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Lançamentos de IA

Elon Musk impulsiona data centers no espaço após eleição no Texas

Após avanço democrata em eleições nos EUA, setor de tecnologia vê futuro incerto para data centers no Texas e acelera planos de levar infraestrutura de computação para órbita e para o fundo do mar.

Elon Musk impulsiona data centers no espaço após eleição no Texas

Tecnologia

Mudanças políticas nos EUA motivam expansão de data centers para ambientes alternativos como o espaço e o fundo do mar.

Leia também: Forrester: IA vai transformar finanças e bancos em 2027

A vitória de candidatos democratas em disputas estaduais e federais nos EUA, incluindo no Texas, acendeu o alerta na indústria de data centers e empurrou parte do setor de tecnologia para uma fronteira antes tratada como futurista: construir data centers no espaço — e até no fundo do mar — para escapar de entraves políticos e ambientais em solo texano.

Musk lidera coro por data centers em órbita

Na esteira da apuração, o bilionário Elon Musk, CEO da SpaceX e figura central do ecossistema tecnológico do Texas, transformou o desabafo político em bandeira de negócios. Depois de investir mais de 400 milhões de dólares em candidatos republicanos derrotados, ele escreveu na rede X: “Data centers in space looking pretty appealing right now”.

A mensagem encontrou eco rápido entre investidores, engenheiros e entusiastas de inteligência artificial. Jordan Lasker, operador da conta “Crémieux”, influente no meio tech, reforçou a leitura de que a guinada política empurra o setor para o espaço: “Data centers in space are an incredible idea and anyone who doubted them didn’t think enough about tonight’s election results”.

Ao longo das últimas horas, funcionários de grandes empresas, pesquisadores de IA e venture capitalists passaram a defender abertamente projetos de computação em órbita como alternativa à expansão em estados onde cresce a resistência a megacentros de dados — com o Texas no centro da disputa.

Projetos espaciais já saem do papel

Se a discussão ganhou fôlego por causa da eleição, a corrida tecnológica já estava em curso. O Google lançou um satélite com hardware descrito como de “classe data center”, voltado a processamento avançado em órbita. A SpaceX planeja colocar em operação milhares de satélites dedicados a inteligência artificial a partir de 2027, criando uma espécie de nuvem de alta performance fora da Terra.

Outra gigante, a Blue Origin, pediu autorização às autoridades de telecomunicações dos EUA para lançar 50.000 satélites que formariam um “sistema orbital de data center”, conceito que combina conectividade e processamento distribuído em baixa órbita.

Startups também tentam ocupar esse espaço. A Starcloud afirma ter levado a primeira GPU NVIDIA H100 para a órbita em novembro de 2025, passo simbólico para mostrar que chips usados hoje em grandes clusters de IA podem, em tese, operar em ambiente espacial.

Apesar do entusiasmo, especialistas lembram que data centers em órbita ainda são caros, limitados de escala e dependem de lançamentos bem-sucedidos. A infraestrutura espacial não alcança a dimensão dos grandes parques de servidores terrestres e está sujeita a falhas de foguetes, detritos orbitais e manutenção complexa.

Data centers subaquáticos entram no radar

Nem toda a fuga da política texana mira o céu. Parte do debate técnico aponta para o mar. Soham Mehta, pesquisador da Foundation for American Innovation, defende que data centers subaquáticos merecem ser considerados ao lado das plataformas em órbita, como forma de reduzir o impacto em áreas urbanas e o consumo de água doce.

O argumento ganha força com o avanço de projetos fora dos EUA. Desde junho, a China opera o que descreve como o primeiro data center subaquático em funcionamento contínuo, experimento que usa a água do mar para resfriamento e afasta o equipamento de zonas densamente povoadas — reduzindo conflitos locais por uso do solo e energia.

Na visão de entusiastas, combinar instalações em órbita e no fundo do mar pode criar uma malha de infraestrutura menos dependente de licenças estaduais e de disputas políticas locais, ainda que sujeita a outros tipos de regulação internacional e ambiental.

O que muda para data centers no Texas após a eleição?

