Carney faz apelo final contra separação de Alberta
Às vésperas do referendo que pode abrir caminho para a independência de Alberta, Mark Carney percorre a província em defesa da unidade do Canadá e alerta para riscos econômicos e políticos.

Política
Mark Carney alerta sobre os impactos econômicos e políticos da possível independência de Alberta antes do referendo decisivo.
Leia também: Netflix demite 1.000 funcionários em grande corte
Às vésperas do referendo que pode abrir caminho para a independência de Alberta, o primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, fez um apelo final aos eleitores neste fim de semana, em comícios em Edmonton e Calgary, para que rejeitem o processo separatista e mantenham a província no país, alertando para anos de incerteza política e econômica em caso de avanço rumo à ruptura.
Carney alerta para “blefe perigoso” e pede alta participação
Nos eventos pró-Canadá, Carney insistiu que o resultado da votação de segunda-feira depende diretamente da mobilização dos eleitores. “Don’t let anyone tell you this is already decided. Turnout will determine the outcome”, disse o premiê em Edmonton, onde cresceu.
Ele classificou o referendo como uma aposta arriscada em meio a um cenário internacional adverso, marcado por pressão comercial dos Estados Unidos e ameaças à soberania canadense. “This is not a game. This is not poker. A vote against Canada is a dangerous bluff that will lead to years of deep uncertainty and lost opportunities for Albertans and Canadians”, afirmou.
Carney também acusou atores estrangeiros de tentar explorar divisões internas. “Some outside our borders are working to break us so they can own us. Never. Never”, discursou, ao defender a unidade como condição para enfrentar disputas comerciais e reduzir a dependência econômica do Canadá em relação aos EUA.
Em tom pessoal, o primeiro-ministro buscou se aproximar dos eleitores, lembrando suas raízes na província. “Alberta is my home. I grew up here. This city, this province, this country have given me everything: my family, my education, my values”, disse, sob aplausos.
Referendo abre processo para futuro plebiscito
A votação de segunda-feira não decide diretamente a independência. Os moradores de Alberta vão escolher se a província permanece como parte do Canadá ou se autoriza o governo local a iniciar o processo legal para um futuro referendo sobre a separação.
Alberta concentra a maior parte das reservas comprovadas de petróleo do país, a quarta maior do mundo, e é peça central da economia canadense. Romper o vínculo federativo, alertam especialistas e autoridades federais, poderia desencadear fuga de investimentos, incerteza regulatória e impactos em cadeia na indústria de petróleo e gás, no mercado financeiro e nas exportações de energia.
Pesquisas recentes citadas pela própria liderança provincial indicam que 22% dos albertanos apoiam a separação — uma minoria, mas considerada expressiva e suficiente para manter a tensão política elevada.
Unidade rara entre Carney e Danielle Smith
Em um gesto incomum de convergência entre liberais e conservadores, Carney dividiu o palanque com a primeira-ministra de Alberta, Danielle Smith, em Red Deer. Ela é responsável por convocar o referendo, mas afirma ser contra a independência.
Smith elogiou a mudança de clima com o governo federal sob Carney, após anos de confrontos com o antecessor Justin Trudeau em temas como imposto sobre carbono e regras para o setor energético. “I think what we can agree on is that we have had some real change in the last 18 months”, disse a premiê provincial, ao lado do primeiro-ministro.
Ela também explorou a ligação pessoal de Carney com a província, lembrando que ele é torcedor do time de hóquei Edmonton Oilers. “He can’t be all bad, right?”, ironizou, arrancando risos da plateia.
Ainda assim, Smith sofre forte pressão de grupos separatistas dentro de seu partido, o United Conservative Party, fortalecidos por descontentamento com restrições impostas durante a pandemia de COVID-19 e pela circulação de teorias conspiratórias. A realização do referendo é vista como concessão a essas alas.
Outras nove questões tensionam relação com Ottawa
A cédula de segunda-feira inclui, além da pergunta sobre o caminho para a independência, outras nove questões ligadas a imigração e ampliação de poderes provinciais frente ao governo federal. Nesses pontos, Carney e Smith estão em campos opostos.
O primeiro-ministro pede que os eleitores rejeitem os itens adicionais, que, na avaliação de Ottawa, podem esgarçar ainda mais a relação entre a província e o restante do país. Smith, por sua vez, defende a aprovação das propostas como forma de reforçar a autonomia de Alberta em áreas-chave.
Apesar das divergências, a primeira-ministra afirmou que o momento marca uma reaproximação entre Edmonton e o governo central. “For the first time in a long time, Alberta and Canada are walking together”, declarou recentemente.
Entenda o contexto
O avanço do sentimento separatista em Alberta tem origem em anos de ressentimento com políticas federais vistas como hostis ao setor de petróleo e gás, base da economia local. A percepção de que Ottawa se beneficia da riqueza gerada na província, mas impõe regulações ambientais e impostos considerados excessivos, alimenta a narrativa de injustiça regional.
Esse caldo de insatisfação foi potencializado por disputas políticas internas, pela reação às medidas de combate à COVID-19 e por campanhas nas redes sociais, que aproximaram parte da base conservadora do discurso de ruptura com o Canadá.
Ao mesmo tempo, o país enfrenta pressão externa, em especial da política comercial agressiva dos Estados Unidos, o que torna a coesão interna ainda mais estratégica para manter competitividade e proteger cadeias produtivas.
O que dizem aliados e defensores da independência
O líder federal do Partido Conservador, Pierre Poilievre, principal adversário político de Carney em nível nacional, também se posicionou contra a separação. “Don’t leave your fellow Canadians behind. Lock arms with them”, pediu, em mensagem aos eleitores de Alberta.
Entre os defensores da independência, porém, o movimento de aproximação entre Carney e Smith é tratado com desconfiança. A ativista Tanya Clemens minimizou os acordos anunciados entre Ottawa e o governo provincial, classificando-os como “basically pinky promises”, ou seja, promessas frágeis e condicionais.
Do lado de quem quer permanecer no Canadá, há revolta com o simples fato de o referendo ter sido convocado. A aposentada Deb Lee, moradora de Calgary que já votou antecipadamente contra a separação, criticou duramente a iniciativa. “I think it’s a travesty really to be putting our province and our country through this when such a small portion of people are rabble rousing and saying they want to separate from Canada”, afirmou.
Cenários para a economia e a política canadense
Se a maioria optar por abrir o processo rumo a um plebiscito de independência, o Canadá entra em uma fase de incerteza prolongada. Especialistas projetam disputas complexas sobre partilha de ativos, controle de recursos naturais, fronteiras internas, regimes regulatórios e acordos comerciais.
A instabilidade pode afetar decisões de investimento no setor de óleo e gás de Alberta, responsável por milhares de empregos e por uma fatia relevante das exportações canadenses. O risco é de adiamento ou cancelamento de projetos, encarecimento de crédito e volatilidade de receitas públicas tanto na província quanto em Ottawa.
Se o caminho separatista for rejeitado, o governo federal e a gestão de Danielle Smith saem politicamente fortalecidos na defesa da unidade, mas a votação expõe uma base de descontentes que não deve desaparecer. A tendência, avaliam analistas, é que se abra uma nova rodada de negociações sobre repartição de receitas, competências regulatórias e participação de Alberta nas decisões nacionais sobre energia e clima.
Com a campanha chegando ao fim, Carney concentra sua mensagem em um ponto: a decisão está nas mãos dos eleitores que forem às urnas. E o resultado vai muito além das fronteiras da província, com potencial para redefinir o equilíbrio político e econômico do Canadá nos próximos anos.
Fonte: matéria original


