Fechamentos e reativações redesenham mapa industrial
Fechamento de fábrica de doces centenária nos EUA, reativação da Ceitec em São Caetano e incêndio em galpão em BH expõem desafios e apostas da indústria.
Economia
Mudanças recentes nas indústrias dos EUA e Brasil mostram desafios e oportunidades no setor produtivo.
Uma fábrica de doces centenária em Minnesota se prepara para desligar as máquinas até 28 de setembro de 2026, enquanto o Brasil reativa uma unidade de semicondutores e lida com um incêndio em galpão industrial em Belo Horizonte. Três histórias em países diferentes revelam a pressão sobre a indústria tradicional, as apostas tecnológicas e os riscos de manter fábricas encostadas em áreas residenciais.
Doce centenário fecha as portas e deixa 80 sem emprego
Em St. Paul, no estado de Minnesota, a Pearson’s Candy Company põe fim a 117 anos de produção contínua na West Seventh Street. A controladora Promise Confections comunica às autoridades o fechamento definitivo da unidade e a demissão de cerca de 80 funcionários.
A empresa alega que a operação deixa de ser sustentável diante do aumento dos custos de produção e da alta de preços de ingredientes. A fábrica antiga exige investimentos pesados de modernização que nunca chegam. Ex-executivos apontam que o problema não é isolado. “O setor de doces vem enfrentando uma pressão crescente, inclusive entre grandes empresas”, afirma Alex Allen, que foi vice-presidente de operações da Pearson por quatro anos.
O corte atinge uma região que convive com a marca há gerações. O doce mais conhecido, o Salted Nut Roll, nasce durante a Grande Depressão, é vendido a cinco centavos e vira parte da memória afetiva local. Para funcionários veteranos, o fechamento é também o fim de um capítulo pessoal. “O Salted Nut Roll continua sendo meu doce preferido. O encerramento representa a perda de um local ao qual dediquei parte importante da minha trajetória”, diz o ex-funcionário Dave Lutz, que passa quase 30 anos na linha de produção.
A Promise Confections tenta preservar parte desse legado ao estudar a transferência da produção de alguns itens para parceiros estratégicos. O plano ainda não está detalhado, mas a empresa sinaliza que pretende manter marcas tradicionais nas prateleiras, ainda que longe da fábrica original de St. Paul. A mudança, porém, desloca empregos e renda para outras regiões e deixa um galpão industrial vazio em um bairro que se acostuma com o cheiro de caramelo e amendoim torrado.
Brasil aposta em semicondutores de potência na Ceitec
Enquanto uma fábrica de doces encerra atividades, o Brasil reabre uma fábricade alta tecnologia. A Ceitec, em São Caetano do Sul, volta ao mapa industrial com foco em semicondutores de carbeto de silício, material conhecido pela sigla SiC. A unidade ocupa área próxima ao complexo da GM e mira diretamente a cadeia da indústria automobilística eletrificada.
Os dispositivos produzidos ali não são os chips de computadores e celulares que concentram os holofotes globais. A aposta recai sobre os chamados semicondutores de potência, peças que controlam o fluxo de energia em sistemas de alta tensão, como inversores de veículos elétricos, carregadores rápidos e módulos de controle de baterias. “Os dispositivos de SiC operam com tensões mais elevadas, suportam temperaturas maiores e apresentam perdas elétricas significativamente menores”, descreve o portal Carsughi.
Na prática, esses ganhos se traduzem em carros elétricos com maior autonomia, menor aquecimento de componentes, redução de peso em alguns sistemas e uso mais eficiente da energia estocada na bateria. A escolha por um nicho específico, em vez de disputar com gigantes como Intel, TSMC ou Samsung, indica uma estratégia mais realista. O Brasil tenta construir competência em uma área com demanda crescente, em que pode dialogar com sua própria base industrial, em vez de correr atrás dos processadores mais sofisticados do mundo.
O movimento ocorre em um momento em que montadoras globais, de Tesla a Hyundai, ampliam o uso de semicondutores de potência em seus modelos. Para o parque automotivo brasileiro, o efeito vai além do fornecimento direto de peças. A reativação da Ceitec empurra universidades, centros de pesquisa e fornecedores a formar engenheiros, desenvolver encapsuladoras e criar uma rede de empresas capaz de trabalhar com projetos complexos de eletrônica de potência.
Essa fábrica, que durante anos simboliza o fracasso de uma política industrial descontinuada, reaparece agora como teste de maturidade. Se vingar, ajuda a reduzir a dependência externa em componentes críticos e aumenta o conteúdo tecnológico produzido no país. Se fracassar, reforça o histórico de fábricas abandonadas e planos interrompidos. O governo e o setor privado ainda ajustam o ritmo de investimentos e a conexão entre a Ceitec e as grandes montadoras que operam no Brasil.
