Ex-Deepmind cria IA que prova cada resposta e reduz erros
Thore Graepel, fundador da Metis Reasoning, apresentou em Berlim um sistema de IA com “registro explícito de conhecimento” que verifica cada conclusão com evidências para eliminar alucinações.

Inteligência Artificial
Sistema inovador verifica respostas com evidências para minimizar erros e garantir precisão nas conclusões.
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O pesquisador alemão Thore Graepel, ex-Deepmind e fundador da startup Metis Reasoning, apresentou nesta semana, na conferência GTC da Nvidia em Berlim, uma proposta para criar sistemas de inteligência artificial que monitoram o que sabem e checam cada conclusão com base em evidências, numa tentativa de praticamente zerar as chamadas alucinações de modelos de linguagem.
Como funciona o ‘registro explícito de conhecimento’
Graepel se inspira na arquitetura do AlphaGo, sistema que combinou uma rede neural preditiva com uma busca sistemática para encontrar jogadas improváveis — como o célebre lance 37, estimado à época como tendo chance de uma em 10 mil de ser escolhido por um humano. Segundo a Metis, os modelos atuais de linguagem seriam apenas a parte preditiva dessa arquitetura, que sugere saídas plausíveis, mas não passa por uma verificação rigorosa de consequências.
A proposta é acrescentar a esse tipo de modelo um “registro explícito de conhecimento”, comparado a um tabuleiro de jogo, no qual a IA anota tudo o que afirma saber, o nível de confiança em cada item e quais perguntas seguem sem resposta. “O sistema registra o que sabe, seu nível de confiança e as perguntas em aberto, reavaliando conclusões quando premissas mudam”, descreve a Metis Reasoning.
Esse registro não fica escondido nos pesos do modelo; ele é manipulado por um módulo separado, responsável por conferir cada nova informação com cálculos, provas formais ou evidências empíricas, como dados experimentais ou consultas a bases externas. Quando uma premissa cai por terra, o módulo dispara uma reanálise de todas as conclusões que dependiam dela.
As “jogadas” desse sistema podem ser perguntas adicionais, experimentos, buscas por dados ou desafios a suposições já registradas. Dois modelos neurais atuam como em AlphaGo: um sugere ações, outro avalia qual passo tem mais chance de reduzir a incerteza sobre a questão original. Nenhum deles, porém, pode driblar as regras de verificação.
Com isso, a Metis afirma que “a abordagem deve produzir menos alucinações, explicações com citações de fontes e conhecimento que pode ser alterado sem retreinamento”. Em vez de uma resposta categórica, o sistema também poderá oferecer uma abstenção justificada, quando não houver evidência suficiente.
Entenda o contexto
A crítica central de Graepel é que mais dados e mais capacidade computacional não consertam o problema estrutural dos modelos atuais. “Os modelos fabricam respostas plausíveis em vez de verdadeiras e suas cadeias de raciocínio não podem ser verificadas”, diz a Metis Reasoning.
Na prática, o conhecimento fica encapsulado nos pesos das redes neurais. Se uma informação está errada ou desatualizada, não há como simplesmente “apagá-la”: é preciso retreinar ou ajustar finamente o modelo, com custos altos e resultados nem sempre previsíveis. A equipe argumenta que esse desenho limita o impacto econômico da IA em setores onde erros têm consequências graves.
“IA precisa ser verificável do zero para ter impacto em medicina, finanças, design de chips e robótica”, afirma a Metis Reasoning. Nesses campos, empresas e reguladores tendem a exigir rastreabilidade: saber de onde veio cada afirmação, quais dados a sustentam e como uma decisão foi tomada.
Aplicações em robótica e dispositivos de borda
A proposta também dialoga com a agenda da própria Nvidia, que usa a GTC em Berlim para reforçar sua plataforma de robótica e “IA física”. A ideia é que robôs, veículos autônomos e sistemas embarcados possam tomar decisões baseadas em raciocínio verificável, mesmo com recursos limitados de processamento.
Como o método da Metis divide o raciocínio em muitos passos pequenos, em vez de depender de uma única inferência gigante, abre-se espaço para usar modelos menores, capazes de rodar em dispositivos de borda. A Nvidia sintetiza essa aposta ao dizer que está “transformando o problema de dados da robótica em um problema de computação” — isto é, investindo em arquiteturas e chips capazes de simular, testar e checar cenários em escala.
Nesse arranjo, o registro explícito de conhecimento poderia atuar como uma espécie de diário de bordo: o robô registra o que observou, quais hipóteses levantou, que testes fez e que conclusões conseguiu sustentar. Esse histórico pode ser auditado depois por engenheiros, reguladores e usuários.
Desafios técnicos e limites da proposta
A Metis reconhece que, fora do tabuleiro bem definido de um jogo, o mundo real é mais bagunçado. Evidências podem ser caras ou demoradas de obter, muitos dados são parciais ou ambíguos e algumas perguntas simplesmente não têm resposta objetiva. Esse cenário torna mais difícil construir e manter um registro de conhecimento confiável em domínios pouco estruturados.
Há também o desafio clássico da IA simbólica: sistemas anteriores que tentaram representar o conhecimento explicitamente fracassaram em grande escala justamente porque dependiam de alimentação manual de regras e fatos. A aposta de Graepel é que, ao combinar modelos neurais com uma camada de verificação automatizada, seja possível escapar desse gargalo.
Por enquanto, a iniciativa está em fase de pesquisa. O white paper da Metis descreve o programa conceitual, mas não há ainda um sistema operacional completo, benchmarks públicos ou comparações diretas com os modelos de raciocínio mais avançados em uso.
Startup nasce em meio à saída de talentos da Deepmind
Graepel é uma das figuras centrais da geração que ajudou a tornar a Deepmind referência em IA. Com doutorado em machine learning obtido em Berlim, ele participou de projetos como AlphaGo, AlphaZero e MuZero e integrou, mais recentemente, o grupo interno voltado a cenários pós-AGI no Google Deepmind. Paralelamente, é professor de machine learning na University College London.
Agora, ele se junta à leva de ex-pesquisadores que deixam a empresa para fundar startups independentes, em meio a relatos de perda de autonomia da Deepmind dentro do Google e dificuldades de acesso interno a infraestrutura avançada de chips. Esse movimento já produziu empresas que captaram rodadas volumosas e disputam talentos com as gigantes de tecnologia.
No caso da Metis, o plano de financiamento é ambicioso. “Estamos levantando uma rodada inicial na casa de dezenas de milhões de dólares, com uma rodada subsequente de centenas de milhões planejada”, afirma Thore Graepel. O interesse de investidores, segundo ele, vem principalmente da possibilidade de levar IA confiável a setores regulados, onde hoje as alucinações dos modelos são um impeditivo direto de adoção.
Se a abordagem do registro explícito de conhecimento se provar viável em testes práticos, a expectativa é que ela ajude a redefinir padrões de confiabilidade e explicabilidade em IA, com impacto tanto em regras regulatórias quanto em novos produtos em áreas como saúde, finanças, robótica e design de chips.


