Indústria de IA despeja milhões em eleições nos EUA
Super PACs financiados por executivos e investidores de IA já influenciam ao menos 36 disputas para Câmara e Senado nos EUA, para eleger aliados e barrar defensores de regras mais rígidas.

Inteligência Artificial
Investimentos massivos de grupos ligados à IA moldam o cenário político americano em eleições decisivas.
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Executivos e investidores da indústria de inteligência artificial estão despejando dezenas de milhões de dólares nas eleições legislativas dos Estados Unidos para eleger candidatos alinhados a uma agenda pró-inovação e derrubar defensores de regras mais rígidas para a tecnologia. A ofensiva, puxada pelo super PAC Leading the Future, já interfere em pelo menos 36 disputas para a Câmara e o Senado, com foco em estados como Nova York, Geórgia e Texas.
Rede bilionária mira Congresso que vai regular IA
O caso que simboliza a nova fase dessa disputa é o do deputado estadual Alex Bores, em Nova York. Conhecido por ter ajudado a aprovar “uma das primeiras leis estaduais de segurança para inteligência artificial dos Estados Unidos”, Bores tentou uma vaga no Congresso e virou primeiro grande alvo de comitês ligados ao setor. O Think Big, um desses grupos, gastou mais de US$ 8 milhões em anúncios e ações de campanha para impedir sua vitória nas primárias democratas. Ele acabou derrotado.
Desde então, o dinheiro da indústria de IA se espalhou por ao menos 36 corridas eleitorais para o Legislativo federal. Os recursos financiam anúncios de TV, disparos de mensagens por celular e material enviado diretamente aos eleitores, numa estratégia concentrada em disputas acirradas em Nova York, Geórgia e Texas — estados decisivos para a correlação de forças no próximo Congresso.
No centro da engrenagem está o Leading the Future, super PAC criado para apoiar uma agenda favorável ao desenvolvimento da inteligência artificial. Entre agosto de 2025 e outubro de 2026, o comitê arrecadou US$ 75,98 milhões, segundo registros entregues à Comissão Eleitoral Federal. Esse caixa robusto serve como fonte de recursos para uma rede de outros grupos políticos que atuam em campanhas de ambos os partidos.
Quem banca a ofensiva pró-IA
A lista de grandes doadores do Leading the Future reúne alguns dos nomes mais influentes do Vale do Silício e da nova economia de IA. Marc Andreessen e Ben Horowitz, fundadores da gestora de venture capital Andreessen Horowitz, colocaram US$ 25 milhões cada um. Greg Brockman, presidente e cofundador da OpenAI, e sua mulher, Anna Brockman, doaram US$ 12,5 milhões cada. A Perplexity, desenvolvedora de ferramentas de busca baseadas em IA, contribuiu com US$ 100 mil.
Ao todo, o super PAC já desembolsou US$ 52,16 milhões até outubro deste ano. A maior parte desse valor — quase US$ 47 milhões — foi repassada a outras organizações políticas encarregadas de fazer a comunicação direta com o eleitorado. Entre elas estão o Think Big, que atuou contra Bores em Nova York, e o American Mission, voltado principalmente a candidatos republicanos.
Na prática, o Leading the Future funciona como um “caixa central” de uma rede que opera tanto com democratas quanto com republicanos, desde que os candidatos defendam prioridades favoráveis ao setor. Em nota pública, o grupo afirma procurar políticos dispostos a apoiar “uma política nacional favorável à inovação”.
Entenda o contexto
A disputa gira em torno de quem vai ditar as regras da inteligência artificial nos EUA. De um lado, a rede financiada por investidores e executivos de grandes empresas de IA quer evitar que cada estado crie suas próprias normas para a tecnologia — o que obrigaria companhias a cumprirem legislações diferentes em todo o país — e pressiona por uma regulação mais leve em nível federal, que facilite a abertura de novos centros de dados e incentive a competitividade internacional, especialmente frente à China.
De outro, há grupos que defendem maior transparência, testes de segurança rigorosos e fiscalização dos sistemas mais avançados. Para esses atores, permitir que a indústria dite o ritmo da regulação pode deixar a sociedade mais exposta a falhas, abusos e impactos sociais ainda pouco compreendidos da IA, como viés algorítmico, desinformação em larga escala e riscos a empregos.
Indústria também financia agenda pró-regulação
A ofensiva eleitoral da tecnologia não é, porém, de mão única. Em paralelo à rede liderada pelo Leading the Future, surgiu a Public First Action, organização que defende regras mais duras para sistemas de IA. O grupo afirma ter levantado US$ 80 milhões, metade desse valor — US$ 40 milhões — doados pela Anthropic, responsável pelo modelo de IA Claude.
Segundo a empresa, o dinheiro foi destinado exclusivamente a campanhas de educação pública e defesa de políticas, com a condição expressa de que não seja usado para eleger ou derrotar candidatos específicos. Mesmo assim, a Public First Action mantém vínculos com super PACs que apoiam políticos favoráveis a salvaguardas para IA, como exigência de testes independentes, auditorias de segurança e mecanismos de contenção para sistemas considerados perigosos.
O resultado é um embate aberto entre duas visões de futuro para a tecnologia: de um lado, a ênfase em inovação rápida, expansão de infraestrutura e uniformidade regulatória; de outro, a prioridade em transparência, controle de riscos e ferramentas robustas de fiscalização.
Regulação da IA vira eixo da eleição de 2026
Na prática, os milhões despejados nas campanhas já começam a redesenhar o mapa político da regulação da IA nos EUA. A derrota de Alex Bores, um dos primeiros parlamentares estaduais a aprovar regras específicas de segurança para a tecnologia, é vista como exemplo de como o financiamento direcionado pode barrar candidaturas associadas a maior controle.
Ao concentrar investimentos em distritos competitivos de estados como Nova York, Geórgia e Texas, a indústria tenta montar um Congresso mais receptivo a um modelo de regulação nacional que privilegie o crescimento rápido do setor. Startups, grandes empresas de tecnologia e operadores de centros de dados tendem a ganhar com um ambiente mais permissivo e previsível, sem mosaico de regras estaduais.
Na outra ponta, perdem força grupos e candidatos que defendem travas mais firmes para mitigar riscos sociais e ambientais da IA, como impactos sobre empregos, privacidade, consumo de energia e água e desinformação. A correlação de forças que sair das urnas nas eleições de 2026 deve definir o quanto o país vai se aproximar de cada uma dessas visões — e, por consequência, qual será o equilíbrio entre inovação acelerada e proteção à sociedade nos próximos anos.
O último balanço entregue pelo Leading the Future à Comissão Eleitoral Federal mostra ainda US$ 23,82 milhões em caixa, sinal de que a ofensiva da indústria de IA nas urnas está longe de terminar.


