Como descascar fio de cobre no TikTok gera até R$ 5 mil mês extra
Preço recorde do cobre e vídeos no TikTok impulsionam um novo bico: descascar fio para vender sucata e, principalmente, ganhar dinheiro com visualizações e vendas de ferramentas online.

Tech Desk
Descubra como a combinação do preço alto do cobre e o TikTok está criando oportunidades de renda extra inovadoras.
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Impulsionados pelo preço recorde do cobre e por vídeos virais no TikTok, usuários nos Estados Unidos transformam o ato de descascar fio de cobre em um novo trabalho paralelo — que muitas vezes rende mais dinheiro na internet do que na venda da sucata para reciclagem.
O que significa descascar fio de cobre no contexto desse novo trabalho paralelo?
No contexto dessa nova onda no TikTok, descascar fio de cobre significa remover manualmente ou com máquinas a capa plástica ou de borracha dos cabos elétricos para separar o metal “limpo” e vendê-lo mais caro em ferros-velhos e sucateiros.
Na prática, criadores de conteúdo desmontam aparelhos, quebram grandes cabos industriais ou aproveitam sobras de obras e oficinas. Com desencapadores de fio — muitos deles vendidos na própria TikTok Shop, onde um dos modelos já ultrapassa 20 mil unidades comercializadas globalmente — eles alimentam a máquina com o cabo, que sai de um lado com a capa cortada e, do outro, como fio de cobre pronto para ir à reciclagem.
O diferencial dessa tendência não é a técnica em si, que é antiga no mundo da sucata, mas o fato de que todo o processo vira espetáculo: timelapses de fios sendo “pelados”, montes de cobre brilhando ao final do vídeo, rotinas de “noite do cobre” como se fossem encontros sociais, e até “date night” em que o casal passa horas lado a lado descascando fios.
Entenda o contexto
O cobre vive um momento de forte valorização no mercado internacional. Em setembro, o metal girou em torno de US$ 14.473 por tonelada métrica, algo como US$ 7,23 por libra, mais que o dobro do valor visto alguns anos atrás, segundo dados de organismos internacionais. Como o cobre é escasso, conduz bem eletricidade e é totalmente reciclável, virou alvo ainda mais disputado por reciclagem industrial, sucateiros e, agora, criadores de conteúdo.
Quanto mais “limpo” e separado estiver o cobre, maior o valor pago. Por isso, o fio desencapado vale muito mais do que o cabo ainda revestido. Nesse cenário, descascar fio, que sempre foi tarefa de sucateiro, ganha uma nova camada digital e se torna fonte de renda extra, hobby e conteúdo para redes.
Os protagonistas dessa trend são variados: eletricistas que aproveitam sobras de obra, trabalhadores que trazem sucata do emprego, adolescentes em dificuldade financeira, pessoas economizando para casa própria e até quem arrecada fundos para causas específicas. Eles falam inglês, francês, espanhol, alemão, romeno e usam também plataformas como Etsy para vender lingotes de cobre fundido.
Quanto dinheiro é possível ganhar descascando fio de cobre e compartilhando nas redes sociais?
Na prática, os dados mais claros indicam que hoje o grande dinheiro não está no cobre em si, mas no conteúdo sobre ele. Um caso emblemático é o da criadora @Courtney2291, que documentou no TikTok o plano de juntar US$ 20 mil para comprar uma casa de três quartos apenas descascando fios ao longo de pouco mais de seis meses.
Ela conseguiu alcançar a meta, mas, segundo o recibo de um ferro-velho que mostrou em vídeo, recebeu apenas US$ 99 pela venda de 30 libras de cobre acumuladas nesse período. Já um único vídeo, com 6,8 milhões de visualizações, gerou US$ 1.446 em pagamento da própria plataforma. Ou seja: a sucata virou coadjuvante; o protagonista é o engajamento.
Outros criadores, como perfis que se apresentam como King of Copper e Queen of Copper, apostam em escala e espetáculo. Eles mostram a compra de caixas com centenas de quilos de fios, desafios de juntar e descascar uma tonelada de cobre e o processo de fundir o metal em lingotes. Em um vídeo, King of Copper passa cinco horas descascando cabos, derrete o cobre em um forno e molda seis lingotes, que avalia em cerca de US$ 90. O potencial de ganho, porém, está na soma de visualizações no TikTok e no YouTube, monetização que ele não detalha.
