Gás de cozinha fica mais barato na Bahia e expõe guerra dos botijões
Redução de 7,1% no preço do GLP em Mataripe deve aliviar em até R$ 4 o botijão na Bahia, enquanto explosão de importações da China acirra disputa industrial.
Economia
Queda no preço do GLP em Mataripe promete aliviar custo do botijão em até R$ 4 na Bahia, intensificando a disputa no setor.
O gás de cozinha começa a ficar mais barato na Bahia desde 1º de julho de 2026, após a Refinaria de Mataripe, operada pela Acelen, reduzir em 7,1% o preço do GLP vendido às distribuidoras. A mudança já se espalha pela rede de revendas e deve resultar em queda de até R$ 4 no botijão de 13 quilos para o consumidor baiano.
Alívio no bolso em meio à alta demanda social
O corte no preço ocorre em um momento em que o gás liquefeito de petróleo ganha ainda mais peso nas políticas sociais do governo federal e no orçamento das famílias de baixa renda. O GLP abastece fogões em 91% dos lares brasileiros e segue essencial para cozinhar, aquecer água e alimentar pequenos negócios.
Na Bahia, o impacto imediato está no varejo. O preço da tonelada vendida pela Acelen às distribuidoras cai de R$ 4.281 para R$ 3.985, uma diferença de R$ 296 por tonelada. A empresa afirma que os valores seguem critérios de mercado, ligados à cotação internacional do petróleo, ao câmbio e aos custos de transporte.
O Sindicato dos Revendedores de Gás de Cozinha, o Sindrevgás, espera que o consumidor perceba o alívio ao longo dos próximos dias, à medida que os estoques mais caros sejam escoados. “A queda no preço praticado pelas revendedoras deve ficar entre R$ 3 e R$ 4 por botijão”, diz o presidente da entidade, Roberto Souza.
Esse recuo parece modesto, mas pesa em orçamentos apertados. Em famílias que dependem de um salário mínimo, uma economia de R$ 4 por botijão, repetida a cada compra, libera recursos para alimentação e transporte.
Programa social puxa corrida por novos botijões
Enquanto o preço recua na saída da refinaria, a outra ponta da cadeia vive um estresse inédito. O programa federal Gás do Povo, lançado em 2025, já atende cerca de 15 milhões de famílias e amplia de forma acelerada a demanda por botijões de 13 quilos, os recipientes metálicos usados no abastecimento doméstico.
Para colocar esse benefício em prática, não basta subsidiar o conteúdo. É preciso ter botijões suficientes em circulação. O resultado aparece nas estatísticas de comércio exterior. No primeiro semestre de 2026, distribuidoras importam cerca de 515 mil botijões P13, mais de 90% fabricados na China.
O salto impressiona quando comparado a 2025. Em todo aquele ano, as importações somam apenas 9,9 mil unidades, num universo de 3,9 milhões de botijões novos que entram na cadeia. O crescimento em 2026 supera 52 vezes o volume do ano anterior e transforma um segmento até então quase irrelevante em ponto central de disputa econômica.
O Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome aponta que o Gás do Povo cobre hoje um contingente equivalente à população de um grande estado. Para manter o benefício e incorporar novos beneficiários, o governo precisa garantir não apenas o suprimento do combustível, mas também a disponibilidade física dos recipientes.
Indústria nacional x distribuidoras: a guerra da tarifa
É nesse cenário que fabricantes de botijões e distribuidoras de GLP se chocam em frentes opostas em Brasília. De um lado, indústrias como Mangels e Aratell pressionam o governo para elevar a tarifa de importação dos botijões de 12,6% para 25% por pelo menos um ano. Do outro, o Sindicato Nacional das Empresas Distribuidoras de Gás Liquefeito de Petróleo, o Sindigás, reage e defende a manutenção ou até a isenção do imposto.
A Mangels, dona de cerca de 30% do mercado, leva o pleito ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços e sustenta que a conta não fecha desde 2024. Naquele ano, o governo eleva o imposto sobre a importação de aço, principal matéria-prima dos botijões, a 25%, para proteger a siderurgia nacional. A tarifa sobre o produto acabado, porém, permanece em 12,6%.
Na avaliação da empresa, o fabricante brasileiro paga mais caro pelo aço enquanto concorre com recipientes importados, beneficiados por um imposto menor e muitas vezes por custos trabalhistas e energéticos mais baixos na origem. “A assimetria entre o custo da matéria-prima e o preço do produto final importado pode comprometer a viabilidade da produção local”, afirma a companhia.
Principal concorrente, a Aratell, com 25% de participação, se soma à pressão e alerta para perdas de emprego e freio em investimentos em tecnologia se a tendência de substituição por importados continuar.
Do lado das distribuidoras, o tom é oposto. O Sindigás diz receber com surpresa a proposta de aumento de imposto. Em nota, argumenta que “a medida ocorre justamente em um momento de forte expansão da demanda por recipientes, impulsionada pelo programa Gás do Povo, que ampliou significativamente a necessidade de incorporação de novos botijões ao mercado”.
