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Política

Fraude nas eleições dos EUA pode travar Trump e aliviar Brasil

Disputa desta terça define controle do Congresso dos EUA e pode enfraquecer a agenda externa de Donald Trump, com impacto direto em tarifas, sanções e na relação com o governo Lula.

Fraude nas eleições dos EUA pode travar Trump e aliviar Brasil

Política

Resultados das eleições nos EUA influenciam tarifas e sanções, afetando diretamente a relação com o Brasil.

Leia também: Eleições EUA definem Congresso e futuro da agenda Trump terça

As eleições de meio de mandato nos Estados Unidos, que ocorrem nesta terça-feira, podem tirar dos republicanos o controle do Congresso e redesenhar a relação do governo Donald Trump com o Brasil de Luiz Inácio Lula da Silva, hoje marcada por tarifas, sanções e tensão diplomática.

Disputa define equilíbrio de poder em Washington

O pleito renova todas as 435 cadeiras da Câmara dos Representantes, 35 vagas do Senado e 39 governos estaduais, num teste direto da força política de Trump nove dias depois da reeleição de Lula. Pesquisas recentes apontam vantagem dos democratas na disputa pela Câmara, com uma dianteira de 11 pontos percentuais em sondagem nacional, e chance real de mudança também no Senado, onde 22 cadeiras hoje republicanas e 13 democratas estão em jogo.

Se confirmada uma maioria democrata em uma ou nas duas Casas, Trump verá sua capacidade de aprovar leis, manter tarifas e sustentar sanções externas fortemente reduzida. O Legislativo americano tem a prerrogativa de regular o comércio exterior e poderá rever o “tarifaço” imposto a produtos brasileiros e apertar o controle sobre o uso de medidas emergenciais pelo Executivo.

O cenário é acompanhado de perto em Brasília. Além das tarifas sobre exportações do Brasil, o governo Trump adotou sanções contra autoridades brasileiras e criou um clima de confronto político, usado por Lula na campanha sob o discurso de defesa da soberania. A embaixadora Maria Luiza Ribeiro Viotti segue em Washington com o visto revogado, símbolo do desgaste: ela permanece credenciada, mas, se sair dos EUA, precisa de nova autorização para retornar.

Entenda o contexto

Donald Trump governa sob crescente insatisfação popular. Sua aprovação está em 31%, num ambiente de inflação persistente, custo de vida em alta, preços de combustíveis pressionados pela guerra no Irã e desconforto com a condução da economia. Pesquisas registram perda de apoio entre jovens e eleitores de origem hispânica, que foram decisivos em sua volta à Casa Branca.

Questões como o avanço da inteligência artificial e de grandes data centers, com impacto em empregos, energia e meio ambiente, somam-se ao debate sobre imigração e a denúncias de corrupção. Diante desse quadro, parte dos candidatos republicanos tenta se afastar publicamente do presidente, enquanto democratas avançam em estados historicamente conservadores.

Apesar do desgaste, Trump insiste em se colocar no centro da disputa, pedindo aos eleitores que “finjam” que seu nome está na cédula e voltando a ventilar a ideia de uma nova candidatura presidencial, barrada pela Constituição. “Eu adoraria concorrer novamente se tivesse a oportunidade, mas a redação é muito precisa”, admitiu o presidente, ao mesmo tempo em que reacende alegações falsas de fraude eleitoral em pleitos anteriores.

Impacto para Lula e para a relação Brasil-EUA

Uma vitória democrata robusta no Congresso pode abrir caminho para uma distensão na relação com o Brasil, que inicia um novo ciclo político com Lula. Tarifaço sobre produtos brasileiros, sanções contra autoridades e a classificação de facções nacionais como organizações terroristas estrangeiras, apoiada por aliados de Trump como Flávio Bolsonaro, são hoje pontos de atrito direto.

Comissões da Câmara e do Senado americanas, sob comando democrata, ganhariam poder para convocar audiências, exigir documentos e pressionar o governo a rever a política para a América Latina, incluindo o papel dos militares dos EUA na região e o uso do combate ao crime organizado como justificativa para ações mais amplas.

Para o Brasil, isso pode significar um ambiente mais favorável à negociação de tarifas, a revisão de sanções e a retomada de um diálogo institucional menos ideológico. Ao mesmo tempo, a rede de aliados de Trump na região, com figuras como Flávio Bolsonaro, tende a usar eventual recuo do republicano como munição política doméstica contra Lula.