Há ainda quem fique no meio do caminho entre o sucateiro clássico e o influenciador. É o caso de criadores que usam o tema para vender desencapadores e ferramentas como afiliados da TikTok Shop. Um deles afirma vender de cinco a dez desencapadores por dia e já ter ajudado a comercializar milhares de unidades, chamando o equipamento de máquina que “basicamente imprime dinheiro” e “se paga na primeira hora de uso”. O próprio admite, porém, que faz “mais dinheiro” com outros tipos de vídeo, e não descascando fio.
Risco de furtos e impacto econômico
O boom do cobre e a viralização da atividade também levantam alertas. O economista Craig Depken II, professor na Universidade da Carolina do Norte em Charlotte, estuda roubos de cobre e afirma que dois fatores costumam andar juntos nesses casos: alta do preço do metal e aperto econômico das famílias. “O aumento do preço do cobre e o nível de dificuldades econômicas fazem com que as pessoas acreditem que os benefícios de roubar cobre superam os riscos”, diz.
Nos Estados Unidos, vender cobre obtido de forma legal é permitido em praticamente todo o país, mas Minnesota exige licença estadual para o comércio desse tipo de sucata, numa tentativa de rastrear melhor a origem do material e coibir furtos de fios de energia, tubulações e peças de ar-condicionado.
Já o professor de justiça criminal Benjamin Stickle, autor de livro sobre sucateiros e ladrões de metal, explica que o universo da sucata legal se divide basicamente em três grupos. “Existem três tipos principais de scrappers legais: os que tentam sobreviver, os trabalhadores que vendem sucata do trabalho e os que arrecadam fundos para causas”, afirma.
A tendência que agora explode no TikTok parece misturar esses perfis tradicionais com uma nova categoria: a do criador de conteúdo que transforma a rotina pesada de sucateiro em narrativa, entretenimento e vitrine para vendas.
Como as pessoas estão usando as redes sociais para lucrar com o trabalho de descascar fio de cobre?
Usuários estão lucrando ao mesmo tempo em três frentes: venda do cobre, monetização de vídeos e comissões sobre ferramentas anunciadas. Em menor escala, há ainda quem produza e venda lingotes de cobre em plataformas como Etsy.
No TikTok, a tática é transformar um trabalho repetitivo em conteúdo viciante. Vídeos mostram montanhas de fios que vão encolhendo aos poucos, timelapses de cabos industriais sendo cortados “como cordas de bala de goma”, além de formatos de entretenimento como “noite das garotas descascando fio”, sessões de “movie night” com amigos em volta de mesas cheias de cabos e até encontros românticos fazendo a mesma tarefa. Em um vídeo de agosto, a criadora @Payciencu.u aparece descascando fios na cama ao lado de um rapaz. O texto na tela provoca: “How down bad are you? Well I’m stripping wire just to hang out with him sooo.”
Além do pagamento direto por visualização, muitos criadores colocam links para desencapadores e outros equipamentos na TikTok Shop. Quando um seguidor compra, eles recebem comissão. Essa combinação de renda — sucata + views + afiliados — ajuda a explicar por que vídeos de uma atividade cansativa e pouco glamourosa conseguem acumular milhões de visualizações e formar comunidades fiéis.
A tendência ainda é concentrada nos Estados Unidos, mas o idioma misturado nos vídeos — com falas em inglês, francês, espanhol, alemão e romeno — indica que o modelo pode se espalhar para outros mercados, inclusive para países como o Brasil, onde o cobre também tem alto valor na cadeia de reciclagem e onde o uso de redes sociais como “vitrine de trabalho” já faz parte do dia a dia de muitos trabalhadores informais.
Pesquisadores apontam que, se o preço do cobre seguir em alta e as dificuldades econômicas persistirem, o descasque de fio tende a continuar se consolidando como bico híbrido: parte sucata, parte economia digital, com efeitos que vão da pressão sobre o mercado de reciclagem ao risco de mais furtos de cobre e, na outra ponta, ao surgimento de novas formas de renda pulverizada via redes sociais.