A entidade sustenta que a indústria nacional não consegue, sozinha, entregar o volume adicional exigido pela política social. O padrão histórico de reposição dos recipientes P13 gira em torno de 2% ao ano, o equivalente a 2,6 milhões de unidades. Com a chegada dos beneficiários do Gás do Povo, o Sindigás calcula a necessidade de mais 10,5 milhões de botijões para atender os novos usuários.
Somando reposição e expansão, o mercado poderia demandar mais de 13 milhões de botijões em um intervalo relativamente curto. Para as distribuidoras, sem importações em grande escala o risco é de desabastecimento, com impacto direto sobre as famílias atendidas pelo programa.
Fabricantes contestam os números e afirmam que há capacidade para produzir bem mais que o registrado hoje. A Mangels estima que a demanda adicional real fique entre 900 mil e 1 milhão de unidades em 2026 e sustenta que o parque industrial brasileiro pode chegar a 12 milhões de botijões por ano se houver demanda firme.
GLP como infraestrutura invisível da economia
A disputa se dá em torno de um produto que costuma aparecer na crônica doméstica, mas sustenta segmentos inteiros da economia. O GLP, o gás GLP de botijão e a granel, vai muito além do fogão residencial. Abastece restaurantes, padarias, hotéis e pequenos comércios espalhados pelo país. No campo, é usado para secar grãos, aquecer granjas, controlar a temperatura de estufas e apoiar a produção de café.
Na indústria, o gás liquefeito de petróleo entra em processos que exigem calor estável, da fabricação de medicamentos e alimentos à indústria naval. A diferença entre gás GLP e o gás natural encanado, o GN, está justamente na forma de transporte e uso: o GLP chega em botijões ou tanques, inclusive em áreas sem rede de gasodutos, enquanto o GN depende de dutos fixos.
Essa capilaridade explica por que o GLP conecta a infraestrutura da economia brasileira. O produto chega porta a porta por uma rede de distribuição que alcança praticamente todos os municípios. O Sindigás reforça esse papel ao afirmar que “o GLP está presente em 91% dos lares brasileiros e chega porta a porta por uma rede de distribuição que alcança praticamente todos os municípios do país”.
O avanço de programas sociais como o Gás do Povo, ao subsidiar o gás de cozinha, transforma esse insumo em política pública de segurança alimentar. Em paralelo, a briga por tarifas e importações redefine o equilíbrio entre proteção industrial, defesa do emprego e garantia de abastecimento para milhões de famílias vulneráveis.
Pressão sobre o governo e próximos passos
No centro do tabuleiro, o governo federal precisa arbitrar entre demandas conflitantes. De um lado, fabricantes pedem aumento imediato da tarifa de importação de botijões para 25%, a fim de alinhar a proteção àquela dada ao aço e conter a entrada de recipientes chineses. De outro, distribuidoras pedem manutenção ou até zeragem do imposto para acelerar a chegada de novos vasilhames e reduzir o risco de falta de botijão em regiões atendidas pelo Gás do Povo.
A decisão terá efeitos que vão além da prateleira das revendas. Um imposto maior pode preservar fatias da indústria nacional, mas tende a encarecer o botijão novo e pressionar preços no médio prazo. Uma tarifa mais baixa pode garantir rapidez na expansão do parque de recipientes, mas fragiliza a produção local num mercado em que o aço já é mais caro.
Nos próximos meses, a tendência é de intensificação das negociações em Brasília, com a discussão tarifária caminhando em paralelo a eventuais incentivos à ampliação da capacidade produtiva brasileira. A continuidade da redução de preços na refinaria, como a praticada pela Acelen em Mataripe, dependerá da trajetória do petróleo, do câmbio e da própria política de subsídios ao GLP.
A combinação de gás mais barato na Bahia, expansão acelerada do Gás do Povo e a enxurrada de botijões chineses empurra o setor para um ajuste estrutural. O desfecho dirá se o país conseguirá, ao mesmo tempo, garantir gás acessível na ponta, manter a malha de abastecimento funcionando e evitar um apagão de investimentos na indústria nacional de botijões.
Qual o valor do gás de cozinha (GLP) hoje no Brasil?
O preço varia por estado, cidade e revenda. Na Bahia, a redução da Acelen deve aliviar em até R$ 4 o botijão de 13 kg, conforme os estoques antigos sejam substituídos.
Por que a importação de botijões de gás da China aumentou com o programa do governo?
O Gás do Povo ampliou o número de famílias atendidas e, com isso, a necessidade de botijões novos. Como a indústria local não supre todo o aumento no curto prazo, distribuidoras recorreram à importação, sobretudo da China.
Como o gás liquefeito de petróleo (GLP) conecta a infraestrutura da economia brasileira?
O GLP abastece 91% dos lares, além de restaurantes, hotéis, agropecuária e indústria. Chega por botijões e tanques a praticamente todos os municípios, inclusive onde não há rede de gás natural encanado.


