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Eleitores nos EUA barram centros de dados em 9 estados hoje

Votações locais em mais de 30 cidades de nove estados dos EUA aprovaram moratórias, proibições e restrições a centros de dados, acendendo alerta em Big Techs e investidores.

Eleitores nos EUA barram centros de dados em 9 estados hoje

Tech Desk

Moratórias e restrições em centros de dados impactam investimentos e estratégias das grandes empresas de tecnologia nos EUA.

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Eleitores em mais de 30 localidades de nove estados dos Estados Unidos aprovaram, nas votações da última terça-feira, moratórias, proibições e restrições financeiras e operacionais a centros de dados, em um recado direto à expansão da infraestrutura que sustenta a inteligência artificial e os grandes hyperscalers de tecnologia.

Moratórias, proibições e restrições em série

Em Edgewater, na Flórida, moradores votaram de forma esmagadora para incluir na carta da cidade o texto de que “eleitores em Edgewater, Flórida, votaram esmagadoramente para banir centros de dados na carta da cidade”, transformando a rejeição em regra permanente do município. Já em Perry, em Ohio, passou uma medida que impõe travas financeiras e operacionais específicas a grandes operadores que busquem benefícios fiscais locais.

As decisões variam de proibições totais a suspensões temporárias de licenciamentos e exigências adicionais de contrapartidas econômicas e ambientais. Em vários casos, as consultas foram motivadas por projetos já em andamento, com moradores se organizando para tentar barrar empreendimentos de grande porte perto de áreas residenciais ou de recursos naturais sensíveis.

O resultado é uma freada prática na implementação de novos centros de dados nessas regiões, o que pode forçar empresas de tecnologia a revisar planos de expansão, redirecionar investimentos para outros estados e, em alguns casos, encarar a possibilidade de desativar projetos antes mesmo da construção.

Política entra em campo com agenda anti-tecnologia

O movimento nas urnas vem acompanhado de uma guinada política. Segundo as campanhas, “democratas em mais de 130 campanhas federais e governatoriais veicularam anúncios anti-tecnologia”, muitos deles mirando diretamente centros de dados, consumo de energia, uso de água e influência das Big Techs na economia local.

A pressão não ficou restrita a um partido. O governador do Texas, Greg Abbott, que até poucos meses atrás se apresentava como defensor entusiasta da inteligência artificial, cedeu ao clima de desconfiança e, durante a campanha, “prometeu regulamentações mais duras contra centros de dados, mas perdeu a eleição”. A derrota é vista por analistas políticos como sinal de que o tema já pesa na avaliação de eleitores, inclusive em estados historicamente favoráveis à indústria de tecnologia.

Com a pauta anti-centros de dados ganhando espaço, candidatos locais e estaduais tendem a incluir nos próximos pleitos propostas mais duras de licenciamento, exigências de transparência sobre benefícios fiscais e metas de mitigação ambiental.

Entenda o contexto

A onda de rejeição atinge um setor que, até recentemente, avançava quase sem resistência política relevante, embalado pela demanda crescente por IA generativa, serviços em nuvem e processamento de dados em larga escala. Os centros de dados são a espinha dorsal dessa infraestrutura, consumindo grandes quantidades de energia e, em muitos projetos, de água para resfriamento.

Comunidades que hoje votam por moratórias e proibições alegam preocupação com pressão sobre a rede elétrica, impacto em mananciais, ruído, trânsito pesado de caminhões e mudanças no uso do solo. Também cresce o incômodo com pacotes generosos de isenções fiscais e subsídios concedidos a gigantes globais, em contraste com a percepção de poucos empregos de alta qualidade gerados localmente.

Nesse ambiente, a expansão da infraestrutura digital deixa de ser apenas uma aposta tecnológica e passa a ser um debate de política urbana e ambiental, em que a balança pende cada vez mais para a cautela — e, em vários casos, para o veto direto.

Investidores ligam alerta e veem risco de crédito

Bancos e gestores de ativos que financiam a construção de centros de dados já começaram a tratar a oposição local como risco de crédito explícito. Projetos que antes eram avaliados principalmente por demanda de capacidade e contratos com grandes clientes agora passam também por um filtro político e comunitário mais rigoroso.

Cancelamentos por plebiscito, pleitos judiciais baseados em leis locais recém-aprovadas e mudanças bruscas de postura de autoridades eleitas entram no radar de quem empresta ou aporta capital. Na prática, isso pode encarecer o crédito, reduzir prazos de financiamento e até tornar inviáveis propostas em cidades onde o clima político é considerado hostil à infraestrutura digital.

Para fundos de investimento com grande exposição a ativos imobiliários industriais ligados a tecnologia, o novo cenário exige revisões de portfólio e, em alguns casos, realocação de recursos para mercados com maior previsibilidade regulatória.

Big Techs buscam suavizar imagem com rebranding

As empresas de tecnologia atingidas pelo movimento tentam responder em duas frentes. De um lado, correm para contratar representantes comunitários encarregados de dialogar com moradores, explicar projetos, negociar contrapartidas e tentar desarmar resistências antes que elas cheguem às urnas.

De outro, apostam em uma mudança de linguagem: em vez de “data centers”, muitas passaram a falar em “compute campuses”, numa tentativa de associar os empreendimentos a inovação, pesquisa e desenvolvimento econômico de longo prazo. Os resultados, porém, são descritos como mistos. Onde a desconfiança já está enraizada, a simples troca de nome não tem sido suficiente para reverter plebiscitos nem barrar leis mais duras.

O movimento também pressiona as empresas a reforçar compromissos de sustentabilidade, como uso de energia renovável, sistemas de resfriamento mais eficientes e participação financeira em projetos de infraestrutura local, como linhas de transmissão e melhorias em saneamento.

Pressão deve aumentar e frear expansão em algumas regiões

A combinação de rejeição nas urnas, campanhas eleitorais explicitamente anti-tecnologia, maior cautela de bancos e fundos e a mudança de tom de políticos que antes eram aliados da indústria indica que o cenário de conflito em torno dos centros de dados está longe de arrefecer.

Em estados e condados onde a oposição ganhou força, a expectativa é de novas iniciativas legislativas e plebiscitárias para apertar ainda mais o controle sobre uso de solo, benefícios fiscais e padrões ambientais. Para as empresas de tecnologia e os grandes hyperscalers, a resposta passa por escolher com mais cuidado onde investir, redesenhar projetos para dialogar com demandas locais e aceitar uma fase de crescimento mais lento em áreas consideradas estratégicas até poucos meses atrás.