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Inteligência Artificial

Goncourt 2026: vencedor usa ChatGPT e gera debate literário

Philippe Jaenada, vencedor do Prêmio Goncourt de 2026, revelou ter usado o ChatGPT na escrita, em trechos irônicos e na pesquisa de seu romance, reacendendo o debate sobre IA na literatura.

Inteligência Artificial

Uso de IA na criação literária reacende discussões sobre ética e criatividade no meio literário.

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O escritor francês Philippe Jaenada, de 62 anos, vencedor do Prêmio Goncourt de 2026, revelou ter usado o ChatGPT em três momentos da criação de L’Inconnue du quai de Javel, romance de 530 páginas que acaba de lhe garantir a principal distinção literária da França. A confissão, feita em entrevista à rádio France Inter em meio à polêmica exclusão de outro candidato por suspeita de uso indevido de inteligência artificial, reacende o debate sobre o lugar da tecnologia na literatura.

Como Philippe Jaenada usou inteligência artificial em seu romance premiado?

Segundo o próprio Philippe Jaenada, o ChatGPT entrou no processo criativo em três frentes: apoio direto na escrita, inserção de um trecho irônico e pesquisas para o desenvolvimento da trama. Em um dos usos, ele pediu respostas sobre uma questão técnica, achou as saídas da IA absurdas e decidiu incorporar um trecho gerado pela ferramenta justamente para ironizar essas respostas dentro do livro.

Em outro momento, Jaenada recorreu ao sistema como um instrumento de apoio à redação, usando as sugestões da máquina como material a ser retrabalhado, e não como texto final pronto. Ele também utilizou a ferramenta para pesquisas sobre elementos históricos e contextuais ligados ao romance, que reconstitui o assassinato não solucionado da modelo Louise Cansot, conhecida como a mulher dos cem retratos na região de Montparnasse, em Paris.

O autor afirma enxergar a inteligência artificial como um recurso que precisa ser aprendido e dominado, e não ignorado. “Não acho que seja possível impedir o avanço da inteligência artificial. Não podemos fingir que ela não existe. É preciso usá-la, reconhecer sua existência e, acima de tudo, aprender a domá-la. Ela precisa ser útil”, disse Jaenada.

Quem é Philippe Jaenada, vencedor do Prêmio Goncourt 2026?

Philippe Jaenada é um escritor francês de 62 anos que já havia figurado quatro vezes entre os finalistas do Prêmio Goncourt antes de vencer a edição de 2026. Ele conquistou a distinção na primeira rodada de votação da Academia, com seis votos, contra três dados ao também escritor Sylvain Prudhomme.

Seu romance L’Inconnue du quai de Javel mergulha em um caso real: o assassinato de Louise Cansot, modelo e musa de artistas encontrada morta em Paris. A obra reconstitui a trajetória da vítima e discute como ela foi tratada pela polícia e pela imprensa. O Goncourt, apesar de conceder uma quantia simbólica de 10 euros (cerca de R$ 61), costuma impulsionar fortemente as vendas e consolidar a carreira do autor premiado no mercado editorial francês.

Entenda o contexto

A revelação de Jaenada ocorre poucos dias depois de a Academia Goncourt retirar da lista de indicados o livro C’était ça ou mourir, do canadense-haitiano Thélyson Orélien, justamente por suspeitas de uso massivo de inteligência artificial na escrita.

A desconfiança começou quando o jornalista Samuel Fitoussi submeteu trechos da obra à Pangram, ferramenta criada para detectar textos produzidos por IA, que apontou forte probabilidade de autoria artificial. A Academia encomendou análises a pesquisadores e jornalistas, que concluíram que o livro provavelmente havia sido escrito em grande parte com o apoio dessas tecnologias.

Para a instituição, dedicada à literatura produzida por seres humanos, a suspeita foi suficiente para justificar a exclusão, sob o argumento de preservação da integridade do prêmio. O romance de Orélien, que já tinha vendido mais de 35 mil exemplares na França e vencido um prêmio da rede de livrarias Fnac, acabou no centro da controvérsia.

O autor negou o uso de IA e classificou as acusações como caluniosas, embora tenha admitido ter cometido plágio em trabalhos anteriores. Na esteira da crise, a editora canadense Boréal encerrou o contrato com Orélien e suspendeu novas tiragens do livro após apontar ter encontrado outras evidências de intervenção de inteligência artificial no processo de escrita.

Debate sobre limites da IA na literatura

Os dois casos, de naturezas diferentes, colocam a Academia Goncourt e o mercado editorial diante de uma mesma questão: até onde a inteligência artificial pode ir na criação literária sem ferir a noção de autoria humana? No caso de Jaenada, o uso declarado da ferramenta como apoio e objeto de ironia convive com o reconhecimento de sua voz autoral. Já o episódio envolvendo Orélien gira em torno da suspeita de delegação substancial da escrita à máquina.

A distinção entre auxílio e substituição, porém, é difícil de estabelecer na prática. Ferramentas de IA podem servir tanto para tarefas periféricas — checagem de informações, esboço de ideias, pesquisa — quanto para geração de trechos inteiros de texto. Sem regras claras, prêmios literários, editoras e leitores passam a operar em um território cinzento, em que a transparência sobre o processo de criação ganha peso semelhante ao do resultado estético.

O posicionamento público de Jaenada, ao defender que é preciso “domar” a inteligência artificial, tende a alimentar uma divisão crescente entre autores que integram essas ferramentas ao cotidiano de escrita e aqueles que defendem uma separação rígida entre literatura e algoritmos. Ao mesmo tempo, pressiona instituições como a Academia Goncourt a definir critérios explícitos para participação de obras que usam IA, inclusive exigindo declarações de processo ou limites técnicos para o recurso.

Para o setor editorial, o impacto é duplo: de um lado, cresce a possibilidade de produção mais rápida e barata; de outro, surge o risco de desgaste de confiança em relação à autenticidade das obras. Em um cenário em que um vencedor do principal prêmio do país admite ter usado ChatGPT e um best-seller é retirado da disputa pela mesma razão, a discussão sobre ética na escrita com IA deixa de ser abstrata e passa a afetar diretamente contratos, prêmios e a relação com o público.