.

Inteligência Artificial
Escolas católicas adotam novas práticas para equilibrar tecnologia e valores tradicionais na educação dos alunos.
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Escolas católicas nos Estados Unidos e no Brasil começam a rever o lugar das telas e da inteligência artificial no dia a dia das salas de aula, pressionadas por evidências de prejuízos ao aprendizado e pela preocupação em manter a formação ética e espiritual dos alunos, especialmente crianças e adolescentes.
Educação católica em choque com cultura das telas
No centro do debate está a professora Lily Abadal, que tem se tornado referência entre educadores católicos ao defender que essas escolas sejam exemplo para todo o sistema educacional na forma de lidar com tecnologia. Para ela, o uso de tablets, notebooks e ferramentas de IA precisa ser guiado por uma ética cristã das virtudes – e não apenas pela busca de eficiência.
Abadal critica os chamados programas 1:1, em que cada estudante recebe um tablet para uso pedagógico. Segundo a professora, a promessa de modernização não compensa os efeitos negativos já mapeados por pesquisas e percebidos no cotidiano escolar. “O tablet não é um meio ideal para ler, fazer anotações ou realizar avaliações”, afirma.
Ela lembra que, em turmas do ensino médio, a simples presença dos dispositivos já altera a dinâmica da aula. Em 2019, relata, alunos usavam o projetor de sala para transmitir memes logo no início das aulas, apesar das tentativas de controle – um exemplo, diz, de como o professor perde tempo e energia apenas para manter a atenção mínima dos jovens.
Entenda o contexto
Nos Estados Unidos, muitos colégios adotaram a lógica de que colocar um dispositivo nas mãos de cada aluno significaria mais acesso à informação, personalização de conteúdos e ganho de produtividade. No Brasil, a realidade é mais desigual, mas o modelo começa a aparecer, especialmente em redes privadas, inclusive católicas.
Ao mesmo tempo, estudos recentes reforçam alertas sobre os impactos das telas na aprendizagem, sobretudo nas séries iniciais. A leitura em papel tem se mostrado mais eficaz para a compreensão profunda de textos, enquanto a escrita à mão ativa processos motores e cognitivos que a digitação não alcança. Na prática, explicam educadores, isso impacta desde a ortografia e a memória até a capacidade de organizar ideias.
Outro ponto sensível é a atenção. Tablets e notebooks concentram em um único aparelho material didático, mensagens, jogos e redes sociais, o que torna a distração permanente – e mais difícil de ser percebida pelo professor em uma sala cheia. Para Abadal, a gestão da turma se transforma em uma corrida atrás de janelas minimizadas e aplicativos ocultos, com prejuízo para a profundidade do ensino.
IA generativa amplia desafio e tentações
Se as telas já eram um problema, a chegada das ferramentas de inteligência artificial generativa às escolas elevou o grau de preocupação. Com poucos comandos, alunos conseguem produzir textos inteiros, resumos e respostas complexas, sem necessariamente entender o conteúdo.
Abadal alerta para uma “erosão cognitiva” provocada pela terceirização constante das tarefas intelectuais à IA. A tentação é maior, observa, entre os mais novos. “Mesmo que alunos do 6.º ano do ensino fundamental sejam instruídos sobre como usar a IA de maneira responsável, eles continuam sendo alunos de 6.º ano”, diz. “Dificilmente deveríamos esperar que, quando ninguém está olhando, os jovens escolham sistematicamente o caminho mais difícil simplesmente porque ele é melhor para sua formação.”
Ela recorre ao economista comportamental Daniel Kahneman para explicar esse movimento: “O economista comportamental Daniel Kahneman chama isso de ‘lei do menor esforço’”. Em outras palavras, diante de uma opção muito mais fácil – deixar que a IA faça o trabalho –, a maioria tenderá a escolhê-la, sobretudo sem supervisão direta.
Esse cenário esvazia o valor pedagógico de tarefas feitas em casa e fragiliza a confiança entre professores e alunos. “Hoje, é relativamente fácil trapacear e enganar professores desavisados”, reconhece Abadal. Ferramentas de IA, bancos de trabalhos prontos e grupos de mensagens ampliam a possibilidade de fraude em poucos cliques.