Incêndio em galpão revela risco de fábricas encravadas em bairros
Na madrugada de 7 de agosto de 2026, às 0h50, a rotina do bairro Pilar, em Belo Horizonte, vira de ponta-cabeça. Um incêndio atinge o galpão de uma fábrica de eletrodomésticos, ligada à empresa Suggar, e obriga a retirada apressada de moradores vizinhos. Em poucos minutos, chamas consomem plástico, papelão e grandes volumes de combustível armazenados no local.
O Corpo de Bombeiros desloca 11 viaturas e mais de 13 militares para conter o fogo. Os tanques instalados no galpão guardam entre 1.000 e 5.000 litros de combustível, incluindo óleo diesel. O risco de explosão e de colapso estrutural leva a Defesa Civil a isolar quatro imóveis próximos. Três são totalmente interditados por ameaça de desabamento, e um tem a área externa cercada por causa do perigo de projeção de materiais. “Embora não tenham sido diretamente atingidos pelo fogo, havia risco de que fossem afetados em caso de eventual colapso da estrutura do galpão”, informa a Defesa Civil de Belo Horizonte.
A atuação rápida impede que as chamas avancem para casas vizinhas. “O fogo foi controlado e não houve registro de feridos”, destaca o Corpo de Bombeiros de Belo Horizonte. Os moradores, porém, não voltam para casa. A Suggar se responsabiliza pela realocação preventiva das famílias enquanto as autoridades aguardam condições seguras para uma vistoria completa do galpão e das construções ao redor.
O episódio expõe de forma dramática o conflito entre uso industrial e ocupação residencial em áreas urbanas. Depósitos com combustível, materiais inflamáveis e estruturas envelhecidas colados em casas escancaram falhas de planejamento e de fiscalização. A cada interdição, cresce a pressão por regras mais rígidas de armazenagem, rotas de fuga e licenciamento em bairros onde a fábrica produtora divide parede com quintais e comércios.
O caso em Belo Horizonte deve alimentar discussões sobre responsabilidade da empresa proprietária do galpão, eventuais indenizações e necessidade de rever alvarás. Também recoloca na agenda municipal o mapeamento de pontos de risco em regiões industriais cercadas por moradias, para evitar que a próxima emergência termine com vítimas.
Mapas que se movem: do doce ao chip, passando pelo fogo
Os três episódios mostram um mesmo fio condutor: a transformação do mapa industrial, em um momento em que fábricas tradicionais perdem fôlego, unidades de alta tecnologia ganham espaço e estruturas antigas em zonas urbanas expõem riscos à vizinhança. Em St. Paul, o fechamento da Pearson’s Candy Company representa perda econômica e simbólica, com 80 famílias diretamente atingidas e um ícone local empacotado em silêncio. Em São Caetano do Sul, a Ceitec tenta provar que o Brasil pode escolher nichos estratégicos e, com isso, evitar a condição de mero consumidor de tecnologia.
Em Belo Horizonte, o incêndio no bairro Pilar deixa claro que a discussão sobre fábricas não se limita a emprego e competitividade. Envolve segurança cotidiana, planejamento urbano e a linha tênue entre uma fábrica de fabricar riqueza e uma estrutura que pode se tornar, de uma hora para outra, um foco de risco para toda a vizinhança.
Os próximos meses devem trazer respostas. A Promise Confections ainda precisa detalhar como e onde manterá a produção de doces como o Salted Nut Roll e que tipo de apoio oferecerá aos demitidos. A Ceitec terá de mostrar capacidade de sair do papel e abastecer, em escala relevante, a cadeia de veículos eletrificados. Em Belo Horizonte, laudos estruturais e eventuais processos judiciais vão indicar se o galpão volta a operar, é reformado ou entra para a lista de fábricas abandonadas que pontuam as cidades brasileiras. Enquanto isso, trabalhadores, engenheiros e moradores seguem tentando se equilibrar nesse tabuleiro em que cada fábrica, com acento ou sem acento na memória de quem a vive, redefine o entorno quando liga ou desliga suas máquinas.
Por que a fábrica de doces centenária fechou e quais os impactos para os funcionários?
A Pearson’s Candy Company fecha a unidade de St. Paul por dificuldades financeiras, alta de custos e falta de modernização. O encerramento até 28 de setembro de 2026 demite cerca de 80 funcionários, afetando sua renda e a economia local.
Como o incêndio em galpão de fábrica em BH afetou os imóveis ao redor?
O fogo em galpão no bairro Pilar não atingiu diretamente as casas vizinhas, mas o risco de colapso da estrutura levou à interdição de três imóveis e ao isolamento parcial de um quarto. Moradores foram retirados preventivamente e realocados pela empresa responsável.
O que o Brasil espera da fábrica de semicondutores Ceitec para o mercado de chips?
A reativação da Ceitec mira semicondutores de carbeto de silício, voltados à eletrônica de potência. A expectativa é suprir parte da demanda da indústria automobilística eletrificada, gerar empregos qualificados e fortalecer a cadeia tecnológica nacional em um nicho específico, sem competir com os grandes produtores globais de processadores.


