Copom mantém Selic em 13,75% e trava cortes na reunião de hoje
Copom mantém Selic em 13,75% ao ano, interrompe ciclo de cortes e mantém Brasil com maior juro real do mundo. Indústria reage com críticas e comércio apoia cautela.

Economia
Copom decide manter a taxa básica de juros estável, impactando diferentes setores da economia brasileira.
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O Copom manteve nesta quarta-feira (4), em Brasília, a taxa Selic em 13,75% ao ano, interrompendo o ciclo de cortes iniciado em março e reforçando a estratégia de segurar a inflação em um cenário de desaceleração da economia e incertezas externas, como os conflitos no Oriente Médio e a política monetária mais dura em países ricos.
A decisão, unânime, mantém o Brasil na liderança do ranking mundial de juros reais, com taxa estimada em 8,45% ao ano, já descontada a inflação projetada para os próximos 12 meses. O Banco Central avalia que o nível “substancialmente contracionista” dos juros é necessário para garantir a convergência da inflação à meta de 3% ao ano, em vigor desde 2025.
Copom hoje: por que a Selic ficou parada?
Segundo o comunicado do Copom, a manutenção da taxa Selic hoje em 13,75% é resposta a um quadro classificado como desafiador: aumento das expectativas de inflação, desaceleração mais forte da atividade doméstica e ambiente internacional mais adverso. O comitê cita o prolongamento da guerra no Oriente Médio, com impacto sobre petróleo e combustíveis, e a continuidade da política de juros altos em economias avançadas.
As projeções de inflação para os próximos anos se afastaram ainda mais da meta. No Boletim Focus, a expectativa está em 5,22% para 2026 e 4,76% para 2027, bem acima dos 3% perseguidos pelo BC. Para o Copom, essa desancoragem – quando o mercado passa a acreditar em inflação persistentemente maior – aumenta o custo de trazer os preços de volta ao alvo e exige serenidade e cautela na condução da política monetária.
O colegiado afirma que, além de assegurar a estabilidade de preços, a manutenção da Selic em patamar elevado busca suavizar as flutuações da atividade econômica e fomentar o pleno emprego no horizonte relevante da política monetária, hoje concentrado no médio prazo.
No cenário doméstico, o Banco Central identifica moderação mais acentuada da atividade, com perda de fôlego do crescimento, embora o mercado de trabalho ainda se mantenha resiliente, começando a mostrar sinais de desaquecimento. Nas leituras mais recentes, tanto a inflação cheia quanto as medidas que excluem itens mais voláteis continuam acima do limite superior de tolerância em torno da meta.
Impacto da Selic hoje sobre crédito e crescimento
A decisão do Copom hoje mantém o custo do dinheiro no país entre os mais altos do mundo. Na prática, isso significa crédito caro para empresas e famílias, financiamentos mais pesados e maior atração para investimentos em renda fixa, o que tende a segurar o consumo e os projetos produtivos.
Com a Selic em 13,75% ao ano e juros reais em 8,45%, o Brasil segue bem à frente de outras economias emergentes, o que ajuda a conter pressões sobre o câmbio e a inflação, mas também prolonga o desaquecimento da atividade. A meta de inflação de 3% ao ano, com intervalo entre 1,5% e 4,5%, continua sendo o guia da política de juros.
Do lado das contas públicas, o aperto monetário tem reflexo direto no serviço da dívida. Empresários lembram que o gasto anual com juros já supera R$ 1 trilhão, o que pressiona o equilíbrio fiscal e alimenta o debate sobre a necessidade de maior coordenação entre a política de juros e a política de gastos do governo.
Indústria reage e fala em crédito proibitivo
A decisão de segurar a taxa Selic hoje foi recebida com forte reação das entidades industriais. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) avalia que a prolongação do aperto monetário mantém o crédito caro, afeta investimentos e consumo e freia a economia real.
Em nota, o presidente da CNI, Ricardo Alban, cobrou que o Copom retome os cortes na próxima reunião, prevista para dezembro. “A Selic permanece muito alta e isso afeta crédito, investimentos e a atividade econômica. É possível continuar diminuindo os juros em ritmo compatível com a convergência da inflação para a meta, sem impor à economia um custo maior do que o necessário para assegurar a estabilidade dos preços”, afirmou.
Na maior economia industrial do país, a avaliação é ainda mais dura. O presidente da Fiesp, Paulo Skaf, classificou o nível atual como um aperto “desmedido” e disse que o patamar de 13,75% coloca a taxa básica em cerca de três vezes a inflação corrente. “Na prática, a autoridade monetária pune quem produz e consome. O crédito bancário tomado pelo setor produtivo e empreendedores na casa dos 30% ao ano inviabiliza investimentos, e o endividamento recorde das famílias e empresas se agrava a cada mês”, disse.
Skaf também chamou atenção para o peso dos juros nas contas públicas. Segundo ele, o serviço da dívida custa hoje mais de R$ 1 trilhão por ano. Para o industrial, é urgente “readequar as políticas monetária e fiscal” para trazer a Selic a níveis considerados toleráveis e destravar o crescimento.
Em Minas Gerais, o presidente da Fiemg, Flávio Roscoe, aponta a condução das contas públicas como peça-chave para abrir espaço a cortes futuros de juros. “A falta de consistência na condução fiscal impõe custos elevados à economia. Com juros altos por mais tempo, o crédito fica mais caro, os investimentos são adiados e a indústria perde capacidade de crescer e competir”, afirmou.
A Firjan, que representa a indústria do Rio de Janeiro, também criticou o freio no ciclo de cortes. Em nota, a entidade avaliou que, “com a estabilidade da Selic em nível fortemente contracionista, os encargos financeiros seguem elevados, inibindo tanto as decisões de investimento quanto a capacidade competitiva das empresas”.
Comércio apoia cautela e cita risco inflacionário
Na direção oposta à indústria, a Fecomercio-SP considerou prudente a decisão do Copom. A entidade entende que, diante da piora das expectativas de inflação, das incertezas fiscais e da volatilidade do câmbio, interromper o ciclo de cortes reduz o risco de uma nova rodada de alta de preços mais à frente.
Para o setor de comércio e serviços, o custo imediato de manter a taxa Selic em 13,75% é compensado pela maior previsibilidade da política monetária e pela tentativa de evitar movimentos bruscos no futuro, que poderiam afetar ainda mais o poder de compra das famílias.
Entenda o contexto
Desde março, o Copom vinha reduzindo a taxa Selic em meio à desaceleração da inflação e ao alívio nos preços de alimentos e combustíveis. A piora recente das expectativas, o avanço das tensões geopolíticas e o aperto monetário prolongado em economias desenvolvidas inverteram a tendência.
O BC atua em regime de metas de inflação e toma suas decisões olhando principalmente para o que deve acontecer com os preços nos próximos anos, não apenas para o índice recente. Como mudanças na taxa Selic levam meses para ter efeito pleno sobre crédito, câmbio e atividade, o Copom já mira hoje o comportamento da inflação no meio do horizonte de projeção, que chega até o segundo trimestre de 2028.
Enquanto isso, o governo de Luiz Inácio Lula da Silva tenta construir uma trajetória fiscal considerada crível pelo mercado, condição vista como essencial para que as expectativas voltem a se aproximar da meta de 3% e abram espaço, mais adiante, para uma nova rodada de cortes na taxa Selic.
Até lá, o Banco Central indica que seguirá “monitorando o cenário” e disposto a manter a política monetária em terreno restritivo pelo tempo que considerar necessário para garantir a convergência da inflação, mesmo sob pressão de parte expressiva do setor produtivo.


