Eleições EUA 2026: cenários do Congresso e impacto no Brasil
Eleições de meio de mandato nos EUA redefinem o Congresso e abrem três cenários para mercados, Federal Reserve e tarifas contra o Brasil, segundo bancos e analistas.

Eleições EUA
Análise dos possíveis desdobramentos no Congresso americano e suas consequências para o Brasil e a economia global.
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As eleições legislativas de meio de mandato nos Estados Unidos, realizadas na terça-feira (3), redesenham a correlação de forças no Congresso americano e abrem três caminhos distintos para mercados globais, política fiscal, atuação do Federal Reserve e tarifas contra o Brasil, enquanto a contagem de votos segue em vários estados.
Como o novo Congresso pode mexer com os mercados
Com a apuração ainda em curso, bancos como JPMorgan e UBS já traçam cenários para o resultado final e seus reflexos sobre o mercado de ações nos EUA e em economias emergentes, como a brasileira. Para o JPMorgan, o que mais importa não é qual partido leva mais cadeiras, mas a configuração do Congresso como um todo.
Em relatório de estratégia, o banco trabalha com três possibilidades: um Congresso dividido, a chamada situação de gridlock, em que nenhuma sigla tem controle pleno; uma vitória democrata nas duas Casas, a chamada “onda azul”; e uma vitória republicana mantendo Câmara e Senado sob comando conservador, a “muralha vermelha”.
Num Congresso dividido, o JPMorgan vê mais espaço para ações dos setores de saúde, defesa e empresas de tecnologia ligadas à inteligência artificial. Em caso de domínio democrata em Câmara e Senado, ganham protagonismo novamente as companhias de saúde e, com mais força, as de energia limpa, favorecidas por uma agenda ambiental mais ambiciosa.
Se republicanos mantiverem o controle das duas Casas, o banco projeta um S&P 500 mais estável, sem grande mudança de nível, mas com vantagem relativa para empresas de inteligência artificial, energia, bancos e defesa, setores alinhados a uma política econômica mais pró-negócios e menos regulatória.
Entenda o contexto
As midterms definem toda a Câmara dos Representantes e parte do Senado, além de governos estaduais, e funcionam como um grande teste político para a Casa Branca. Neste ano, a velocidade da apuração varia conforme as regras de cada estado, o volume de votos enviados pelo correio e a diferença entre os candidatos, o que tende a alongar por alguns dias a incerteza sobre quem terá maioria em cada Casa.
Essa definição é crucial para o rumo da política fiscal americana — nível de gastos e cortes de impostos — e para o ambiente em que o Federal Reserve calibra juros e o aperto monetário. É também o Congresso que tem poder para aprovar ou travar leis que mexem com tarifas comerciais, inclusive as que atingem exportadores brasileiros.
Qual o impacto para o real e para os juros no Brasil?
Para a estrategista-chefe da Nomad, Paula Zogbi, o resultado das midterms pode mexer diretamente com o câmbio e os juros futuros no Brasil, ainda que de forma indireta, via política econômica americana.
Segundo ela, uma vitória democrata nas duas Casas tende a reduzir o impulso a grandes pacotes de gastos nos EUA, aliviando a pressão sobre os juros americanos e tornando ativos de países emergentes mais atraentes. Nesse cenário, aumentaria a entrada de capital estrangeiro no Brasil, o que fortaleceria o real e abriria espaço para queda das taxas futuras de juros por aqui.
Já um Congresso dominado por republicanos poderia reforçar a expectativa de mais gastos ou cortes de impostos, mantendo a pressão sobre os juros americanos e, por consequência, sobre o dólar e os mercados emergentes. “Uma vitória republicana teria o efeito oposto. Ainda assim, a maioria dos analistas espera uma reação modesta e de curta duração do dólar, não uma mudança de tendência”, afirma Paula.
O UBS, por sua vez, trabalha com um Congresso de maior influência democrata como cenário mais provável e alerta que os efeitos das midterms vão além da política fiscal. Para o banco, a nova correlação de forças em Washington também deve influenciar a composição futura do Federal Reserve, o que se reflete na trajetória dos juros dos EUA, referência global para o custo de capital.
Tarifas contra o Brasil seguem em jogo
Além de juros e fluxo financeiro, a formação do Congresso americano pode pesar sobre a política tarifária que atinge produtos brasileiros. Mesmo após uma decisão da Suprema Corte contrária à manutenção do chamado tarifaço, a Casa Branca continua aplicando tarifas com base em leis comerciais aprovadas pelo próprio Congresso.
Na avaliação de Paula Zogbi, o Legislativo tem, em tese, poder para limitar esse instrumento. “O Congresso pode, sim, restringir o poder de tarifar, mas, mesmo que os democratas conquistem as duas Casas, qualquer lei que restrinja o poder tarifário precisa da sanção de Trump”, diz a estrategista.
Ela lembra que, se a Casa Branca vetar uma eventual lei que contenha o tarifaço, seriam necessários dois terços da Câmara e do Senado para derrubar esse veto — uma maioria que os democratas não alcançam sozinhos. Na prática, isso significa que qualquer mudança estrutural nas tarifas depende de algum grau de participação republicana.
Enquanto o impasse político persiste, exportadores brasileiros que dependem do mercado americano seguem vulneráveis à possibilidade de novas tarifas ou da manutenção das atuais, o que afeta planejamento de investimentos, margens de lucro e competitividade de longo prazo.
Orçamento de 2027 vira moeda de troca
Diante dessa limitação institucional, Paula avalia que a estratégia mais factível para conter tarifas passa por negociações políticas atreladas ao orçamento federal americano. “Os instrumentos mais realistas para impedir novas tarifas seriam via negociações políticas, como mudanças no Orçamento de 2027 e uso como moeda de troca, em situações em que a Casa Branca precise da anuência do Congresso para aprovar outras medidas”, afirma.
Nesse cenário, a discussão tarifária pode entrar em pacotes mais amplos de acordos, costurados entre Casa Branca, líderes partidários e alas específicas de cada partido, elevando a imprevisibilidade para empresas que operam no comércio bilateral entre Brasil e Estados Unidos.
Com a contagem dos votos ainda incompleta e sem definição clara de maioria em todas as Casas, o mercado segue em compasso de espera. Investidores brasileiros monitoram de perto não apenas quem vence, mas que tipo de Congresso sairá das urnas e que margem de manobra ele terá para influenciar gastos públicos, juros globais e o futuro do tarifaço sobre produtos nacionais.


