Cazaquistão fecha acordo com Jensen Huang e acelera IA global
Em visita a Astana, CEO da NVIDIA anuncia investimento em startup local, Firebird firma acordo para 45 mil GPUs e país acelera plano de virar exportador de inteligência, não só de energia.

Tecnologia
O Cazaquistão avança em inteligência artificial com investimentos estratégicos e parcerias internacionais.
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O Cazaquistão deu nesta sexta-feira (23) um passo decisivo para virar potência em inteligência artificial ao anunciar, em Astana, a expansão maciça de sua infraestrutura de computação acelerada com GPUs da NVIDIA, investimentos em startups locais e planos para aplicar IA em setores como mineração e agricultura. As medidas foram apresentadas durante a visita do CEO da NVIDIA, Jensen Huang, que se reuniu com o presidente Kassym-Jomart Tokayev no Palácio Akorda e participou de um debate público com o ministro de IA e Desenvolvimento Digital, Zhaslan Madiyev, no centro internacional Alem.AI.
País quer IA que fale cazaque e exporte “inteligência”
No palco do Alem.AI, Madiyev resumiu a ambição do governo ao defender modelos que reflitam a identidade nacional. “Queremos uma IA que entenda e fale cazaque e capture contextos culturais e especificidades culturais”, disse o ministro, reforçando que o país trabalha em modelos de linguagem próprios.
Huang respondeu conectando essa agenda cultural ao papel histórico do Cazaquistão como potência energética, ao afirmar que os recursos do país podem ser a base de um novo tipo de exportação. “Em vez de apenas exportar energia, no futuro, vocês poderão transformar energia em inteligência e exportar inteligência”, afirmou o CEO da NVIDIA, acrescentando que os dados locais, que carregam a cultura e a história do país, são um ativo estratégico.
O executivo insistiu no peso da ambição política e empresarial para capturar essa oportunidade. “Se você tem ambição, e eu acredito que vocês têm, a IA elevará sua nação. A IA elevará seu povo”, disse Huang ao lado de Madiyev.
Firebird traz 45 mil GPUs e projeta até 500 MW de computação
Em paralelo à agenda pública, o Palácio Presidencial Akorda sediou a cerimônia de assinatura do acordo de investimento da Firebird com o governo cazaque, consolidando o plano de construir uma grande base de computação para IA no país.
A empresa, que já opera uma fábrica de IA em outro país da região, obteve licença de exportação dos Estados Unidos para 45.000 GPUs NVIDIA Grace Blackwell e está erguendo a primeira fase de sua infraestrutura no complexo Data Center Valley, em parceria com a Kazakhtelecom. O lançamento comercial dessa etapa está previsto para o terceiro trimestre de 2027.
Uma segunda fase planejada pode elevar a capacidade total da Firebird no Cazaquistão para cerca de 500 megawatts de infraestrutura dedicada a IA — porte suficiente para treinar e operar alguns dos modelos mais sofisticados do mundo. A empresa também vai criar o Firebird Labs Kazakhstan, voltado a apoiar startups locais, pesquisa e formação de talentos, com acesso a computação de alto desempenho e programas de fomento.
Razmig Hovaghimian, cofundador e CEO da Firebird, descreveu a velocidade da decisão de investir no país. “O que começou como uma semente de ideia há 180 dias se tornou um grande investimento no futuro da IA do Cazaquistão”, afirmou. Segundo ele, a visão de Tokayev e a presença de Huang hoje em Astana tornaram a ambição “mais tangível do que nunca”.
Kazakhtelecom já opera quase 900 GPUs NVIDIA no país
Pilar central da estratégia de infraestrutura, a Kazakhtelecom, maior operadora de telecomunicações do Cazaquistão, já colocou em operação 400 GPUs NVIDIA H200 e 480 GPUs NVIDIA B300 em data centers em Astana e Almaty. Esses sistemas atendem hoje empresas, desenvolvedores e instituições de pesquisa, e serão expandidos nos próximos ciclos.
