Brasileiros lideram uso diário de IA no trabalho e crescem 36%
Levantamento com 49,3 mil profissionais em 48 países mostra que o Brasil já supera a média mundial no uso de inteligência artificial no trabalho e planeja ampliar ainda mais a adoção.

Inteligência Artificial
Pesquisa revela que o Brasil está à frente na adoção diária de IA no ambiente profissional, superando a média global.
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Profissionais brasileiros já usam mais inteligência artificial no trabalho do que a média global e querem ampliar ainda mais essa adoção nos próximos meses, indica uma pesquisa global feita com 49.364 trabalhadores em 48 países, sendo 1.000 no Brasil. Segundo o levantamento, 75% das equipes brasileiras recorreram à IA no trabalho nos últimos 12 meses, ante 64% no mundo, o que acende um alerta para empresas que ainda tratam a tecnologia como algo periférico.
Brasil à frente na adoção da IA
O estudo mostra que o uso cotidiano da IA generativa também é mais intenso por aqui: 36% dos profissionais brasileiros dizem usar a tecnologia todos os dias, contra 22% da média global. Quase metade da amostra total, 48%, ocupa cargos de liderança, o que indica um engajamento relevante de gestores e executivos com a nova ferramenta.
Para Camila Cinquetti, sócia e líder para gestão de pessoas da PwC Brasil, os dados confirmam uma abertura maior do brasileiro à transformação digital. “Os brasileiros demonstram estar mais preparados e abertos à transformação impulsionada pela IA do que a média global”, afirma. Segundo ela, “77% esperam ampliar o uso da tecnologia no próximo ano, percentual acima dos 59% registrado no mundo”.
A pesquisa aponta três fatores principais por trás dessa adesão mais forte: confiança na capacidade de aprender novas habilidades, maior receptividade à mudança e uma visão predominantemente positiva da IA. “Os brasileiros demonstram mais confiança na capacidade de aprender novas competências, apresentam maior receptividade à mudança e encaram o avanço da IA de forma predominantemente positiva”, resume Cinquetti.
IA já muda tarefas complexas no dia a dia
Mais da metade dos usuários brasileiros de IA, 51%, afirmam que a tecnologia melhora ou elimina partes mais complexas e difíceis do trabalho, porcentual bem acima dos 38% registrados na média global. As mudanças se concentram em funções que lidam com volume alto de informação e demanda intelectual intensa.
“Estamos falando de atividades que envolvem análise, interpretação de informações, resolução de problemas, produção de conteúdo, pesquisa e planejamento, além de elaboração de hipóteses, apoio à tomada de decisão e geração de ‘insights’”, detalha Cinquetti. Setores como tecnologia, marketing, finanças e recursos humanos aparecem entre os mais impactados por esse redesenho de tarefas.
Como quase metade dos respondentes está em posições de gerência ou superiores, o efeito tende a alcançar diretamente a forma como decisões são tomadas nas empresas, do planejamento estratégico ao acompanhamento de metas. A pesquisa indica que, quando bem integrada aos fluxos de trabalho, a IA pode encurtar ciclos de análise, apoiar diagnósticos mais rápidos e liberar tempo de profissionais qualificados para atividades de maior valor agregado.
Entenda o contexto
O levantamento foi realizado entre maio e junho, com respostas ponderadas por gênero e idade para refletir a composição da população economicamente ativa em cada país. No Brasil, o recorte de mil profissionais inclui diferentes níveis hierárquicos e setores, com destaque para a presença de lideranças, que representam 48% da amostra.
Os resultados aparecem em um momento em que empresas brasileiras aceleram a transformação digital, pressionadas por ganhos de produtividade, competição global e mudanças no comportamento do consumidor. Nesse cenário, a maior disposição dos trabalhadores a experimentar novas ferramentas pode se tornar uma vantagem competitiva para organizações capazes de incorporar a IA de forma estruturada.
Por outro lado, o estudo sugere um risco de ampliação de desigualdades dentro do mercado de trabalho: áreas e profissionais menos preparados para a adoção tecnológica podem ter mais dificuldade para se adaptar, o que tende a reforçar diferenças salariais e de empregabilidade entre quem domina as novas competências e quem fica para trás.
Desafio das empresas vai além da tecnologia
Na avaliação de Cinquetti, o movimento em curso exige das organizações uma transformação que não é apenas técnica, mas também cultural e organizacional. “O desafio das companhias agora é redesenhar processos, funções e formas de trabalhar para transformar esse uso em resultados concretos”, afirma.
A especialista aponta quatro frentes prioritárias para capturar o potencial da IA no ambiente corporativo. A primeira é reconfigurar fluxos de trabalho para incorporar a tecnologia de maneira consistente, e não como iniciativas isoladas em poucos times. Em seguida, investir em aprendizado contínuo e desenvolvimento de competências digitais para toda a força de trabalho, reduzindo o temor de obsolescência profissional.
Outro ponto é criar incentivos claros à experimentação e ao uso responsável da IA, permitindo que as equipes testem aplicações no dia a dia sem abrir mão de critérios de segurança, privacidade e ética. Por fim, vem a capacitação dos gestores para liderar essa mudança, desde a definição de prioridades até a gestão de equipes que combinam pessoas e sistemas inteligentes.
Para Cinquetti, organizações que conseguirem alinhar esses elementos tendem a largar na frente. “As empresas que conseguirem combinar tecnologia com capacidades humanas, como julgamento, criatividade e relacionamento, estarão mais bem posicionadas para capturar valor dessa transformação”, diz.
Os próximos passos indicados pelo estudo incluem a criação de programas estruturados de treinamento em IA, revisão de descrições de cargos e processos de seleção, além de discussões mais frequentes sobre carreira, empregabilidade e desenvolvimento interno. A expectativa de que 77% dos profissionais brasileiros ampliem o uso da tecnologia no próximo ano sugere que a janela para redesenhar o trabalho já está aberta — e que as organizações que demorarem a agir correm o risco de ficar para trás em produtividade e competitividade.

