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Política

Tsunami de Lisboa em PE e imposto em SP que durou 130 anos

Estudo da Rede Sismográfica Brasileira mostra que o tsunami do terremoto de Lisboa chegou a Pernambuco. Em Sorocaba, um imposto sobre mulas financiou a reconstrução portuguesa por mais de um século.

Tsunami de Lisboa em PE e imposto em SP que durou 130 anos

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Descubra como eventos históricos impactaram Pernambuco e São Paulo de formas surpreendentes e duradouras.

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Ondas de até 1,9 metro que atingiram Tamararé, no litoral sul de Pernambuco, e um imposto cobrado sobre a passagem de mulas em Sorocaba, no interior paulista, ligam diretamente o Brasil ao terremoto que destruiu Lisboa há 271 anos e ao tsunami que atravessou o Atlântico.

Pesquisadores da Rede Sismográfica Brasileira confirmam que o tremor de grande magnitude que arrasou a capital portuguesa gerou um tsunami capaz de alcançar a costa brasileira, enquanto estudos históricos mostram que autoridades de Sorocaba criaram um tributo específico sobre muares para enviar recursos à reconstrução europeia — uma cobrança mantida por mais de 130 anos.

Qual foi o impacto do tsunami de Lisboa no Brasil há 271 anos?

O tsunami chegou ao Brasil com ondas estimadas em 1,9 metro em Tamararé, em Pernambuco, e inundação que avançou quase quatro quilômetros continente adentro, segundo o estudo da Rede Sismográfica Brasileira.

Os pesquisadores reuniram documentos históricos, simulações de propagação de ondas e análises de sedimentos para rastrear a passagem do tsunami no litoral sul pernambucano. Em áreas costeiras do estado foram identificadas camadas de areia marinha depositadas sobre o solo, compatíveis com uma inundação rápida e de alta energia.

Esses depósitos indicam que o mar avançou de forma incomum terra adentro, carregando sedimentos típicos do ambiente marinho para pontos afastados da linha de costa atual. O cenário é coerente com o impacto de um tsunami, e não apenas de marés altas ou ressacas comuns.

O trabalho da Rede Sismográfica também chama atenção para o comportamento diferente dessas ondas em relação às ondas do dia a dia. Em vez de quebrarem a cada poucos segundos, as ondas de um tsunami chegam em intervalos que podem durar vários minutos, com grande volume de água empurrando para o interior. Mesmo com alturas moderadas, o avanço prolongado do mar aumenta o potencial de destruição em áreas costeiras planas, como é o caso de trechos do litoral de Pernambuco.

No episódio de 271 anos atrás, não há registro de devastação comparável à de Lisboa em solo brasileiro, mas o rastro geológico em Tamararé mostra que a energia liberada no Atlântico foi suficiente para alterar a paisagem local e afetar comunidades que viviam na região costeira.

Entenda o contexto

O terremoto que deu origem ao tsunami teve magnitude estimada entre 8 e 9, um dos maiores já registrados historicamente. O abalo destruiu grande parte de Lisboa e gerou ondas que se espalharam pelo oceano, alcançando margens distantes, entre elas a costa brasileira.

O estudo reforça que eventos sísmicos de grande porte, mesmo ocorrendo em outras placas tectônicas, podem ter reflexos diretos no Brasil. Embora o país esteja fora das principais zonas de encontro de placas, o litoral permanece vulnerável a tsunamis originados em falhas geológicas distantes.

Como as mulas ajudaram na reconstrução de Lisboa após o terremoto de 1755?

As mulas ajudaram por meio de um imposto específico criado em Sorocaba, no interior de São Paulo, em 1756, que taxava a venda e a circulação de muares e destinava a arrecadação à reconstrução de Lisboa.

À época, Sorocaba era o maior mercado de mulas do país, com a famosa Feira de Muares atraindo cerca de 50 mil animais por evento em seu auge. Tropas vindas do Sul cruzavam a região antes de seguir para áreas mineradoras e para o interior, fazendo da cidade um ponto estratégico da economia colonial baseada no tropeirismo.

Atendendo a um pedido do rei de Portugal, a Câmara de Sorocaba instituiu o que ficou conhecido como “novo imposto”, cobrado sobre o gado e as bestas que passavam pelo registro da vila. A historiadora Nanci Paes resume essa relação ao dizer que, “por meio de um imposto. Para aferir a importância do tropeirismo, basta lembrar que se criou um imposto sobre a venda de muares para reconstruir Lisboa, destruída por um terremoto em 1755”.

A cobrança era feita na ponte sobre o Rio Sorocaba, em um ponto onde funcionava o prédio do fisco. Um portão na cabeceira controlava a passagem de cada animal, que era contado e taxado. As tropas conduzidas por tropeiros — em muitos relatos associados ao coronel Cristóvão Pereira de Abreu, pioneiro do tráfego de muares na região — alimentavam a arrecadação que atravessava o Atlântico em direção ao Tesouro português.

Com o passar das décadas, o tributo ultrapassou o objetivo inicial de emergência. Mesmo após a reconstrução de Lisboa, a independência do Brasil e o fim do Império, o “novo imposto” continuou sendo cobrado. Apenas no fim do século XIX, já sob a República, legisladores decidiram encerrá-lo. Um texto de época registra, com ironia, que “o chamado novo imposto permaneceu sempre novo até 1892, quando os legisladores republicanos finalmente o aboliram”.

O episódio evidencia como o peso fiscal da reconstrução europeia recaiu sobre uma cadeia produtiva essencial ao Brasil colonial: produtores, comerciantes e tropeiros que dependiam das mulas para transporte de mercadorias e ligação entre regiões mineradoras, áreas rurais e centros urbanos.

Entenda o contexto

O tropeirismo foi uma das principais engrenagens da economia colonial e imperial brasileiras, responsável por integrar regiões distantes por meio de tropas de animais de carga. Sorocaba, que mais tarde se industrializaria, consolidou-se como polo dessa atividade graças à localização estratégica e às grandes feiras anuais.

Hoje, a cidade preserva parte dessa memória com o Museu do Tropeirismo e a ponte histórica sobre o Rio Sorocaba, ponto onde o imposto foi cobrado por mais de um século. As novas pesquisas sobre o tsunami em Pernambuco e sobre o tributo em Sorocaba ajudam a recontar como um terremoto do outro lado do oceano deixou marcas duradouras na costa brasileira e na economia do interior de São Paulo.