O plano da companhia inclui, no próximo ano, a instalação de mais de 1.000 GPUs adicionais no Data Center Valley e mais de 1.000 GPUs NVIDIA Vera Rubin na região de Ekibastuz, ampliando a oferta de computação acelerada para diferentes tipos de carga de trabalho. A expectativa do governo é que a capacidade crescente permita que universidades, corporações e órgãos públicos treinem, ajustem e coloquem em produção modelos cada vez mais sofisticados sem depender de infraestrutura no exterior.
Startup Higgsfield AI recebe aporte da NVIDIA
O movimento não se limita ao “chão” de data centers. Durante o evento no Alem.AI, foi anunciado que a NVIDIA fará um investimento na Higgsfield AI, startup fundada no Cazaquistão que desenvolve aplicações de mídia generativa e já opera com infraestrutura NVIDIA em nuvens comerciais.
Huang elogiou os fundadores da Higgsfield e usou o caso para reforçar a tese de que o capital deve mirar pessoas, mais do que marcas corporativas. “O primeiro e o último é investir em pessoas, não em empresas”, afirmou, chamando os empreendedores de “visionários” pela aposta em competir em um mercado global de IA.
Com o reforço de capital e acesso ampliado a GPUs, a Higgsfield deve ganhar folga para treinar modelos maiores e ampliar sua base de produtos e clientes, em linha com a meta do governo de construir aplicações de IA de origem cazaque com alcance internacional.
Entenda o contexto
A estratégia apresentada hoje liga várias camadas da chamada “pilha de IA”: infraestrutura de computação, modelos de linguagem em cazaque, startups de produto e usos industriais. A lógica é criar um ciclo em que mais capacidade de processamento atrai desenvolvedores e empresas, que por sua vez geram aplicações de sucesso e, com isso, demandam ainda mais computação.
Para o governo de Tokayev, o objetivo é diversificar uma economia tradicionalmente baseada em petróleo, gás e mineração, convertendo parte dessa energia em capacidade de IA e produtos digitais exportáveis. A criação de um ministério específico para IA e desenvolvimento digital, hoje comandado por Zhaslan Madiyev, e a instalação do centro internacional Alem.AI são peças desse redesenho.
Ao mesmo tempo, autoridades e empresas começam a discutir impactos trabalhistas e regulatórios, cientes de que a automação avançada tende a transformar o trabalho em setores físicos, de minas a lavouras, exigindo novas políticas de qualificação profissional e inclusão digital.
IA para mineração, agricultura e logística
No debate em Astana, Madiyev apontou indústrias como fábricas, mineração, agricultura, transporte e logística como campos prioritários para o uso de “IA física” — aplicações que combinam inteligência artificial com robótica e sistemas embarcados no mundo real.
Huang classificou a ideia como “fantástica” e disse que IA e robôs podem transformar cadeias inteiras, do processamento de minerais ao manejo agrícola, ajudando pessoas a fazer mais com recursos limitados. A aposta do governo é que, com capacidade local de treinamento de modelos para robôs e sistemas autônomos, o Cazaquistão possa se posicionar como fornecedor de soluções para outros países da região.
Segurança em IA e recado aos jovens
Questionado sobre riscos da tecnologia, o CEO da NVIDIA defendeu que a IA seja desenvolvida e implementada de forma responsável e citou o OpenShell, solução da empresa desenhada para limitar o acesso de agentes de IA a arquivos e ferramentas e monitorar suas ações. A proposta é dar às organizações mecanismos de contenção e rastreabilidade em projetos sensíveis.
Huang também mandou um recado direto aos jovens cazaques que pretendem entrar na área. Ele recomendou ir além do uso superficial das ferramentas e aprender os fundamentos da tecnologia, entendendo princípios, forças e limitações da IA, além de desenvolver a capacidade de trabalhar em parceria com sistemas inteligentes. “Eu invejo ter 18 anos hoje… porque o mundo está mudando tão rapidamente, e há um reinício completo por causa da tecnologia”, afirmou.
Com a visita de hoje, os acordos assinados e o cronograma de implantação até 2027, governo e empresas colocam o Cazaquistão no mapa dos novos polos globais de computação para IA, em uma disputa que envolve capacidade energética, talento humano, dados locais e projetos concretos de transformação econômica.
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