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Inteligência Artificial

Explosão de data centers acende alerta climático e político

Crescimento de data centers para IA pressiona energia e água, provoca moratórias em vários países e vira tema quente na política dos EUA, mostra análise de Paris Marx.

Explosão de data centers acende alerta climático e político

Tech Desk

O aumento dos data centers para IA gera desafios ambientais e políticos globais, impactando recursos essenciais e políticas públicas.

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A corrida global por data centers para alimentar a inteligência artificial generativa transformou essas instalações em foco de disputa política e ambiental, com comunidades da Irlanda aos Estados Unidos denunciando consumo excessivo de energia e água e pressionando por freios regulatórios e transparência.

Quais são os principais motivos dos protestos contra data centers nos EUA?

Os protestos se concentram em três frentes principais: o peso dos data centers sobre redes de energia já pressionadas, o uso intenso de água em regiões vulneráveis e a sensação de que os benefícios econômicos prometidos não compensam os impactos locais.

O caso de The Dalles, no Oregon, é citado como símbolo dessas tensões. Paris Marx, autor de “Hyperscale: The Ambition and Excess of Big Tech’s Data Empires”, lembra que a comunidade só descobriu, após forte pressão, que “Google estava usando 29% da água na comunidade”. Antes disso, a empresa atuou para manter os dados em sigilo por decisão do conselho municipal.

Além da água, o aumento da demanda elétrica para sustentar aplicações como o ChatGPT obriga operadoras de rede a rever planos de expansão e até negar novas conexões. Em alguns estados norte-americanos, moradores e ambientalistas contestam projetos de usinas a gás construídas exclusivamente para alimentar parques de data centers, temendo mais emissões de gases de efeito estufa e a criação de uma “infraestrutura paralela” privada.

A proximidade das eleições legislativas de meio de mandato nos Estados Unidos amplifica o debate. Em disputas locais e estaduais, candidatos são cobrados a se posicionar sobre novos empreendimentos de Big Tech, subsídios públicos para infraestrutura elétrica e regras de transparência sobre o consumo de recursos. A pauta dos data centers entra no pacote maior das promessas e frustrações em torno da inteligência artificial generativa.

Como os movimentos internacionais contra data centers influenciam os protestos nos EUA?

As experiências de países que viveram antes esse boom, como Irlanda, Holanda e Singapura, viram espécie de manual de alerta para ativistas e autoridades nos Estados Unidos. Marx diz que muitos americanos tratam os conflitos em torno de data centers como algo “de repente novo”, mas ressalta que a história já vinha se desenrolando no exterior.

A Irlanda é o exemplo mais citado. A capital, Dublin, chegou a adotar uma moratória à conexão de novos data centers após o operador da rede de energia avisar que o sistema não suportaria mais carga. “O operador da rede disse: ‘Há data centers demais. Não temos capacidade para conectar mais’”, relata Marx. Diante do bloqueio, empresas passaram a buscar outras regiões do país e a se apoiar em geradores a gás e usinas dedicadas, contornando o limite da rede pública.

Segundo Marx, “as empresas começaram a construir usinas a gás dedicadas para alimentar os data centers”, repetindo agora nos Estados Unidos a mesma estratégia testada na Irlanda: em vez de disputar energia no sistema comum, erguer fontes privadas, o que levanta dúvidas sobre justiça na distribuição e enfraquecimento de metas climáticas nacionais.

Holanda e Singapura também recorreram a moratórias, preocupadas com a velocidade da expansão e com a dificuldade de conciliar metas de clima com a sede por infraestrutura digital para IA. Esses precedentes internacionais são usados por movimentos comunitários e organizações ambientais nos EUA para pressionar por pausas, avaliações de impacto cumulativo e limites locais ao número de empreendimentos.

Entenda o contexto

No livro recém-lançado, Paris Marx traça uma linha histórica que vai de protestos contra o uso de computadores norte-americanos na Guerra do Vietnã a resistências atuais na Irlanda, Chile e Nova Zelândia. O fio condutor é a forma como a infraestrutura digital, hoje materializada sobretudo em gigantescos data centers, concentra poder econômico e influencia decisões políticas.

Com a popularização da inteligência artificial generativa, a partir da explosão de ferramentas como o ChatGPT, a demanda por capacidade de processamento disparou. A indústria de tecnologia corre para erguer novos complexos de servidores, enquanto operadores de rede alertam para riscos de sobrecarga e governos tentam manter de pé metas de redução de emissões.

Marx admite surpresa com o timing da obra. “Eu certamente não previ que tudo isso iria culminar justamente quando meu livro estava saindo”, afirma. O lançamento ocorre num momento em que data centers já são tema de campanhas eleitorais em distritos-chave nos EUA e começam a surgir como ponto de atrito também em eleições europeias.

Risco de bolha da IA e infraestrutura ociosa

Para além dos impactos imediatos, o autor alerta para o risco de que o atual boom de data centers e usinas a gás termine em um estouro de bolha semelhante ao da internet no início dos anos 2000, quando muitos operadores de infraestrutura quebraram e ativos foram vendidos a preço de oportunidade.

“Estamos em uma bolha da IA. Mas como será o colapso dessa bolha?”, questiona Marx. Ele lembra que, desta vez, a aposta está amarrada a chips altamente especializados e ciclos de troca muito rápidos. Mesmo que os prédios de data centers permaneçam de pé, parte do que hoje os torna valiosos pode tornar-se tecnologicamente defasado antes que a demanda se consolide.

O risco, para ele, é duplo: de um lado, comunidades arcam com o custo ambiental e territorial de grandes complexos de TI e usinas fósseis; de outro, se a demanda não se confirmar, essas estruturas procurarão novos clientes, mantendo a dependência de combustíveis fósseis e travando a transição energética.

Alternativas e regulação em disputa

No capítulo final, Marx destaca uma experiência na Nova Zelândia em que uma comunidade indígena usa provedores locais de nuvem para treinar um sistema de reconhecimento de fala em língua maori, num arranjo pensado para ser menos extrativo e mais alinhado a interesses locais.

O exemplo é apresentado como contraponto ao modelo dominante de Big Tech, que concentra centros de dados em polos de energia barata e legislações flexíveis, exportando impactos ambientais e sociais. O autor defende que essa é a hora de governos “irem com força” na regulação tanto da infraestrutura de data centers quanto dos próprios produtos de IA, questionando quanto poder computacional é de fato necessário e o que a sociedade recebe em troca.

Para Marx, a narrativa otimista vendida por executivos do Vale do Silício não se sustenta diante dos danos já identificados e da escala de recursos alocados. A pressão de comunidades, somada a experiências de países que já fincaram limites à expansão desenfreada, tende a pautar as próximas decisões regulatórias nos EUA e em outras regiões que hoje correm para atrair ou conter esses megaprojetos digitais.