Empresas pagam bônus para usar IA e Califórnia limita demissões
Omnisend cria bônus para quem usar IA, transportadora corta custo com acidentes e Califórnia aprova lei que veta demissão baseada só em algoritmo, em meio a medo de vigilância.

Inovação Tecnológica
Iniciativas incentivam uso de IA enquanto nova lei na Califórnia protege trabalhadores contra demissões automatizadas.
Leia também: Anthropic IPO S-1 na Nasdaq mira US$ 100 bi e avalia US$ 2 tri
Empresas de diferentes setores estão acelerando o uso de inteligência artificial no trabalho com bônus em salário, vigilância em tempo real e programas de capacitação, enquanto a Califórnia aprova uma lei que proíbe demissões baseadas apenas em decisões automatizadas e tenta conter o medo de substituição por máquinas.
Por que há um esforço para fazer os trabalhadores confiarem e usarem IA?
O esforço para convencer funcionários a confiar e adotar IA nasce de um cálculo direto de produtividade e custo: ferramentas automatizam tarefas, reduzem acidentes e, ao mesmo tempo, enfrentam resistência de quem teme perder o emprego ou ser vigiado o tempo todo.
Na Omnisend, empresa de serviços de marketing por e-mail, a estratégia foi usar o bolso como argumento. A companhia lançou um programa de aumento salarial para funcionários que conseguirem provar ganhos concretos ao incorporar IA em suas rotinas. Dois especialistas de finanças desenvolveram, com modelos generativos, um agente de IA que hoje automatiza 85% do processo de cobrança de faturas, cruzando transações mensais, localizando notas e recibos faltantes e informando o status de cobrança ao time financeiro.
Segundo o CEO e cofundador, Rytis Lauris, a tecnologia “saves tons of hours every month” e não é pensada para cortar cabeças. “We don’t want to fire anyone to replace with AI”, afirma. O recado para dentro da empresa é que quem aprender a usar IA ganha tempo, agrega valor e é recompensado por isso.
Do lado da formação profissional, a Universidade de Phoenix tenta preparar o mercado cultivando usuários precoces de IA em seus cursos on-line. A instituição oferece acesso a ferramentas como Microsoft Copilot e modelos da OpenAI integrados às disciplinas, promove desafios de inovação com projetos ligados ao ambiente de trabalho e cobra uso responsável dos sistemas, com foco em resultados melhores, não apenas mais rápidos. A ideia é que o futuro empregado já chegue à empresa confortável com a tecnologia — e crítico em relação aos riscos.
Leis tentam equilibrar automação e direitos trabalhistas
Enquanto empresas empurram a adoção de IA, legisladores começam a erguer freios. Na Califórnia, o governador Gavin Newsom sancionou em 30 de setembro uma lei que proíbe que empregadores usem sistemas automatizados como único critério para demitir ou punir funcionários. Decisões baseadas em recomendações de IA agora precisam ser validadas ou corroboradas por uma análise humana antes de resultar em afastamento ou sanção.
Outra norma aprovada pelo governo estadual obriga companhias a informar de forma explícita quando o uso de IA levar a demissões em massa, fechamento ou mudança de unidades. A lei altera as regras de aviso prévio do chamado Cal-WARN, que já exigiam comunicação 60 dias antes de cortes em larga escala, e determina que os documentos tragam, logo no topo, a frase indicando “deslocamento tecnológico”.
Essas medidas funcionam como um reconhecimento oficial de que o temor de substituição por algoritmos não é paranoia de corredor. Ao mesmo tempo, sinalizam às empresas que inovação precisa vir acompanhada de transparência e de algum tipo de freio ético para decisões que mexem diretamente com a renda e a dignidade dos trabalhadores.
Monitoramento em tempo real reduz acidentes, mas assusta motoristas
No transporte, a Pet Food Experts apostou em IA para atacar outro tipo de custo: acidentes de trânsito. Há dois anos, a empresa equipa seus caminhões com o sistema Driver•I HD, da Netradyne, um conjunto de câmeras e algoritmos que avaliam a condução em tempo real, registram infrações e criam uma pontuação para cada motorista.
De acordo com Phil Young, diretor de segurança, segurança e compliance da companhia, a economia é mensurável. “Our cost per accident has probably dropped about $10,000 plus this year because now we’re totally ingrained”, diz. A empresa relata menos acidentes graves e maior atenção dos condutores.
O preço dessa virada foi um início conturbado. “There was a lot of trepidation among the drivers”, lembra Young. Muitos motoristas se sentiram vigiados e rejeitaram a gamificação da ferramenta, que funciona como um videogame: o condutor começa com 1.000 pontos e perde conforme comete infrações, com penalidades maiores para situações mais perigosas, como freadas bruscas.
“Everybody is going to get a driver score”, insiste Young. Segundo ele, o sistema leva em conta a gravidade de cada desvio e fornece métricas detalhadas ao time de segurança. A meta interna era ter todos os motoristas com pontuação acima de 850 em um ano.
Para vencer a resistência, a empresa investiu em conversas presenciais, inclusive aos sábados, e não escondeu que o movimento é irreversível no setor. “This is going to happen, and if you are uncomfortable with it, feel free to go because I can guarantee this, there’s a push for this in the industry”, afirma o diretor, numa mensagem direta: a alternativa a se adaptar pode ser ir para uma concorrente que já use tecnologia similar.
Quais são os principais desafios para fazer os trabalhadores adotarem a IA?
Os principais desafios para fazer trabalhadores adotarem IA são o medo de demissão, a sensação de vigilância constante, a desconfiança em decisões automáticas e a falta de preparo para usar as ferramentas de forma produtiva.
No caso da Pet Food Experts, a reação inicial dos motoristas ilustra o choque cultural: profissionais acostumados a dirigir sem monitoramento em tempo real se veem avaliados por câmeras e algoritmos, com notas que podem influenciar sua imagem na empresa. Mesmo com ganhos comprovados de segurança, parte do time questiona a transformação da rotina em uma espécie de jogo de pontuação, e muitos enxergam a IA mais como mecanismo de punição do que de apoio.
Em setores administrativos e de serviços, como na Omnisend, o receio é outro: de que a mesma tecnologia que hoje ajuda a cobrar faturas e organizar dados acabe, amanhã, reduzindo equipes. Iniciativas de bônus e declarações públicas, como a de Rytis Lauris ao afirmar que não quer demitir para substituir por IA, são tentativas de responder a esse medo e de reposicionar a automação como aliada, não concorrente.
Há ainda o desafio da qualificação. Sem treinamento estruturado, funcionários tendem a usar mal as ferramentas ou evitá-las, o que reforça a percepção de que a IA é complexa, arriscada e distante da realidade. A aposta da Universidade de Phoenix em colocar estudantes para resolver problemas de trabalho com IA, sob regras de uso ético e foco em resultados de qualidade, mira justamente essa lacuna.
Na prática, o cenário que se desenha é de disputa permanente entre ganhos de eficiência para empresas, novas salvaguardas legais para trabalhadores e uma corrida por capacitação que deve definir quem se beneficia mais da próxima onda de automação.


