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Holanda hackeia iPhone de Kushner e revela fortuna bilionária

Serviço de inteligência da Holanda invadiu o iPhone de Jared Kushner, flagrou conta em Dubai com centenas de milhões de dólares via Azerbaijão e rastreou negociações secretas com líderes dos Emirados e da Arábia Saudita.

Holanda hackeia iPhone de Kushner e revela fortuna bilionária

Cibersegurança

Agência holandesa expôs movimentações financeiras sigilosas de Kushner envolvendo paraísos fiscais e líderes do Oriente Médio.

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O serviço de inteligência militar da Holanda hackeou o iPhone de Jared Kushner, genro e então conselheiro sênior de Donald Trump, e acompanhou em tempo real o acesso dele a uma conta bancária em Dubai que recebeu centenas de milhões de dólares via Azerbaijão, usados em parte para transferências a um senhor da guerra, um mercenário e um ex-assassino, segundo dossiê de inteligência ao qual a reportagem teve acesso.

Como a Holanda chegou ao celular de Kushner

A operação começa no fim de 2017, quando o Serviço de Inteligência e Segurança de Defesa holandês (MIVD) identifica que um agente do GRU, o serviço secreto militar russo, especializado em dados bancários roubados, está a caminho do Reino Unido para uma missão de espionagem. Com aval do governo britânico, o holandês aborda o espião já em solo inglês.

Diante da perspectiva de ser preso por espionagem e passar anos em uma prisão britânica, o russo é confrontado com uma escolha. “O russo escolheu mudar de empregador”, resume um relato interno do MIVD. Ele aceita cooperar com os holandeses contra o próprio GRU.

Como parte da colaboração, o agente entrega acesso a um dos ativos mais sensíveis do centro de ciberoperações do GRU em Rostov, no sul da Rússia: um servidor remoto usado para guardar dados de operações de hacking ao redor do mundo. Vasculhando o material, a equipe em Haia se depara com algo inesperado: uma coleção de capturas de tela do iPhone de Jared Kushner.

Intrigados, os técnicos do MIVD tentam reconstituir o método russo. O aparelho de Kushner era um iPhone X, então o modelo mais avançado da Apple, com sistema de reconhecimento facial e camada extra de segurança. Em vez de romper a “fechadura” do telefone, os russos haviam achado uma “janela”: uma vulnerabilidade que permitia espelhar a tela do usuário quando o aparelho estava em uso.

Seguindo a mesma trilha, os holandeses encontram, no início de 2018, uma brecha semelhante e passam a registrar tudo o que Kushner faz no telefone. “Quando Kushner usava o telefone, podíamos ver sua tela”, descreve um integrante do MIVD citado no dossiê. As imagens são copiadas e armazenadas em servidores do próprio serviço de inteligência, dando início a uma vigilância que se estende por cerca de quatro anos.

Conta em Dubai e dinheiro via Azerbaijão

É durante esse monitoramento que o MIVD descobre Kushner acessando, pelo celular, uma conta em um banco dos Emirados Árabes Unidos, em Dubai. Quando os holandeses passam a ter visibilidade sobre a movimentação, a conta já havia recebido centenas de milhões de dólares enviados por um banco no Azerbaijão, de acordo com o material de inteligência.

A avaliação inicial dos analistas é de que a origem do dinheiro está ligada ao governo azeri. As transferências são feitas em dólares, e a estrutura lembra operações de lavagem sofisticada: instituições financeiras do Azerbaijão aceitam moedas locais de clientes estrangeiros e remetem o equivalente em dólares a destinos escolhidos, cobrando uma taxa e embaralhando a trilha para auditores.

Num primeiro olhar, o que se vê é apenas um banco azeri enviando grandes somas para uma conta em Dubai. Mas, ao acompanhar o uso que Kushner faz da conta, os holandeses identificam o repasse de quantias expressivas para figuras descritas como um senhor da guerra, um mercenário e um ex-assassino, ligados a conflitos no Oriente Médio e na África. A suspeita dos investigadores é de financiamento de operações paramilitares e políticas fora de qualquer controle público.

Segundo o dossiê, Kushner não aparece formalmente como titular da conta monitorada, mas atua como signatário, com poder para movimentar os recursos. A estrutura é associada a uma entidade de fachada nos Emirados, apresentada como instituição de caridade, usada para encobrir despesas com ações de inteligência e operações militares clandestinas.

Entenda o contexto

A descoberta da conta em Dubai se encaixa em um tabuleiro geopolítico que começava a se redesenhar a partir do início do governo Trump. Kushner, então um dos auxiliares mais próximos do presidente, concentrava a interlocução com líderes do Golfo Pérsico e de Israel e buscava costurar um plano de paz envolvendo Israel e Palestina com forte componente econômico.

Ao mesmo tempo, os interesses de três figuras se alinhavam. “MBZ queria derrubar o acordo nuclear do Irã, MBS buscava ser príncipe herdeiro, Kushner queria um acordo palestino”, resume uma análise de inteligência que circula entre serviços ocidentais. MBZ é a sigla usada para o líder dos Emirados Árabes Unidos, Mohammed bin Zayed. MBS designa o príncipe saudita Mohammed bin Salman.

Enquanto a Casa Branca endurecia o discurso contra Teerã e aproximava ainda mais Washington de Riad e Abu Dhabi, Kushner enfrentava fragilidade financeira pessoal e familiar, com negócios imobiliários pressionados por dívidas bilionárias. Esse cenário tornava a oferta de parceiros árabes de alto poder aquisitivo ainda mais relevante.

