Apple alerta 100 políticos alemães sobre ataque grave de spyware
Parlamentares do Bundestag e outras figuras públicas receberam alertas da Apple sobre possíveis ataques de spyware estatal com falhas zero‑click. BSI manda tratar iPhones como comprometidos.

Segurança Digital
Apple avisa líderes alemães sobre ameaças sofisticadas de spyware que exploram vulnerabilidades críticas em iPhones.
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Parlamentares do Bundestag e outras figuras públicas na Alemanha foram avisados pela Apple de que seus iPhones podem ter sido alvo de spyware patrocinado por governos, em ataques que exploram falhas chamadas de zero-click e não exigem qualquer ação do usuário. O governo alemão afirma tratar o caso como questão séria de segurança nacional.
Governo alemão manda tratar celulares como comprometidos
O alerta começou após a Apple disparar notificações de ameaça a diversos usuários, indicando tentativas de invasão com uso de programas espiões capazes de acessar mensagens, localização e outros dados sensíveis. Entre os notificados estão membros do parlamento alemão e pessoas públicas ainda não identificadas.
O Escritório Federal de Segurança Cibernética da Alemanha (BSI) divulgou orientação direta a quem recebeu o aviso da Apple. “Qualquer pessoa que receba uma notificação de ameaça da Apple deve assumir que seu dispositivo pode ter sido comprometido”, afirmou o órgão em comunicado.
O porta-voz do governo alemão, Stefan Kornelius, disse que “o governo em Berlim está levando o incidente e o alerta muito a sério”, mas evitou confirmar quais autoridades foram afetadas ou se integrantes da cúpula do Executivo estão entre os alvos.
Entenda o contexto
As notificações da Apple são enviadas periodicamente a usuários que, segundo os sistemas da empresa, podem ter sido alvo de ataques com spyware avançado. Essas ferramentas costumam explorar vulnerabilidades zero-click: falhas que permitem a invasão sem que a vítima clique em links, abra anexos ou faça qualquer interação perceptível.
Nesse tipo de ataque, o espião digital é instalado de forma quase invisível e pode dar ao operador acesso a conversas privadas, histórico de localização, arquivos armazenados e até ao microfone e à câmera do aparelho, comprometendo não só a privacidade pessoal como também informações estratégicas de governo e partidos.
Empresas de tecnologia e especialistas em segurança classificam esse tipo de ameaça como de “alto nível”, pois costuma ser caro de desenvolver e operar, sendo normalmente associado a serviços de inteligência e forças de segurança estatais.
Ataques atingem usuários em 99 países
A atual leva de avisos da Apple não se restringe à Alemanha. De acordo com as notificações enviadas pela empresa, usuários em 99 países receberam o mesmo tipo de alerta nas últimos dias, sugerindo uma campanha de espionagem em escala global.
Um dos notificados é o cineasta Radwan Mortada, que vive em Beirute. Em uma publicação nas redes sociais, ele relatou ter recebido uma nova mensagem da Apple informando que “outro ataque contra seu dispositivo foi detectado”, após já ter sido alvo de spyware anteriormente.
A Apple não indica qual governo ou grupo está por trás das tentativas de invasão, nem confirma se o telefone foi de fato comprometido, limitando-se a avisar sobre forte suspeita de ataque e a recomendar medidas de proteção, como atualização imediata do sistema, revisão de configurações e busca de suporte especializado.
Espionagem estatal e mercado de spyware privado
O episódio reacende o debate sobre o uso de spyware por governos contra autoridades políticas, jornalistas e membros da sociedade civil. Em muitos casos, os Estados não desenvolvem internamente esse tipo de ferramenta, mas compram soluções prontas de empresas privadas especializadas em “spyware mercenário”.
Entre os nomes mais conhecidos do setor está o grupo israelense NSO, responsável pelo software Pegasus, um dos exemplos de ferramenta que explora falhas zero-click para acessar celulares à distância. A agência federal alemã BKA já admitiu ter adquirido acesso ao Pegasus em 2019, o que alimenta questionamentos sobre o alcance e o controle dessas tecnologias.
Para organizações de direitos digitais, o uso de spyware contra parlamentares, ativistas e profissionais de imprensa coloca em xeque a integridade de processos democráticos e a proteção de fontes e informações sensíveis. Na prática, invasões desse tipo podem influenciar negociações políticas, estratégias partidárias e até decisões de governo.
Próximos passos e impactos políticos
A tendência, segundo especialistas ouvidos por autoridades europeias em episódios recentes, é que o governo alemão intensifique protocolos de segurança digital, com revisão de aparelhos usados por autoridades, adoção obrigatória de atualizações e, possivelmente, substituição de dispositivos considerados de alto risco.
A escala dos avisos da Apple, envolvendo 99 países, também deve alimentar pressão por regras mais rígidas sobre compra e uso de spyware estatal, além de cooperação internacional para investigar quem está por trás das campanhas atuais. No campo político, partidos e parlamentares devem cobrar mais transparência de agências de segurança e discutir limites legais para vigilância eletrônica.


