Anúncios políticos com IA crescem 220% nos EUA e geram alerta
Levantamento registra 220 anúncios políticos com inteligência artificial nas eleições de meio de mandato dos EUA. Gastos chegam a US$ 137 milhões e falta de transparência preocupa.

Tecnologia
Aumento expressivo de anúncios políticos com IA nas eleições americanas levanta questões sobre transparência e gastos elevados.
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Às vésperas das eleições de meio de mandato nos Estados Unidos, marcadas para 3 de novembro, o uso de inteligência artificial em anúncios políticos explode e acende o alerta de pesquisadores e parlamentares sobre desinformação, falta de transparência e efeitos no debate público.
Um levantamento do Wesleyan Media Project identificou 220 anúncios produzidos com IA circulando na campanha deste ano. As peças são usadas por candidatos republicanos e democratas, mas a imensa maioria dos recursos parte de candidatos e grupos ligados ao Partido Republicano, que apoiam nomes como o senador Ted Cruz, no Texas.
Uso de IA cresce e quase não é avisado ao eleitor
Dos 220 anúncios identificados, apenas 27% incluem algum aviso de que foram “criados, total ou parcialmente, com o auxílio de inteligência artificial”. No restante, o eleitor não tem como saber, de imediato, se está diante de imagens, áudios ou vídeos gerados ou alterados por máquina.
O volume de dinheiro movimentado mostra a mudança de patamar: neste ano, os gastos com anúncios políticos que usam IA somam mais de US$ 137 milhões, muito acima dos cerca de US$ 50 mil registrados em 2024. Os pesquisadores do Wesleyan Media Project avaliam ainda que o número real de peças com IA deve ser maior, já que muitos conteúdos não são facilmente detectáveis.
Segundo o levantamento, quase 81% dos anúncios rastreados foram financiados por candidatos republicanos ou grupos aliados; democratas respondem por 12%, e o restante vem de organizações independentes. A expansão desse tipo de peça, que ganhou o apelido de “slopaganda” — propaganda política de baixa qualidade gerada por IA —, é impulsionada pelo baixo custo de produção e pela rapidez com que imagens e narrativas podem ser montadas.
Entenda o contexto
Não há hoje, em nível federal, uma regra que obrigue campanhas nos EUA a informar o uso de inteligência artificial em anúncios políticos. Alguns estados criaram normas próprias, impondo avisos ou limitando o uso da tecnologia, mas essas regras são fragmentadas e não cobrem todo o país.
A lacuna regulatória abre espaço para que campanhas explorem a IA tanto para dramatizar fatos reais quanto para sugerir situações distorcidas ou claramente falsas, sem que o público perceba onde termina o registro documental e começa a montagem sintética.
Exemplo em Michigan: imagem de muçulmano associada a terrorismo
Um dos casos que mais chamaram atenção envolve Abdul El-Sayed, candidato democrata ao Senado por Michigan. Em um vídeo produzido por uma organização ligada ao senador republicano Ted Cruz, El-Sayed aparece segurando cartas de um jogo de tabuleiro com as frases “Morte aos EUA” e “Celebre o 11 de Setembro”, em referência aos atentados em Nova York.
“A destruição de Israel e do Ocidente não é apenas um jogo para eles. É uma missão”, diz o narrador do anúncio. A peça ainda inclui uma imagem de família gerada por IA em que o candidato, muçulmano e filho de egípcio, aparece ao lado de quatro mulheres cobertas por véus integrais.
Diferentemente da maioria dos anúncios com IA, esse vídeo informa, em aviso discreto, que foi “criado, total ou parcialmente, com o auxílio de inteligência artificial”. Especialistas apontam, porém, que o rótulo é pouco para compensar o impacto visual de associações entre religião, terrorismo e ameaça ao Ocidente.
Senador Jon Ossoff critica “caminho perigoso”
Na Geórgia, o senador democrata Jon Ossoff, que tenta a reeleição, tornou-se uma das vozes mais duras contra o avanço da IA na propaganda. Ele classificou o fenômeno como “profundamente preocupante” e afirmou que o país segue “um caminho perigoso rumo à destruição da verdade no debate político”.
Ossoff pediu que fosse retirado do ar um anúncio que o mostrava em um salão de beleza, sugerindo que ele estaria “maquiando” seu relatório de prestação de contas. O vídeo, financiado pelo Senate Leadership Fund, grupo que apoia candidatos republicanos ao Senado, usa IA sem qualquer aviso ao espectador.
Para o senador, o risco não se limita a ataques pessoais, mas ao desgaste geral da confiança do eleitor naquilo que vê e ouve durante a campanha. “Quando tudo pode ser fabricado, a própria noção de prova visual fica em xeque”, resumem assessores e especialistas em campanhas digitais.
Eleitores rejeitam IA nas campanhas
A resistência do público à tecnologia na política aparece nas pesquisas. Um levantamento encomendado pela Fundação AAPC mostra que 73% dos entrevistados consideram “inaceitável” o uso de inteligência artificial em campanhas eleitorais.
Para pesquisadores ouvidos no estudo, esse dado indica que há um descompasso entre a intensidade com que campanhas adotam a IA e a disposição do eleitor em aceitar a prática, sobretudo quando ela serve para distorcer ou dramatizar informações sobre candidatos.
Impacto na eleição é incerto, mas mobilização cresce
Relatório recente do Centro de Política Tecnológica da Universidade de Nova York avalia que a “slopaganda” não deve, por si só, decidir quem vence ou perde em 3 de novembro. O documento conclui que anúncios políticos gerados com IA são “provavelmente mais eficazes na mobilização de eleitores ou na arrecadação de fundos do que na influência na eleição de um candidato”.
O raciocínio é que, em um ambiente já saturado de conteúdos digitais, peças de baixa qualidade e alta repetição podem ser suficientes para manter apoiadores engajados, indignados ou dispostos a doar, mesmo que não convençam indecisos. Ao mesmo tempo, o excesso de materiais gerados por IA tende a anestesiar parte do público, “particularmente à medida que nos tornamos cada vez mais sobrecarregados pela confusão gerada pela IA”, aponta o relatório.
Com a votação de meio de mandato marcada para 3 de novembro, o cenário é de campanha inundada por imagens e vídeos cada vez mais difíceis de checar, enquanto pesquisadores, políticos e eleitores discutem como — e se — o sistema eleitoral americano deve reagir a esse novo tipo de propaganda.


