Eleitores latinos podem decidir controle do Congresso dos EUA
Com 36 milhões de latinos aptos a votar nas eleições de meio de mandato de 3 de novembro, grupo tende aos democratas e pode decidir o controle da Câmara e do Senado.

Eleições EUA
O crescente eleitorado latino pode ser decisivo para o equilíbrio político no Congresso americano em 2024.
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O eleitorado latino, hoje com 36 milhões de pessoas aptas a votar nas eleições de meio de mandato de 3 de novembro, desponta como um dos fatores decisivos para definir o controle do Congresso dos Estados Unidos e apertar o cerco ao presidente Donald Trump na segunda metade do mandato.
Pesquisas recentes indicam que os latinos favorecem os democratas por uma margem de 40 pontos percentuais, cenário que pode ampliar a bancada do partido na Câmara e no Senado, especialmente em estados e distritos altamente disputados. Para muitos, a votação é vista como chance de frear a agenda de Trump.
Economia e imigração puxam prioridades latinas
Entre os temas que mais pesam na decisão do voto latino estão a economia, a saúde, a educação, o futuro da democracia e a imigração. Levantamento do Pew Research Center mostra a economia no topo das preocupações, mencionada por 86% dos entrevistados, seguida por cuidados com a saúde (80%), educação (75%), futuro da democracia (69%) e imigração (64%).
Cynthia, eleitora latina que vive nos Estados Unidos, descreve um engajamento maior neste ciclo. “Acho que o interesse pelas eleições aumentou. Pelo menos entre as pessoas que conheço, existe uma preocupação sobre como os resultados podem influenciar questões que afetam diretamente suas famílias e comunidades, como a política migratória”, afirma.
A percepção de que a economia piorou nos últimos anos, somada às operações de grande escala contra imigrantes em situação irregular e ao aumento de preços, alimenta o sentimento de insatisfação com Trump em parte significativa desse eleitorado. Em pesquisa do Pew, 55% dos eleitores latinos dizem ver as eleições como oportunidade para votar contra o presidente, enquanto apenas 14% declaram intenção de apoiá-lo; para 30%, Trump não será determinante.
Entenda o contexto
A população latina nos Estados Unidos é estimada em 70 milhões de pessoas. De acordo com relatório da organização Latino Donor Collaborative, cerca de 80% delas já têm cidadania americana, e o crescimento do grupo se deve principalmente a nascimentos dentro do país, não à imigração recente.
O mesmo relatório destaca que 59% dos latinos são de origem mexicana. Em seguida aparecem Porto Rico (9,5%), Cuba (3,9%), El Salvador (3,9%) e República Dominicana (3,7%), além de comunidades vindas de países como Guatemala, Colômbia, Honduras, Equador, Venezuela, Peru, Nicarágua, Argentina, Panamá, Chile e Costa Rica. O mosaico de origens reforça a diversidade interna do grupo.
Essa dispersão geográfica e cultural faz com que o voto latino pese de formas distintas pelo mapa eleitoral. Em estados como Texas e Flórida, onde a presença latina é expressiva e as disputas por cadeiras no Congresso são apertadas, a mobilização desse segmento pode definir vitórias apertadas. O mesmo se aplica a estados em que a comunidade vem crescendo, como Colorado, Nevada e Missouri.
Latinos não são bloco único, alertam especialistas
Apesar do peso eleitoral crescente, pesquisadores insistem na necessidade de abandonar a visão de que os latinos formam um eleitorado homogêneo. “Continuamente tratamos os latinos como um grupo monolítico, com um conjunto semelhante de prioridades”, critica Emiliano Aguilar, professor de História do Instituto de Estudos Latinos da Universidade de Notre Dame.
Segundo Aguilar, duas grandes mudanças marcam a comunidade latina neste século: a diversificação interna e o avanço constante da participação política. A cada ano, cerca de 1 milhão de latinos nascidos nos Estados Unidos chegam à idade para votar, o que aumenta de forma contínua o peso desse grupo nas urnas.
Os dados mostram essa virada. A UnidosUS calcula que, nas eleições de 2024, havia 32,8 milhões de latinos com cidadania e em condições de votar. Desses, 20,1 milhões se registraram, e 16,6 milhões efetivamente compareceram às urnas. Agora, para o pleito de 3 de novembro, a estimativa é que 36 milhões de latinos possam votar, número que pode chegar a 39 milhões com o avanço de registros até o dia da votação.
Na avaliação de Aguilar, com exceção da imigração, as preocupações centrais dos latinos se sobrepõem às da classe trabalhadora em geral. Questões como custo de vida, emprego, saúde e qualidade da educação tendem a ser decisivas na escolha dos candidatos, além do julgamento sobre a condução da democracia no país.
Mobilização mira equilíbrio de forças em Washington
Organizações latinas intensificaram a mobilização neste ciclo eleitoral, com campanhas de registro, esclarecimento sobre o processo de votação e incentivo ao comparecimento. Entidades como Latino Donor Collaborative e UnidosUS tentam transformar em votos a base de 70 milhões de residentes latinos, dos quais uma ampla maioria já é cidadã americana.
“Acho que muitas pessoas esperam que as eleições possam gerar um maior equilíbrio e que as preocupações das diferentes comunidades sejam levadas em consideração”, afirma Cynthia, ao resumir o sentimento em sua rede de amigos e familiares.
Enquanto democratas enxergam uma oportunidade de ampliar ou consolidar o controle do Congresso com apoio latino, os republicanos buscam conter perdas e reconquistar parte desse eleitorado, lembrando que uma parcela significativa de latinos já votou em Trump no passado. As políticas migratórias mais duras e o impacto econômico recente, porém, dificultam essa tarefa em muitos distritos.
O desfecho vai depender não apenas da preferência medida nas pesquisas, mas, sobretudo, do comparecimento efetivo às urnas em 3 de novembro. É esse movimento, estimulado por uma combinação de preocupações econômicas, temor em relação à imigração e avaliação sobre o futuro da democracia, que deve selar o novo equilíbrio de forças no Congresso dos Estados Unidos.