O historiador Lucas de Souza Martins, da Universidade Temple, avalia que Lula deve tentar aproveitar uma possível divisão de poder em Washington. “Lula sempre foi muito pragmático nas suas relações com os EUA”, afirma. Segundo ele, mesmo após ter usado o discurso da soberania na campanha, o presidente brasileiro tende a apostar em canais diplomáticos tradicionais para reconstruir pontes.

Quem são os democratas que desafiam o domínio republicano?

Na disputa para o Senado, democratas jovens e com perfis diversos emergem como símbolo da tentativa de conter a influência de Trump e do trumpismo. Um dos nomes mais observados é o do texano James Talarico, 37 anos, que desafia o procurador-geral Ken Paxton em um dos estados mais conservadores do país.

Talarico, que tem 60% de chances de vitória segundo projeções da Decision Desk HQ, mira diretamente o histórico do adversário e o peso do dinheiro em campanha. “Eu tenho experiência legislativa, Ken Paxton tem antecedentes criminais. Esta eleição é sobre se vocês querem um senador que ponha dinheiro no bolso de vocês ou no próprio. É sobre se vocês querem um senador que defenda o Texas ou a si mesmo. É sobre se vocês querem um senador que sirva a vocês mesmo ou aos seus megadoadores bilionários”, afirmou, em referência também ao apoio financeiro de mais de 150 milhões de dólares de Elon Musk ao republicano.

No Michigan, o médico Abdul El-Sayed, de 42 anos, corre como representante da ala progressista do partido, defendendo expansão de serviços públicos e reformas profundas na área de saúde. Já na Geórgia, o senador Jon Ossoff, jovem quadro democrata, busca a reeleição em campanha que muitos veem como trampolim para uma eventual disputa presidencial em 2028.

Também desponta a figura de Haley Stevens, democrata moderada que tenta consolidar espaços em distritos suburbanos antes dominados por republicanos, apostando em pautas econômicas e de defesa da democracia institucional.

Essas candidaturas se tornam alvo frequente de ataques de Trump e de campanhas digitais marcadas por teorias conspiratórias e acusações de fraude, numa estratégia que busca deslegitimar eventual avanço democrata antes mesmo da contagem final dos votos.

Fraude eleitoral está no centro da retórica de Trump?

Sim. Mesmo sem provas, Donald Trump voltou a lançar suspeitas preventivas sobre a integridade do sistema eleitoral americano, repetindo alegações de fraude e estimulando desconfiança em torno da votação por correio e do uso de sistemas eletrônicos. Esse discurso vem acompanhado de ações judiciais e tentativas de contestação antecipada de resultados em estados-chave.

A retórica amplia o risco de judicialização prolongada e aumenta a tensão política num país que já registrou episódios de violência ligados à disputa eleitoral. Para observadores no Brasil, qualquer nova crise de legitimidade em Washington pode atrasar decisões importantes sobre tarifas, sanções e cooperação em temas como meio ambiente, energia e segurança regional.

Votos antecipados e clima de plebiscito

Mais de 49 milhões de votos antecipados já haviam sido registrados até o fim de outubro, sinalizando mobilização alta para padrões de eleições de meio de mandato. O comparecimento é visto por analistas como um indicativo de que o pleito assumiu contornos de plebiscito sobre Trump, sua condução da economia e sua política externa.

Nos bastidores, tanto a Casa Branca quanto o Itamaraty trabalham com cenários distintos para o dia seguinte à eleição. Se os republicanos conseguirem preservar o controle de pelo menos uma das Casas, Trump tende a interpretar o resultado como endosso de sua agenda, com manutenção do confronto tarifário e da retórica dura em relação ao governo Lula.

Se os democratas conquistarem o comando da Câmara e do Senado, a expectativa é de dois anos de forte bloqueio legislativo à Casa Branca, com foco em comissões de inquérito, revisões de tarifas e tentativas de limitar a margem de manobra do presidente em temas de segurança e intervenção externa. Nesse cenário, Brasil e EUA podem se ver empurrados, por necessidade, a uma relação mais pragmática e menos personalista, mediada por um Congresso americano mais hostil à agenda de Trump.