Qual era o objetivo do fundo secreto de Kushner com MBZ e MBS?

De acordo com documentos de inteligência analisados pela reportagem, MBZ e MBS propuseram a Kushner a criação de um grande fundo financeiro paralelo para apoiar metas de política externa e interna da administração Trump. Os três enxergavam a oportunidade de trocar recursos por alinhamento estratégico em temas sensíveis para os seus governos.

No pacote de interesses, MBZ buscava o desmonte do acordo nuclear com o Irã, visto em Abu Dhabi como permissivo demais com Teerã. MBS queria consolidar-se como príncipe herdeiro e futuro rei da Arábia Saudita, com apoio explícito de Washington. Kushner buscava um plano que forçasse a liderança palestina a aceitar termos favoráveis a Israel e, ao mesmo tempo, fortalecesse politicamente Trump dentro dos Estados Unidos.

As conversas incluíram a possibilidade de direcionar parte dos recursos para causas internas caras ao então presidente republicano, como o financiamento do muro na fronteira com o México, uma das principais bandeiras usadas por Trump em sua campanha e em seu governo. A avaliação entre os envolvidos era de que a construção da barreira ajudaria a pavimentar a reeleição do presidente, beneficiando também os projetos estratégicos acordados com MBZ e MBS.

Segundo o dossiê, em discussões iniciais chegou-se a falar em mais de 10 bilhões de dólares para alimentar o fundo secreto, abastecido por Emirados e Arábia Saudita. O montante seria usado para ações discretas de influência em capitais estrangeiras, projetos de desenvolvimento econômico ligados ao plano para os territórios palestinos e iniciativas políticas domésticas de interesse de Trump.

Com o tempo, porém, o megafundo perde força. MBZ passa a concentrar energia na campanha para consolidar MBS como herdeiro saudita incontestável, prioridade que exigia empenho direto da Casa Branca. A engrenagem se reorganiza: em vez de um grande fundo único e publicamente invisível, os árabes passam a operar múltiplas estruturas financeiras, com pelo menos duas contas sob influência direta de Kushner, segundo o material de inteligência.

Impacto nas relações internacionais e na segurança digital

O caso, agora detalhado por fontes da área de defesa europeia, expõe um triplo eixo de consequências: na política externa dos Estados Unidos, nas alianças no Oriente Médio e na própria forma como democracias lidam com segurança digital de autoridades de alto escalão.

No plano diplomático, as informações reforçam suspeitas de uso de dinheiro estrangeiro para direcionar decisões de Washington sobre temas como o acordo nuclear com o Irã, o reposicionamento da política em relação a Israel e Palestina e o respaldo a MBS em meio a crises de imagem internacional. A revelação adiciona pressão sobre lideranças de Emirados Árabes e Arábia Saudita, que já vinham sendo questionadas por ONGs e parlamentares ocidentais sobre a opacidade de seus fundos soberanos e o patrocínio de operações militares em teatros de guerra na região.

No campo da segurança cibernética, o episódio é visto por especialistas como demonstração contundente da vulnerabilidade de dispositivos de ponta, mesmo quando usados por figuras com acesso a informações sensíveis. O fato de um serviço de inteligência aliado ter conseguido explorar uma falha em um smartphone de última geração e acompanhar, por anos, a rotina digital de um conselheiro presidencial americano evidencia o grau de sofisticação das operações — e também o risco de que capacidades semelhantes caiam nas mãos de adversários.

A captura do agente do GRU e a cooperação estreita com o governo britânico também reforçam, nos bastidores, a integração entre serviços europeus na vigilância de atividades russas. Ao mesmo tempo, o conteúdo obtido extrapola o foco original da missão, abrindo um flanco delicado nas relações com Washington ao envolver de forma direta um integrante do círculo íntimo de Trump.

Na frente financeira, a circulação de centenas de milhões de dólares por rotas pouco transparentes entre Azerbaijão, Emirados e destinatários ligados a conflitos acende alertas adicionais em organismos de combate à lavagem de dinheiro. Bancos e reguladores são pressionados a explicar como operações desse porte passam por sistemas de compliance sem bloqueios efetivos, especialmente quando tocam jurisdições consideradas aliadas do Ocidente.

Reações e próximos passos

Até o momento, não há registro público de reconhecimento oficial do hackeamento por parte de autoridades americanas. Nos círculos diplomáticos consultados pela reportagem, a expectativa é de que Kushner, Mohamed bin Zayed e Mohammed bin Salman adotem linha de defesa baseada em negação, relativização das cifras e alegações de que os recursos se destinavam a projetos legítimos de desenvolvimento e segurança.

Já na Europa, integrantes do aparato de defesa veem o caso como demonstração de efetividade das operações conjuntas contra o GRU e indicam que a cooperação entre MIVD e governo britânico será aprofundada. A investigação holandesa, que se estende por quatro anos, alimenta relatórios repassados a serviços parceiros e deve seguir produzindo desdobramentos em auditorias financeiras e em discussões sobre novas salvaguardas para comunicações de autoridades.

Nos Estados Unidos, o conteúdo revelado tende a pressionar por apurações adicionais sobre a origem e o destino dos recursos movimentados por Kushner, bem como sobre a eventual influência de fundos estrangeiros em decisões de política externa e em iniciativas políticas domésticas do governo Trump. Em paralelo, o episódio é usado por setores da própria burocracia americana como argumento para uma revisão ampla dos protocolos de segurança digital da alta cúpula em Washington.

Fonte: matéria original