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Inteligência Artificial

Escolas dos EUA cortam lições e mudam provas para frear IA

Professores em cidades dos EUA trocam redações feitas em casa por provas orais, mais escrita em sala e menos lição, numa corrida para driblar o uso de chatbots por alunos.

Escolas dos EUA cortam lições e mudam provas para frear IA

Inteligência Artificial

Educadores americanos adotam novas estratégias para combater o uso de chatbots nas avaliações escolares.

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Professores de escolas públicas em cidades como São Francisco, Nova York e arredores de Chicago estão mudando a forma de avaliar alunos, cortando redações feitas em casa, reduzindo lições e apostando em provas orais e mais escrita em sala para conter o uso indevido de chatbots de inteligência artificial.

Professores levam avaliação de volta para a sala de aula

Na capital mundial da tecnologia, em São Francisco, a professora de humanidades do 6º ano Tristen Chang abandonou as redações para casa e passou a aplicar provas orais relâmpago. Em cinco minutos, os alunos respondem 15 perguntas sobre personagens, enredo, tema e metáforas dos livros estudados, sempre cara a cara com a professora.

“Há muito tempo a tecnologia vem transformando o ensino, mas a IA é a mudança mais drástica. Tudo foi jogado para o alto”, diz Chang, ao explicar por que reorganizou a rotina da turma para reduzir a dependência de chatbots.

No mesmo distrito, o professor de inglês Rusty Shabe ampliou o tempo dedicado à produção escrita em aula. Ele percebeu que, em casa, muitos estudantes recorrem à inteligência artificial quando se sentem sobrecarregados, o que esvazia o objetivo pedagógico das tarefas. Agora, projetos de redação podem ocupar um mês inteiro de trabalho em classe, sob acompanhamento próximo.

Em Nova York, o impacto chegou até a matemática. O professor de ensino médio Bobson Wong diminuiu a quantidade de exercícios de casa e aumentou a carga de atividades durante a aula, para observar o passo a passo do raciocínio dos alunos na resolução de problemas. “A IA definitivamente mudou não apenas a maneira como os alunos fazem matemática, mas também como eu a ensino”, afirma.

Nos arredores de Nova York, a professora de inglês Meghan Hyland mudou a logística da turma depois de flagrar estudantes consultando IA no banheiro. Os celulares passaram a ficar na sala, em um espaço combinado, e as tarefas feitas em classe ganharam muito mais peso na nota final. “Minha principal maneira de entender se eles sabem pensar criticamente precisa acontecer na escola”, explica.

Entenda o contexto

A onda de mudanças começou a ganhar força a partir do ano passado, impulsionada pela popularização dos chatbots generativos em celulares e computadores pessoais. Em poucos cliques, alunos conseguem respostas prontas para resenhas, exercícios e até provas, o que tornou tradicionais trabalhos escritos em casa vulneráveis a fraudes difíceis de detectar.

Em paralelo, redes de ensino ainda tateiam entre integrar, limitar ou restringir o uso da tecnologia. Sem diretrizes claras e unificadas, professores vêm assumindo a linha de frente dessa adaptação, testando formatos que preservem a avaliação do raciocínio e do pensamento crítico, e não apenas o resultado final entregue pelo estudante.

Antero Garcia, professor de educação da Universidade Stanford e presidente do Conselho Nacional de Professores de Inglês, resume a incerteza do momento: “Enquanto muitos adultos utilizam essas ferramentas para diferentes finalidades no trabalho, ainda não descobrimos realmente o que isso significa para a educação”.

Provas orais, questões imprevisíveis e textos em papel

Uma das estratégias mais comuns é trocar perguntas previsíveis, facilmente respondidas por IA, por desafios que exigem interpretação original. No Bronx, em Nova York, a professora de inglês do ensino médio Pian Rockfeld evita enunciados tradicionais sobre personagens ou resumo de enredo e prioriza leituras mais profundas e pessoais.

“Procuro me esforçar bastante para criar questões às quais, pelo menos por enquanto, a IA ainda não consiga responder perfeitamente”, diz Rockfeld. Para dificultar ainda mais o uso de respostas prontas, ela passou a pedir redações baseadas em artigos acadêmicos acessíveis apenas em bases pagas, às quais muitos chatbots não têm acesso direto.