Virtudes contra a lógica da facilidade
Para a professora, a resposta católica ao problema tecnológico passa menos por proibições absolutas e mais por uma clara prioridade: a formação do caráter e das virtudes. Ela argumenta que o objetivo de uma escola católica não é apenas garantir notas altas, mas formar pessoas capazes de lidar com frustrações, de perseverar diante do desconforto e de buscar o que é bom, belo e verdadeiro.
Nessa lógica, o atrito da leitura em papel e da redação escrita à mão deixa de ser um atraso e passa a ser parte essencial do processo formativo. Elaborar um texto sem atalhos digitais, por exemplo, ajuda o professor a avaliar de maneira mais fiel o domínio da linguagem do aluno e, ao mesmo tempo, treina paciência e concentração.
Abadal é direta: “A eficiência e a facilidade das telas e da IA se opõem à formação da virtude e da boa vontade”. No início, insiste, nenhuma virtude se desenvolve pelo caminho de menor resistência; é justamente o esforço que molda o caráter. Nesse sentido, políticas que colocam um aparelho individual em cada carteira tendem, segundo ela, a reforçar a expectativa de gratificação imediata e a fuga do esforço.
Prática pedagógica entre papel, caneta e algoritmos
Na prática, escolas católicas que levam essas críticas a sério vêm buscando reequilibrar o uso de tecnologia. Entre as medidas discutidas por educadores e gestores estão a priorização da leitura em papel em disciplinas que exigem maior profundidade, a retomada sistemática da escrita manual em redações e avaliações-chave e o aumento de provas presenciais e atividades em sala para reduzir espaço para trapaças.
Em paralelo, há um esforço para educar o olhar dos alunos sobre a própria tecnologia, ensinando não só como usar, mas também quando e para quê não usar recursos digitais. A orientação é que a IA seja tratada como ferramenta complementar, e não substituta do trabalho intelectual. Mesmo assim, professores admitem a dificuldade de monitorar, fora da aula, até onde vai o protagonismo do estudante e onde começa o texto produzido pelo algoritmo.
Pais também entram na discussão, sobretudo nas escolas católicas brasileiras que observam, com atraso em relação aos Estados Unidos, a mesma avalanche de telas em casa e na escola. Muitos pressionam por limites mais claros ao uso de dispositivos em sala, enquanto outros temem que restrições excessivas prejudiquem a competitividade dos filhos em um mundo cada vez mais digital.
Formação ética e políticas para além da escola católica
Para Lily Abadal, o desafio não se resolve com um simples “sim” ou “não” às telas, mas com políticas que integrem tecnologia a um projeto explícito de formação ética e espiritual. Ela sustenta que é cada vez mais difícil justificar programas de distribuição individual de dispositivos que coloquem o tablet no centro de quase todas as atividades escolares, sobretudo na educação infantil e nos primeiros anos do fundamental.
Nessa visão, escolas católicas – vistas como extensão da missão da Igreja e responsáveis por criar um ambiente favorável ao amadurecimento espiritual – deveriam avaliar se a cultura de telas permanentes favorece de fato o silêncio, a atenção ao outro e o discernimento interior que a tradição cristã considera indispensáveis.
O debate, porém, tende a ultrapassar os limites das instituições confessionais. À medida que a inteligência artificial generativa se espalha pelas salas de aula e pelas casas, redes públicas e privadas de diferentes orientações religiosas ou laicas são pressionadas a definir critérios mínimos para o uso de tecnologia na educação, treinar professores e revisar formas de avaliação.
Entre educadores católicos, cresce a percepção de que as próximas diretrizes precisam combinar três frentes: reconhecimento dos dados científicos sobre os efeitos das telas, compreensão realista dos limites do controle tecnológico – especialmente no caso da IA – e um projeto de formação de virtudes que ajude crianças e jovens a resistir, por convicção, à tentação constante do caminho mais fácil.
