IA revela 70% de chefes despreparados e desafia liderança humana
Adriano Lima afirma que a inteligência artificial amplia a gestão, mas não substitui líderes. Pesquisa mostra funcionários mais prontos que empresas para adoção em escala.

Inteligência Artificial
Pesquisa destaca a lacuna entre a preparação dos líderes e a prontidão dos funcionários para a adoção da IA.
Leia também: DeepSeek lança DeepInfer aberto para cortar custo de IA
A incorporação acelerada da inteligência artificial nas empresas está ampliando a capacidade de gestão, mas também escancarando a fragilidade de muitas chefias que confundem controle de processos com liderança de pessoas, avalia o coach executivo Adriano Lima, autor do livro “Liderança Nada Artificial”.
Enquanto algoritmos automatizam tarefas e encurtam o tempo de decisão em áreas como análise de dados, logística e atendimento, cresce o descompasso entre a confiança de funcionários na nova tecnologia e a preparação das organizações para usá-la em larga escala. Pesquisa da consultoria McKinsey mostra que 70% dos colaboradores afirmam estar pessoalmente prontos para usar IA, mas só 27% dos líderes consideram que suas empresas estão preparadas para adotar a tecnologia em escala.
Para Lima, esse vácuo expõe um ponto cego da liderança corporativa: a tendência de promover gestores pelo domínio de processos, metas e ferramentas, ignorando a capacidade real de inspirar, engajar e desenvolver gente. “A IA não vai substituir líderes. Vai revelá-los”, afirma. “Durante décadas, confundimos bons gestores com bons líderes. Promovemos profissionais porque dominavam processos, entregavam indicadores ou conheciam profundamente o negócio. Mas nada disso garante que saibam inspirar, desenvolver e mobilizar pessoas.”
Como a inteligência artificial está impactando o papel dos líderes nas empresas?
Na avaliação de Adriano Lima, a IA está redesenhando a fronteira entre gestão e liderança: ela assume uma fatia crescente da gestão de processos, mas deixa ainda mais evidente o espaço irremovível da liderança humana.
O especialista explica que todo gestor atua em duas frentes. De um lado, a gestão de processos, sistemas, recursos e fluxos de trabalho, que passa a ser fortemente automatizada por algoritmos, robôs e plataformas inteligentes. De outro, a liderança de pessoas, que envolve inspirar, engajar, reconhecer, cuidar da saúde das equipes e criar condições para resultados sustentáveis.
“A tecnologia está avançando rapidamente sobre a primeira dimensão. Mas a segunda continua exigindo algo que nenhum algoritmo entrega: legitimidade, confiança, coragem, exemplo e presença humana. Na era da IA, liderar nunca foi tão humano. E nenhum prompt vai salvar um líder ruim”, diz.
Na prática, a IA analisa cenários, antecipa tendências e sugere caminhos. A responsabilidade por escolher a rota, traduzir a estratégia para o time e sustentar a cultura segue com o líder. “Estratégia também é decidir o que não vamos fazer. Cultura não é o que está escrito na parede, mas aquilo que os líderes praticam, reconhecem e, principalmente, não toleram. A IA apresenta cenários. O líder dá a direção”, resume.
Esse cenário pressiona chefias a se reinventar. Líderes que se escoram apenas em produtividade e controle de indicadores passam a ser facilmente substituíveis, já que a máquina executa essa parte com mais velocidade. Ganha espaço quem consegue combinar o domínio da tecnologia com habilidades humanas raras, como escuta, clareza de propósito, coragem para decisões difíceis e cuidado real com pessoas.
Quais são os sinais de que uma liderança está ficando ultrapassada na era da inteligência artificial?
Segundo Adriano Lima, a IA funciona como um holofote sobre lideranças frágeis, e alguns comportamentos já indicam quem está ficando para trás.
O primeiro sinal é acreditar que entregar resultados operacionais basta para ser um bom líder. Um gestor pode dominar indicadores, processos, tecnologias e ferramentas de IA e, ainda assim, falhar em construir uma equipe engajada. “O problema começa quando o gestor dedica toda a sua energia aos processos e quase nenhuma às pessoas. A IA vai ampliar extraordinariamente nossa capacidade de gestão, mas não vai construir confiança nem inspirar alguém a dar o seu melhor”, afirma.
Outro alerta é confundir cargo com liderança. Quando a chefia se apoia apenas na autoridade formal para ser obedecida, sem construir influência e respeito, a tendência é perder adesão da equipe, mesmo com tecnologia de ponta à disposição. “Cargo se recebe. Legitimidade se conquista. E não existe inteligência artificial capaz de conquistar respeito no lugar de um gestor. As pessoas podem obedecer ao seu cargo, mas só vão segui-lo verdadeiramente quando reconhecerem sua liderança”, diz Lima.
Também é sintoma de liderança ultrapassada delegar à IA decisões que têm natureza estratégica ou cultural, como escolhas de prioridades, forma de tratar pessoas ou definição do que é aceitável no dia a dia da empresa. Para o especialista, confiar demais nos algoritmos nesse campo é abdicar de responsabilidades indelegáveis.
A priorização cega da produtividade em detrimento da saúde e da sustentabilidade das equipes é outro ponto crítico. A pressão por eficiência tende a aumentar com a IA, mas, se os ganhos vierem às custas de burnout, medo e desconfiança, o resultado é um time exausto e um negócio fragilizado no médio prazo.
Lima lembra ainda que muitos líderes negligenciam o próprio equilíbrio físico, mental, emocional, familiar e social, o que compromete sua capacidade de sustentar os outros. Ele afirma que não existe uma divisão rígida entre pessoa e profissional e resume: “Líder que não se sustenta desaba sobre os outros. Não adianta falar de segurança psicológica, confiança e desenvolvimento humano quando o próprio gestor está permanentemente esgotado, desequilibrado e incapaz de cuidar de si.”
Entenda o contexto
O contraste revelado pelos dados da McKinsey — 70% dos funcionários se sentem prontos para usar IA, contra apenas 27% de líderes que julgam suas organizações preparadas para adotá-la em escala — evidencia um ambiente de tensão silenciosa dentro das empresas.
De um lado, colaboradores dispostos a experimentar novas ferramentas, acelerar tarefas e buscar eficiência. De outro, estruturas de liderança e cultura que ainda operam em modelos antigos, com medo de perder controle ou relevância diante da automação.
Para especialistas em gestão de pessoas, quem conseguir atravessar esse momento com mais sucesso será justamente quem investir em uma liderança menos burocrática e mais humana: preparada para traduzir estratégia, sustentar a cultura, combinar tecnologia com cuidado genuíno com pessoas e entregar resultados de forma sustentável.
Já as organizações que enxergarem a IA apenas como solução técnica e ignorarem o fator humano tendem a enfrentar desengajamento, perda de talentos e queda de desempenho no longo prazo, mesmo com ganhos pontuais de produtividade.
Fonte: matéria original