Em uma cidade próxima a Chicago, o professor de inglês Rex Ovalle vem reduzindo o tempo de tela da turma. Assim que a aula começa, cada aluno pega um caderno físico em uma caixa e guarda o laptop. Os computadores do tipo Chromebook são usados, hoje, em cerca de 10% dos dias letivos. O restante é preenchido por escrita à mão, leitura em papel e projetos práticos. “Tenho percebido muito mais participação, porque não dá para se esconder quando os laptops estão guardados”, afirma.

Hyland, em Nova York, também leva a criatividade para além do texto tradicional. Em uma de suas turmas, os estudantes tiveram de preparar uma demonstração culinária para mostrar o que entenderam do romance “Um Conto de Duas Cidades”, de Charles Dickens. Um biscoito preto e branco, por exemplo, foi apresentado como representação da famosa frase inicial do livro, que contrapõe extremos de tempo e lugar.

Estudos mostram ganhos e riscos da IA na aprendizagem

Pesquisas recentes ajudam a explicar a pressa de professores em rever suas práticas. Estudos realizados em 2025 por grupos de Harvard, do MIT e pela fundação Rand apontam que a inteligência artificial pode tanto apoiar quanto atrapalhar o aprendizado, dependendo de como é usada.

Em um experimento com tutor virtual personalizado, os resultados mostraram melhora no desempenho e maior engajamento dos alunos que contavam com a ajuda de IA para tirar dúvidas e revisar conteúdos. Já outra investigação, focada na escrita de redações com apoio de chatbots, identificou que os participantes concluíam os textos mais rapidamente, mas com sinais de menor reflexão sobre o processo.

Um levantamento amplo da Rand, também de 2025, registrou que a maior parte de estudantes e professores de inglês, matemática e ciências já utiliza ferramentas de IA em atividades escolares. O dado reforça, para educadores, que proibir a tecnologia não é uma opção realista; o desafio passa a ser redesenhar aulas e avaliações para que o uso não substitua o esforço intelectual do aluno.

Menos lição de casa, mais trabalho “ao vivo”

Nesse redesenho, tarefas feitas em casa vêm perdendo protagonismo. Professores relatam que reduziram significativamente a quantidade de lições domiciliares, priorizando exercícios, debates e redações em classe, onde conseguem observar a construção das ideias em tempo real e fazer intervenções imediatas.

Além de mudanças nas notas, isso altera a dinâmica da sala. Há mais tempo reservado para rascunhos, revisões coletivas, apresentações e discussões orientadas, o que exige mais planejamento e preparo dos docentes. Em compensação, quem depende excessivamente de tecnologia para produzir textos ou resolver problemas encontra menos espaço para se esconder atrás de respostas perfeitas geradas por IA.

Para os estudantes, o recado é claro: saber operar um chatbot não basta para garantir boas notas. A habilidade mais cobrada passa a ser explicar o próprio raciocínio, sustentar um argumento e demonstrar compreensão profunda dos conteúdos, seja em uma conversa rápida com o professor, seja em um projeto prático que precise ser defendido diante da turma.

IA como vilã e aliada no mesmo ambiente

Apesar da desconfiança em torno do uso de chatbots por alunos, alguns professores começam a explorar o outro lado da moeda: o potencial da IA como ferramenta pedagógica. Eles a utilizam para buscar referências, ajustar materiais de leitura a diferentes níveis de compreensão e até criar recursos visuais para apresentações.

Nos arredores de Nova York, o professor de ciências humanas Michael Zagari recorre à IA para adaptar documentos históricos, resumir artigos e ajudar a encontrar textos sobre temas específicos para as aulas. Ele também incentiva os estudantes a usar a tecnologia na fase inicial de pesquisas, desde que assumam a responsabilidade de checar as informações e ir além do que o sistema oferece.

“A IA não vai desaparecer. Precisamos ensinar o uso responsável da IA, assim como ensinamos o uso responsável da internet”, argumenta Zagari, ecoando a visão de especialistas de que a solução não está em ignorar a tecnologia, mas em integrá-la de forma crítica.

Na prática, os próximos passos tendem a passar por formação continuada de professores, definição de políticas mais claras sobre quando e como a IA pode ser usada e, sobretudo, pela consolidação de um modelo de aula mais interativo, com avaliações cada vez mais presenciais e centradas no raciocínio próprio dos estudantes.