O principal impacto imediato para o Texas é o aumento da incerteza regulatória. A nova correlação de forças deixou a Câmara estadual sob controle democrata, enquanto o Senado permanece republicano, travando mudanças rápidas mas abrindo espaço para pressões sobre um setor que foi alvo explícito de campanhas vitoriosas.

Para o professor Robert Paterson, especialista em uso do solo na Universidade do Texas, a divisão do Legislativo impõe freios a um pacote agressivo contra a indústria, mas não elimina a perspectiva de mudanças graduais. “Algumas mudanças imediatas provavelmente serão barradas devido à divisão do legislativo”, avalia.

Ele lembra, porém, que desenvolvedores de data centers contam hoje com direitos adquiridos robustos no Texas: a partir do momento em que uma licença é aprovada, os termos do projeto ficam protegidos mesmo que as obras ainda não tenham começado. Isso limita revisões retroativas e dá fôlego a empreendimentos já aprovados diante de um novo clima político.

Entenda o contexto

Se os direitos consolidados oferecem proteção jurídica, o ambiente para novos projetos é bem mais nebuloso. A campanha contra grandes data centers ganhou força em áreas impactadas por consumo intenso de energia, pressão sobre recursos hídricos e barulho de instalações, e foi explorada por candidatos democratas em várias regiões do estado.

Essa combinação — vitórias eleitorais com discurso crítico e marcos legais que blindam projetos já licenciados — cria um paradoxo: é difícil barrar o que está aprovado, mas o custo político e regulatório de novas autorizações tende a subir. É nesse vácuo que propostas “fora da Terra” ganham tração.

Poder do governador e limites dos condados

Mesmo com um Legislativo dividido, o Executivo estadual ainda tem ferramentas para pressionar o setor. Adrian Shelley, diretor da ONG de defesa do consumidor Public Citizen no Texas, afirma que a caneta do governo pode acelerar mudanças: “O governador pode emitir ordens executivas para mudanças mais rápidas”.

Segundo Shelley, o governo também pode mexer na cúpula de agências reguladoras ao pedir a saída de dirigentes indicados politicamente. Órgãos como a Comissão de Qualidade Ambiental, a Comissão de Serviços Públicos e o Conselho de Desenvolvimento de Recursos Hídricos têm poder para aplicar multas por infrações e, em casos extremos, revogar licenças de projetos, incluindo data centers.

Outra frente em discussão é o fortalecimento dos condados, onde se concentra quase metade dos data centers texanos em áreas não incorporadas a cidades. Hoje, esses governos locais têm pouco alcance regulatório por causa da chamada regra Dillon, que só lhes concede competências explicitamente previstas em lei estadual — o que exclui, por exemplo, poderes amplos de zoneamento urbano.

Paterson aponta que uma mudança no manual bienal do Estado, editado pela Procuradoria-Geral, poderia ampliar de forma limitada a autoridade dos condados sobre empreendimentos de grande impacto, como data centers. Mesmo num Legislativo rachado, avalia, um projeto específico para conceder “autoridade de zoneamento limitada” para esse tipo de instalação poderia avançar, já que o ceticismo em relação à indústria atravessa partidos.

Indústria pressionada, olhos no espaço

Para Shelley, o peso dos data centers na virada política ajuda a explicar por que o tema deve dominar a próxima temporada legislativa no Texas. Ele diz que os eleitores reagiram ao ritmo acelerado de construção e ao impacto local das estruturas, e critica a postura das empresas: “Eu direi que a indústria de data centers não demonstrou muito interesse em trabalhar com legisladores estaduais ou líderes locais, e estarei interessado em ver se isso muda”.

Enquanto isso, o mercado de tecnologia parece disposto a acelerar apostas longe dos embates texanos. Planos de constelações com dezenas de milhares de satélites, data centers submersos e chips de última geração em órbita desenham um cenário em que parte da infraestrutura digital mais valiosa do mundo pode, em alguns anos, operar fora do alcance direto de assembleias estaduais e conselhos locais.

Nos próximos ciclos de lançamento de foguetes e de tramitação de projetos de lei em Austin, ficará mais claro se o coração da computação da era da inteligência artificial continuará batendo no deserto texano — ou se começará, de fato, a migrar para o espaço e para o fundo do mar.