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Eleições EUA 2026: perda do Congresso pode travar Trump

Midterms desta terça (3) vão renovar toda a Câmara e parte do Senado e podem entregar o Congresso aos democratas, elevando a pressão sobre Trump e a volatilidade do dólar e dos juros no Brasil.

Eleições EUA 2026: perda do Congresso pode travar Trump

Eleições EUA

Renovação do Congresso pode aumentar a pressão política e econômica nos EUA e impactar mercados globais.

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As eleições de meio de mandato nos Estados Unidos, que renovam nesta terça-feira (3) todas as 435 cadeiras da Câmara dos Representantes e 35 das 100 do Senado, podem tirar de Donald Trump o controle do Congresso e travar a agenda econômica do presidente, com reflexos diretos sobre o dólar e os juros no Brasil.

Democratas em vantagem e popularidade de Trump em queda

Modelos de projeção apontam hoje vantagem significativa dos democratas, sobretudo na Câmara. Um dos principais cenários prevê 239 cadeiras democratas contra 196 republicanas entre os 435 deputados, com probabilidade de 96% de maioria para a oposição. No Senado, a disputa é mais apertada, com estimativa de 51 cadeiras para democratas e 49 para republicanos, e chance de controle democrata variando entre 65% e 72%, a depender do modelo.

Esse cenário se forma em meio ao desgaste de Trump. Pesquisas recentes indicam que 66% dos americanos desaprovam sua gestão, o maior índice já captado pelo levantamento citado por analistas. A insatisfação é alimentada, entre outros fatores, pelo custo de vida, em especial pelos combustíveis, com gasolina acima de US$ 4 por galão e diesel acima de US$ 6.

Para os mercados, o risco central é a chamada “onda azul” — quando democratas conquistam o controle das duas Casas do Congresso. “As apostas de mercado para as eleições de meio de mandato dos EUA vêm se deslocando a favor de uma onda democrata. Um enfraquecimento do Partido Republicano reduziria o poder do presidente para aprovar determinadas medidas e ampliaria a fiscalização sobre o governo”, afirma Andressa Durão, economista do ASA.

O que muda em cada cenário no Congresso

Hoje, Trump conta com o apoio republicano para avançar sua pauta econômica, que inclui cortes de impostos, aumento de gastos e desregulamentação em setores-chave. A configuração do Congresso após as midterms vai definir até que ponto essa agenda continua de pé.

Se os democratas conquistarem Câmara e Senado, passam a controlar a pauta legislativa, as comissões de fiscalização e a tramitação de projetos de lei. Nesse cenário, também ganham peso nas sabatinas e confirmações de nomes indicados pela Casa Branca para cargos estratégicos, como ministérios, diretoria do Federal Reserve (o banco central americano) e assentos na Suprema Corte.

Com isso, qualquer nova medida de estímulo econômico, reforma tributária ou alteração regulatória proposta por Trump tende a enfrentar muito mais resistência. A oposição teria espaço para puxar audiências, pedir documentos, convocar auxiliares do presidente e pressionar sobre eventuais investigações. Discussões sobre um possível processo de impeachment, por exemplo, ganham tração em um Congresso dominado pelos democratas.

Se a “onda azul” ficar restrita à Câmara, o tabuleiro muda, mas não tanto. Deputados democratas passam a ter poder para bloquear projetos, segurar liberação de recursos e usar comissões para fiscalizar o governo. Os republicanos, porém, manteriam o controle do Senado, preservando influência sobre indicações e ajudando Trump a proteger parte de sua agenda, inclusive com o uso do poder de veto a projetos aprovados pelo Congresso.

Já uma vitória republicana nas duas Casas ampliaria o espaço da Casa Branca para avançar propostas de cortes de impostos, novas rodadas de desregulamentação e políticas comerciais mais duras. Nesse caso, a questão para os mercados seria o impacto dessas medidas sobre o déficit público, a inflação e os juros de longo prazo nos EUA.

Entenda o contexto

As midterms ocorrem na metade do mandato presidencial e são, na prática, um grande referendo sobre o governo em exercício. Todos os 435 deputados federais são escolhidos de uma vez, com mandato de dois anos. No Senado, os mandatos são de seis anos, e cerca de um terço das 100 cadeiras é renovado a cada eleição; neste ciclo, estão em disputa 35 assentos.

Como resultado, o eleitor pode redesenhar o equilíbrio de forças em Washington sem tocar na cadeira presidencial. Um Congresso hostil ao governo costuma levar a impasses na negociação do orçamento, travar reformas e aumentar o poder de barganha da oposição, que passa a ter mais instrumentos formais para investigar e pressionar o Executivo.

Como as eleições nos EUA podem afetar o Brasil?

As eleições americanas mexem com o Brasil principalmente via dólar e juros. O ponto de partida são os títulos do Tesouro dos EUA, considerados o principal porto seguro do sistema financeiro global e referência para aplicações no mundo todo.

Se, após as eleições, prevalecer a percepção de que o Congresso vai autorizar mais gastos do que aumento de impostos, investidores podem passar a exigir juros mais altos para financiar a dívida pública americana. Títulos do Tesouro pagando mais atraem recursos para os EUA e tiram dinheiro de países emergentes, como o Brasil.

“O mercado financeiro ainda não considerou plenamente a possibilidade de os democratas conquistarem o controle das duas Casas do Congresso. Se isso acontecer, o impasse entre o governo e o Legislativo e o avanço de pautas de confronto, como discussões sobre um possível impeachment, devem aumentar a volatilidade nos mercados globais”, diz Gustavo Sung, economista-chefe da Suno Research.

Com menos dólares entrando, a moeda americana tende a se valorizar frente ao real. Ao mesmo tempo, os juros futuros no Brasil — taxa que serve de base para financiamentos de longo prazo e para decisões de investimento — podem subir, na esteira do aumento de prêmios de risco no exterior.

Juros mais altos encarecem o crédito para empresas e consumidores, pressionam setores intensivos em financiamento, como construção civil e varejo, e pesam sobre o custo da dívida pública. A percepção de maior risco global também costuma aumentar a seletividade dos investidores estrangeiros em relação às bolsas de países emergentes.

Impacto sobre combustíveis, inflação e comércio

A própria insatisfação dos americanos com os combustíveis tem implicações adicionais para o Brasil. Preços de gasolina acima de US$ 4 e de diesel acima de US$ 6 por galão estão no centro do mau humor do eleitor com Trump, alimentando o apelo de propostas para mexer na política de energia e na regulação do setor.

Eventuais mudanças na política energética americana, em subsídios ou em tributos sobre petróleo e derivados, podem influenciar o preço internacional das commodities. Para o Brasil, um petróleo mais caro tende a pressionar a inflação e os custos de transporte; um petróleo mais barato alivia bombas e fretes, mas pode reduzir receitas de exportadoras e royalties para estados produtores.

No comércio exterior, o resultado das midterms também pesa. Um Congresso mais alinhado a Trump pode dar suporte a políticas comerciais mais duras, com risco de novas disputas tarifárias que afetam fluxos de mercadorias e cadeias globais de produção. Já um Legislativo mais hostil tende a limitar esse tipo de medida, mas ao custo de mais incerteza política e negociações arrastadas em torno de acordos e sanções.

Em todos os cenários, a fotografia que sair das urnas nesta terça (3) será lida minuto a minuto por investidores no mundo inteiro. A depender de como ficar o mapa do Congresso, o Brasil pode enfrentar dias de maior volatilidade no câmbio, nos juros e na bolsa, à espera de sinais mais claros sobre os próximos passos da política econômica americana.

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