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Inteligência Artificial

Robô LEIA e IA em sala de aula mudam rotina das escolas

Sistema criado por alunos do Sesi Votorantim com a robô LEIA organiza a ajuda em sala de aula e incentiva o raciocínio crítico, enquanto MEC e CNE avançam na regra para uso da inteligência artificial na educação.

Robô LEIA e IA em sala de aula mudam rotina das escolas

Inteligência Artificial

Iniciativas inovadoras transformam o ensino com robôs e novas diretrizes para IA nas escolas brasileiras.

Leia também: Alura lança hub com IA para turbinar vagas em tecnologia hoje

Alunos do 3º ano do Ensino Médio do Sesi Votorantim, no interior de São Paulo, desenvolveram o sistema de inteligência artificial “Mentor Maker”, que pode ser integrado à robô humanoide LEIA para organizar o atendimento em sala de aula e estimular o raciocínio crítico dos colegas, em meio a um avanço nacional de regras e formações para uso da IA nas escolas.

Alunos criam sistema com robô para apoiar professores

O “Mentor Maker” foi criado por Felipe Augusto Gomes, Pedro Henrique Detonhe e Samuel Pires, com orientação do professor de educação digital Marcelo Dias. O projeto, de baixo custo e replicável, ficou em 2º lugar no Sesi Makerthon 2026, competição estadual que reuniu 121 propostas.

O sistema utiliza painéis eletrônicos instalados na sala para que cada estudante indique o nível de dificuldade em determinada tarefa. A partir desses sinais, o “Mentor Maker” monta uma fila de atendimento que prioriza quem mais precisa de ajuda, gerando dados para que o professor reveja a forma de explicar os conteúdos.

“O projeto surgiu da necessidade de auxílio aos estudantes em ambientes de alta demanda e, prezando pela robótica e desenvolvimento tecnológico, nós pensamos em como resolver esse problema utilizando algo interativo para os estudantes. Nesse caso, o painel foi criado para mudar o ambiente dentro da sala de aula e não só ampliar o foco do aluno, mas direcionar o uso da inteligência artificial de maneira correta”, afirma Felipe Augusto Gomes.

Integrada ao sistema, a robô humanoide LEIA ouve as dúvidas dos alunos e aciona a IA para oferecer orientações que provocam o raciocínio, em vez de entregar respostas prontas. “A LEIA consegue responder perguntas para incentivar o estudante a continuar indo atrás das respostas, exibindo não só imagens, mas também circuitos e outras opções relacionadas para mostrar como o estudante pode avançar naquela atividade. Dessa forma, a robô serve como um apoio para os estudantes”, diz Felipe.

Para Pedro Henrique Detonhe, parte central da inovação está justamente em corrigir o uso equivocado da tecnologia. “Essa é uma questão muito recorrente nas salas de aula do mundo todo e é perceptível que os estudantes usam isso de maneira equivocada. Eles procuram consultar para conseguir respostas prontas, não para auxiliar no raciocínio”, afirma.

O orientador Marcelo Dias reforça que o objetivo não é substituir o docente. “O ‘Mentor Maker’ não vai substituir o professor e isso nunca foi pensado, porque o professor tem um papel fundamental dentro da sala de aula. Prezamos muito pelo socioemocional e pelo projeto de vida dos alunos, e o professor entra diretamente nisso e não há como substituir. O sistema é um apoio para auxiliar nos momentos em que os estudantes não têm as respostas e são instigados a buscar as respostas cada vez mais”, diz.

Segundo o professor, o projeto se tornou uma pesquisa contínua na unidade, com previsão de ser aperfeiçoado por novas turmas. O sistema também foi desenhado para funcionar sem a robô: basta confeccionar os painéis com os alunos, o que reduz o custo e facilita a adoção por outras escolas.

Inteligência artificial na educação superior: o que muda?

A presença da inteligência artificial na educação não se limita ao ensino básico. Universidades e faculdades também passam a discutir regras específicas para o uso da tecnologia em trabalhos, pesquisas e avaliações, pressionadas por dados que mostram impacto direto no desempenho dos alunos.

Uma pesquisa internacional de avaliação de estudantes, que ouviu 760 mil jovens de 15 anos em 91 países, apontou que 49% das escolas proíbem o uso de celulares e IA. O levantamento indica que o desempenho de estudantes que não utilizam ferramentas de inteligência artificial é, em média, 13% superior ao daqueles que recorrem à tecnologia.

