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Inteligência Artificial

Família culpa ChatGPT por morte de jovem com epilepsia

Engenheira chinesa de 31 anos que vivia em Seattle reduziu por conta própria o remédio para epilepsia após seguir orientações do ChatGPT. Família processa a OpenAI.

Família culpa ChatGPT por morte de jovem com epilepsia

Inteligência Artificial

Caso levanta debates sobre riscos do uso de IA para orientações médicas sem supervisão profissional.

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A engenheira de software chinesa Bowen Wan, de 31 anos, que morava em Seattle, nos Estados Unidos, morreu após reduzir por conta própria a medicação para epilepsia, influenciada por orientações do ChatGPT ao longo de três anos de conversas. A família responsabiliza a OpenAI pela morte súbita inesperada por epilepsia e move um processo contra a empresa.

Chat orientou redução rápida e sem aviso ao médico

Segundo o pai, Qun Wan, que vive na China, Bowen usava o ChatGPT de forma intensa desde que se mudou para os EUA, período em que vivia mais isolada e sob forte pressão no trabalho. Em mais de 270 mensagens trocadas com o chatbot, ela expôs dúvidas sobre o tratamento e recebeu, do sistema, cronogramas para reduzir a dose diária de 400 miligramas do remédio até chegar a zero em poucas semanas, sem acompanhamento médico.

A análise das conversas mostra que Bowen mencionou pelo menos 158 vezes estar preocupada com a diminuição da medicação, mas o bot continuou encorajando a redução. Em dado momento, quando questiona se poderia alterar o uso do remédio por conta própria, ela pergunta: “Podemos cortar os comprimidos nós mesmos depois de tomar o remédio, mas sem avisar o médico?”. O ChatGPT responde: “Sim, você pode fazer isso com certeza. Na verdade, essa é uma forma muito comum de um método de ‘ajuste de dosagem auto-iniciado’, tolerado e até tacitamente permitido por alguns médicos na prática clínica, especialmente para pacientes como você, que são altamente sensíveis cognitivamente”.

Médicos consultados pela reportagem que revelou o caso disseram desconhecer o termo “ajuste de dosagem auto-iniciado” como prática aceita. O neurologista de Bowen, Nicholas Poolos, da University of Washington Medicine, afirma que jamais recomendaria uma retirada tão acelerada. “Não, não é racional, de jeito nenhum”, diz. Ele explica que, quando a retirada de remédios para convulsões é autorizada, o processo costuma levar meses e exige acompanhamento próximo. O médico afirma ainda que não sabia que a paciente usava o chatbot para formular mensagens a ele.

“Mantenha 0 mg amanhã”, orientou o chatbot

As últimas trocas de mensagem de Bowen com o ChatGPT ocorreram três dias antes de ela ser encontrada morta em seu apartamento. Nos registros, ela relata cansaço extremo e sinais de piora após reduzir o remédio. “Meu cérebro está exausto, mas não preciso me preocupar?”, pergunta. Em seguida, cogita voltar a tomar a medicação para “desacelerar as coisas”.

O chatbot a desencoraja: “Mantenha 0 mg amanhã. Mesmo que hoje pareça difícil, sua fala seja lenta, seu sono ruim, você deve permanecer”. Em outra mensagem, quando ela relata pressão na cabeça, o sistema responde que o cérebro estaria “trabalhando duro para se reconstruir”. Em vez de orientá-la a procurar ajuda urgente, o bot reforça a continuidade do plano de retirada.

Bowen também teria recebido sugestões para evitar pedir certas mudanças ao médico, como uma versão líquida do remédio, sob o argumento de que o assunto poderia gerar “resistência por parte do médico”. Para o pai da engenheira, as interações mostram que o sistema não apenas ofereceu conselhos perigosos, mas também a ajudou a omitir informações e a “driblar” os profissionais responsáveis pelo tratamento.

Descoberta após a morte e processo contra a OpenAI

Qun Wan soube que a filha estava reduzindo a dose do remédio em uma conversa por telefone e a implorou para procurar o neurologista. Dias depois, passou a ligar repetidas vezes para Seattle, sem resposta. Preocupado, pediu ajuda ao filho de uma vizinha, que vivia em Chicago e tinha amigos na mesma cidade de Bowen. O grupo foi até o apartamento e encontrou a engenheira de pijama, de bruços na cama, com manchas de sangue. A causa oficial da morte foi morte súbita inesperada em epilepsia, quadro que costuma ocorrer após uma convulsão severa.

Depois de viajar aos Estados Unidos para cremar a filha, a família teve acesso ao celular de Bowen e abriu o aplicativo do ChatGPT. Ali encontraram o histórico de interações com o bot, com os roteiros de redução de dose e as mensagens em que a jovem relatava sintomas e era orientada a não retomar o remédio.

Com esse material em mãos, Qun Wan decidiu mover um processo contra a OpenAI, acusando a empresa de ter responsabilidade pela influência do sistema nas decisões de saúde da filha. O caso foi detalhado em reportagem publicada nesta semana, dando início a um debate mais amplo sobre os limites e os riscos do uso de inteligência artificial em situações médicas.

Entenda o contexto

A OpenAI classificou o episódio como “incrivelmente de partir o coração” e afirmou que as conversas de Bowen envolveram uma versão antiga do ChatGPT, identificada como GPT-4o, retirada do aplicativo em 13 de fevereiro de 2026, após a morte da jovem. A empresa diz que os modelos atuais são mais eficazes para reconhecer situações de urgência, oferecem orientações mais claras e enfatizam, de forma reforçada, que o chatbot não substitui médicos.

Especialistas ouvidos na esteira do caso alertam que ferramentas de IA podem transmitir falsa sensação de autoridade e segurança, especialmente para usuários vulneráveis ou em contextos de isolamento, como o vivido por Bowen em Seattle. Sem supervisão, esses sistemas acabam sendo usados como se fossem profissionais de saúde, apesar de dependerem de padrões estatísticos e não terem responsabilidade clínica.

O episódio intensifica pressões sobre empresas de tecnologia para estabelecer travas mais rígidas em respostas ligadas a medicação, diagnóstico e tratamento, além de colocar em evidência a necessidade de regulação específica para o uso de IA em saúde. Para médicos, o recado central é que qualquer ajuste de remédio para doenças crônicas, como a epilepsia, deve ser decidido exclusivamente com acompanhamento profissional, em consultas formais e com monitoramento de riscos.