George Valença cobra participação popular para IA ética em 2026
Em entrevista ao Provoca, da TV Cultura, o pesquisador George Valença defende que a inteligência artificial incorpore direitos humanos desde a criação e cobra ação conjunta de governo, indústria e sociedade.

Inteligência Artificial
Pesquisador destaca a importância do envolvimento coletivo para garantir ética na IA a partir de 2026.
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Ao discutir inteligência artificial no programa Provoca, da TV Cultura, o professor e pesquisador George Valença, da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), defende que direitos humanos e a perspectiva dos usuários sejam incorporados desde o início do desenvolvimento tecnológico, com participação ativa de governo, sociedade civil e indústria para garantir inovação responsável.
George Valença cobra participação das pessoas nas decisões sobre IA
Na entrevista conduzida por Marcelo Tas e exibida nesta semana, Valença questiona a ausência de quem será diretamente impactado pelas tecnologias nas etapas em que elas são pensadas e desenhadas. “Por que as pessoas não fazem parte do processo?”, provoca o pesquisador, ao descrever sua atuação focada em incluir direitos humanos e a visão dos usuários na criação de softwares.
Para ele, ouvir as pessoas antes de a tecnologia chegar ao cotidiano é condição básica para evitar que sistemas de inteligência artificial reforcem desigualdades, ampliem mecanismos de manipulação ou ignorem necessidades de grupos vulneráveis. A proposta é que o desenho dos produtos digitais considere desde cedo princípios como transparência, não discriminação e prestação de contas.
Riscos, concentração de poder e impactos ambientais
Ao avaliar os efeitos da inteligência artificial na sociedade, Valença reconhece que as ferramentas podem ampliar o acesso à informação e tornar processos mais eficientes em diferentes setores. Ao mesmo tempo, alerta para riscos concretos: geração de conteúdos imprecisos, possibilidade de manipulação de usuários e impactos ambientais relevantes associados ao treinamento e à operação de grandes modelos.
O pesquisador chama atenção para a forte concentração de recursos nas grandes empresas de tecnologia, que controlam dados, infraestrutura e investimentos. Esse cenário, afirma, limita pesquisas independentes nas universidades e dificulta o desenvolvimento autônomo de tecnologias avançadas, justamente por causa dos altos custos financeiros e ambientais envolvidos.
Segundo ele, sem políticas públicas e mecanismos de financiamento direcionados, a academia e iniciativas menores ficam em desvantagem na disputa por capacidade computacional, especialistas qualificados e acesso a bases de dados, o que reforça a hegemonia de poucos grupos privados no comando da transformação digital.
Entenda o contexto
A defesa de uma inteligência artificial mais ética e responsável implica mudanças na forma como softwares e sistemas são pensados, testados e colocados em uso. Na prática, significa incluir a perspectiva de usuários reais nas decisões de design, prever efeitos colaterais sociais e ambientais e criar mecanismos de supervisão contínua.
Esse debate dialoga com discussões globais sobre regulação da tecnologia, transparência algorítmica e responsabilidade de empresas que desenvolvem e ofertam soluções baseadas em IA. O objetivo é evitar danos como discriminação algorítmica, vigilância excessiva, disseminação de desinformação e exploração de dados pessoais sem consentimento claro.
Governo, sociedade civil e indústria no centro da regulação
Para enfrentar esses desafios, Valença insiste que não basta confiar apenas na autorregulação das empresas ou na boa vontade de pesquisadores individuais. Ele defende um esforço coordenado entre governo, sociedade civil organizada e indústria, com regras claras e espaços de decisão mais plurais.
Na avaliação do professor, o poder público tem papel duplo: atuar como regulador, definindo limites e responsabilidades, e como fomentador, financiando pesquisas independentes e incentivando projetos de IA alinhados a princípios éticos e de sustentabilidade ambiental. A sociedade civil, por sua vez, é chamada a acompanhar e pressionar por transparência e prestação de contas.
Em relação às empresas, Valença reforça que não se trata de paralisar a inovação ou demonizar o setor tecnológico, mas de orientá-lo. “Eu acho que essa indústria pode inovar com ética”, afirma. O recado mira especialmente as gigantes de tecnologia, que hoje concentram poder decisório e recursos, mas também pode inspirar startups e negócios emergentes a adotar práticas mais responsáveis desde a origem.
Indústria pode perder hegemonia, academia ganha espaço
Se a visão defendida por Valença avançar, a forma de produzir tecnologia tende a mudar. Normas mais rígidas e exigências de transparência podem reduzir a margem de manobra das grandes empresas, redistribuindo parte do poder hoje concentrado. Em paralelo, universidades e centros de pesquisa podem ganhar espaço como polos de desenvolvimento de soluções abertas, auditáveis e voltadas ao interesse público.
Esse movimento, no entanto, depende de investimentos que compensem os altos custos de infraestrutura e de esforços para tornar a própria IA mais eficiente do ponto de vista energético. A discussão ambiental aparece como um ponto central: treinar e operar modelos cada vez maiores consome muita energia e recursos naturais, o que contrasta com metas de sustentabilidade.
Para a sociedade em geral, uma inteligência artificial guiada por critérios éticos tende a resultar em tecnologias mais transparentes, inclusivas e responsáveis. O potencial de manipulação de comportamentos e de disseminação de informações imprecisas diminui, enquanto cresce a chance de que essas ferramentas sejam usadas para ampliar direitos, melhorar serviços públicos e apoiar decisões com base em dados confiáveis.
Provoca leva o debate de IA ao grande público
O Provoca, comandado por Marcelo Tas, vai ao ar às terças-feiras, às 22h30, na TV Cultura, e também está disponível no site oficial da emissora e no canal da TV Cultura no YouTube. Ao colocar pesquisadores como George Valença no centro da conversa, o programa ajuda a levar ao público um debate que costuma ficar restrito a ambientes técnicos: quem decide o futuro da inteligência artificial e sob quais regras.
A expectativa é que a entrevista estimule novas discussões em universidades, organizações da sociedade civil e instâncias de governo, com possíveis reflexos em propostas de legislação, normas setoriais e iniciativas de fomento a projetos de IA mais transparentes e sustentáveis.