No Brasil, o uso já é massivo entre adolescentes e tende a se prolongar na educação superior. A pesquisa TIC Educação 2025 mostra que sete em cada dez alunos brasileiros usam IA em atividades escolares, embora apenas 37% das escolas permitam formalmente seu uso. Em muitas instituições, a política ainda é de proibição total ou parcial, o que se choca com a rotina dos estudantes e cria um vácuo de orientação sobre boas práticas.

Especialistas em educação defendem que a saída não é ignorar o fenômeno. “O desafio não é simplesmente proibir ou liberar a ferramenta, mas ensinar seu uso de forma consciente”, alertam. Na prática, isso significa incluir a discussão de IA em planos de curso, orientar sobre plágio e autoria, e mostrar como a tecnologia pode apoiar pesquisa, organização de estudos e revisão de conteúdo, sem substituir o esforço intelectual do aluno.

Entenda o contexto

Com a popularização de sistemas de IA generativa, como assistentes de texto e imagem, o uso da tecnologia por estudantes cresceu mais rápido do que as políticas educacionais. Enquanto a maioria já inclui a IA no dia a dia, grande parte das escolas e faculdades ainda não definiu como encaixar essa realidade em regras claras de avaliação, ética e aprendizagem.

O resultado são situações extremas: de um lado, instituições que proíbem qualquer uso, inclusive para apoio à pesquisa; de outro, alunos que recorrem à IA para fazer tarefas inteiras, sem supervisão, o que compromete o desenvolvimento de habilidades de leitura, escrita e pensamento crítico.

Inteligência artificial na educação MEC: quais as regras?

A regulação do uso da IA nas redes de ensino começa a tomar forma no país com a atuação conjunta do Conselho Nacional de Educação e do Ministério da Educação (MEC). O CNE aprovou recentemente a primeira regulamentação oficial sobre o tema, proibindo o uso de inteligência artificial sem supervisão de um professor para alunos até o 5º ano do ensino fundamental.

A norma estabelece que, nas primeiras séries, qualquer interação dos estudantes com a IA deve ocorrer com acompanhamento direto do docente, que passa a atuar como mediador entre a ferramenta e o aluno. A proposta aguarda análise do MEC, que trabalha na definição de diretrizes nacionais e em orientações para as redes estaduais, municipais e privadas.

Em paralelo, o Ministério da Educação oferece cursos e trilhas formativas voltados a professores e gestores justamente para preparar o uso pedagógico da tecnologia. Pesquisas sobre capacitação docente mostram, porém, que menos da metade dos professores participou de algum treinamento relacionado à inteligência artificial, o que expõe um gargalo entre a formulação das políticas e sua implementação na ponta.

Especialistas que acompanham o debate reforçam que, sem formação específica, a tendência é que escolas e secretarias de educação recorram a soluções simplistas, como proibir a ferramenta em vez de incorporá-la de forma planejada. A regulamentação do CNE, ao exigir supervisão no fundamental I, pressiona ainda mais por investimento em formação continuada.

Escolas criam ‘semáforo’ e aulas de IA para evitar plágio

Enquanto as normas nacionais avançam, escolas públicas e particulares já testam caminhos próprios para lidar com a inteligência artificial nas salas de aula. Uma das estratégias que ganha espaço é o sistema de “semáforo”, que define, atividade a atividade, o nível de permissão para uso da tecnologia.

Em tarefas marcadas como “vermelhas”, o uso de IA é vetado, principalmente em avaliações em que se quer medir a aprendizagem individual. Nas “amarelas”, a ferramenta pode ser usada apenas para consulta ou organização de ideias, com limites e orientação. Já as “verdes” liberam o uso mais amplo, por exemplo, em projetos e pesquisas, desde que o aluno registre como usou a tecnologia e cite a fonte no trabalho.

Outras instituições criaram aulas específicas para ensinar os estudantes a elaborar comandos (prompts) mais precisos, ler criticamente as respostas e verificar fontes, o que fortalece tanto as competências digitais quanto o pensamento crítico. A meta é inverter a lógica de “atalho” para tarefas e transformar a IA em apoio ao processo de aprendizagem.

Nesse cenário, experiências como a do Sesi Votorantim ajudam a ilustrar caminhos possíveis: em vez de substituir a relação entre professor e aluno, a IA é usada para organizar demandas, dar pistas, sugerir caminhos e deixar que a construção da resposta siga com o estudante, mediado pelo docente.

Com mais projetos como o “Mentor Maker”, a regulamentação recém-aprovada pelo CNE e as formações oferecidas pelo MEC, a expectativa é que as redes de ensino avancem na criação de políticas internas, rotinas e contratos pedagógicos claros sobre o uso da inteligência artificial, equilibrando inovação com desenvolvimento crítico e socioemocional dos estudantes.