Bispos dos EUA alertam que IA pode ampliar perseguição religiosa
Em declaração para o Dia Internacional da Liberdade Religiosa, bispos dos EUA alertam que a inteligência artificial pode intensificar vigilância e perseguição a grupos religiosos no mundo.

Inteligência Artificial
Bispos americanos destacam riscos da IA para a liberdade religiosa global, enfatizando ameaças crescentes a minorias.
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Em declaração conjunta divulgada no contexto do Dia Internacional da Liberdade Religiosa, celebrado em 27 de outubro, os bispos norte-americanos A. Elias Zaidan e Alexander Sample afirmam que os avanços em inteligência artificial podem ampliar a vigilância e a perseguição contra grupos religiosos em todo o mundo, se não forem guiados por critérios éticos e pelo respeito à dignidade humana.
Bispos veem risco de vigilância digital contra fiéis
O bispo A. Elias Zaidan, que lidera a Eparquia Maronita de Nossa Senhora do Líbano de Los Angeles e preside o Comitê de Justiça e Paz Internacional da Conferência dos Bispos Católicos dos Estados Unidos, e o arcebispo Alexander Sample, de Portland, Oregon, presidente do Comitê de Liberdade Religiosa, assinam a nota que liga diretamente tecnologia e direitos humanos.
Para eles, o cenário já é grave: “milhões de pessoas continuam a sofrer violações do direito humano básico à liberdade religiosa, e ferramentas tecnológicas em rápido desenvolvimento, como a inteligência artificial, têm o potencial de expandir tais abusos, aumentando o alcance da vigilância e da perseguição de grupos religiosos”, escreveram.
Na prática, os bispos alertam para o uso de sistemas de reconhecimento de padrões e análise de dados em larga escala para monitorar práticas de fé, mapear redes de fiéis, identificar líderes religiosos e segmentar comunidades vulneráveis, abrindo caminho para novas formas de controle, discriminação e violência.
Chamado à ação conjunta com governos e empresas
No texto, Zaidan e Sample insistem que a resposta não pode ficar restrita às igrejas. “Nesta era de mudança tecnológica, toda a sociedade — incluindo o setor privado — é chamada a trabalhar em conjunto para garantir que as ferramentas tecnológicas não sejam usadas para facilitar formas novas e intensificadas de discriminação religiosa”, afirmam.
O apelo mira diretamente empresas de tecnologia, governos e organismos internacionais, que concentram hoje o poder de desenvolver, regular e aplicar sistemas de IA capazes tanto de proteger quanto de violar direitos fundamentais. A avaliação dos bispos é que decisões de desenho de produto, coleta de dados, uso de vigilância digital e compartilhamento de informações sensíveis podem determinar se a tecnologia servirá à proteção ou à perseguição de grupos religiosos.
Segundo a declaração, a Conferência dos Bispos Católicos dos Estados Unidos mantém parceria com a Comissão dos Estados Unidos sobre Liberdade Religiosa Internacional para enfrentar violações desse direito em escala global. “Esta parceria é um testemunho do poder dos esforços conjuntos de líderes governamentais e religiosos para proteger este direito tão precioso”, escreveram os dois.
Entenda o contexto
O alerta é feito no contexto do Dia Internacional da Liberdade Religiosa, em 27 de outubro, data que remete à assinatura, em 1998, da Lei Internacional de Liberdade Religiosa, marco da política externa norte-americana na área de direitos humanos.
Ao trazer a inteligência artificial para o centro do debate, os bispos ligam uma pauta tradicionalmente ligada à diplomacia e à defesa de minorias à agenda tecnológica global. Organizações de direitos humanos e especialistas em regulação de IA vêm apontando riscos como perfis automatizados de cidadãos por crença, vigilância de locais de culto e uso de algoritmos para identificar, classificar ou bloquear conteúdos religiosos.
Dignidade humana como critério para a IA
Na declaração, Zaidan e Sample recorrem ao magistério da Igreja para defender que qualquer uso de IA deve partir da centralidade da pessoa. Eles citam a encíclica Magnifica Humanitas, do papa Leão XIII, segundo a qual o “direito à liberdade religiosa está enraizado na dignidade humana, fornecendo ‘critérios decisivos’ para proteger indivíduos e sociedades”.
Os bispos afirmam que, na era da inteligência artificial, essa dignidade precisa continuar no centro da defesa da liberdade religiosa. A mensagem mira tanto legislações nacionais quanto normas internacionais e diretrizes internas de empresas de tecnologia, que hoje definem parâmetros de uso de dados, moderação de conteúdo e cooperação com governos em pedidos de informação e vigilância.
Para o campo religioso, o recado é que garantir liberdade de culto e de expressão de fé agora passa também por acompanhar debates técnicos, participar de instâncias regulatórias e dialogar com desenvolvedores de tecnologia para que os sistemas sejam concebidos com salvaguardas contra discriminação.
Impacto global e apelo espiritual
A declaração tem alcance internacional: embora emitida a partir dos Estados Unidos, ela trata de violações em diferentes regiões, com foco especial em comunidades já vulneráveis a regimes autoritários, conflitos armados ou extremismo, que podem ser ainda mais expostas pela combinação de vigilância digital, bancos de dados massivos e algoritmos de identificação.
Ao final do texto, os bispos ligam o alerta político a um chamado espiritual, situando a mensagem no ano em que os Estados Unidos celebram o 250º aniversário de sua independência. “Neste 250º ano comemorando a independência americana, que o Sagrado Coração de Jesus, ardendo de amor por toda a humanidade, nos torne faróis de esperança para nossos irmãos e irmãs em todo o mundo, defendendo a liberdade religiosa na era digital”, escreveram Zaidan e Sample.
A expectativa, entre organizações ligadas ao tema, é que o posicionamento fortaleça debates sobre regulação ética da inteligência artificial, pressione governos a incluir a proteção da liberdade religiosa em leis e diretrizes sobre tecnologia e incentive outras lideranças religiosas, entidades civis e empresas a se comprometerem com mecanismos concretos para impedir o uso abusivo da IA contra a fé de indivíduos e comunidades.
