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Inteligência Artificial

IPO da Anthropic mira US$ 2 tri com prejuízo de US$ 80 bi

Anthropic prepara abertura de capital com avaliação entre US$ 1 trilhão e US$ 2 trilhões, mesmo após prejuízo superior a US$ 80 bilhões no semestre e aposta no Claude como hub de produtividade.

Inteligência Artificial

Anthropic planeja IPO bilionário apesar de perdas significativas, focando no Claude para impulsionar produtividade.

Leia também: Banux foca adaptação tecnológica para captar recursos em 2027

A Anthropic, dona do modelo de inteligência artificial Claude, colocou oficialmente sua abertura de capital na rua nesta semana e já mira uma avaliação entre US$ 1 trilhão e US$ 2 trilhões em Wall Street, mesmo depois de registrar um prejuízo líquido superior a US$ 80 bilhões no primeiro semestre, para uma receita de US$ 16 bilhões. A aposta do mercado é que a empresa consiga transformar o Claude em um hub de produtividade integrado a softwares corporativos e, no caminho, se consolidar como um dos principais nomes da corrida da IA.

IPO gigante apesar do prejuízo bilionário

Os documentos do IPO divulgados pela Anthropic detalham um cenário típico das grandes histórias de tecnologia: crescimento explosivo, caixa consumido em investimentos pesados e lucro ainda distante. Em seis meses, a companhia faturou cerca de US$ 16 bilhões (algo próximo de R$ 16 bilhões na cotação atual), mas queimou mais de US$ 80 bilhões, o equivalente a cerca de R$ 430 bilhões, principalmente com infraestrutura e treinamento de modelos avançados.

Mesmo assim, as projeções de bancos e investidores colocam a empresa em uma faixa de avaliação inédita para um negócio ainda deficitário. As estimativas publicadas convergem em torno de US$ 1,5 trilhão, no meio do intervalo entre US$ 1 trilhão e US$ 2 trilhões, o que colocaria a estreia entre as maiores ofertas públicas já vistas no mercado americano.

A leitura em Wall Street é que, em um setor dominado por poucos players de grande escala, quem conseguir se firmar cedo como plataforma central de IA pode capturar uma fatia duradoura de receitas recorrentes. Ainda assim, o alerta é claro: em algum momento, a empresa terá que dar lucro.

Claude como hub de produtividade

O que sustenta o entusiasmo mesmo diante de números tão vermelhos é o modelo de negócios que a Anthropic tenta construir em torno do Claude. Em vez de oferecer apenas um “cérebro” de IA para uso pontual, a companhia vem investindo em protocolos e integrações profundas com softwares já usados por empresas e usuários no dia a dia, transformando o Claude em uma espécie de camada de produtividade que se encaixa em cima de outras ferramentas.

Na prática, a aposta é tornar a IA da Anthropic algo tão onipresente que muitos clientes nem considerem trocar de plataforma. Um analista que acompanha o setor compara o movimento ao mercado de streaming de áudio: “É algo semelhante ao que acontece com o Spotify, onde muita gente nunca experimentou outra plataforma para descobrir se ela é melhor ou pior”.

Esse efeito de acostumar usuários e empresas a um ecossistema específico é visto como uma das maiores defesas competitivas da Anthropic. Nas projeções mais otimistas, “essa estratégia pode dar à companhia um potencial de crescimento futuro até maior do que o da própria OpenAI”, afirma outro especialista ouvido pelo mercado.

Entenda o contexto

A Anthropic foi fundada por Dario Amodei, um dos principais nomes da atual geração de pesquisadores de IA, depois de sua saída da OpenAI em meio a divergências internas com Sam Altman e parte da equipe original. A dissidência ganhou contornos simbólicos: enquanto a OpenAI se tornou o rosto mais visível da onda de assistentes generativos, a Anthropic passou a ser vista como uma alternativa técnica robusta e com uma visão distinta de governança e produto.

Essa história recente ajuda a explicar por que a liderança de Amodei pesa tanto na precificação do IPO. Para muitos investidores, o fato de um ex-dirigente da OpenAI comandar um dos principais rivais reforça a narrativa de que há espaço para mais de um grande vencedor na corrida da IA — e que a Anthropic pode, em alguns segmentos, ultrapassar a concorrente.

Ao mesmo tempo, os documentos do IPO deixam claro o custo de se manter na linha de frente tecnológica. O treinamento de modelos cada vez mais poderosos é descrito como um fator de despesa em forte aceleração, associado tanto ao uso intensivo de chips de ponta quanto à necessidade de infraestrutura global. É esse gasto que explica boa parte do prejuízo bilionário acumulado em tão pouco tempo.

Pressão por lucro e efeito no setor de tecnologia

No curto prazo, o IPO da Anthropic tende a ser um teste de apetite do mercado por empresas de IA que crescem rápido, mas ainda não geram caixa. A comparação recente mais citada é a da SpaceX: após a estreia em bolsa, as ações chegaram a cair com força antes de se recuperarem, e hoje estão cerca de 10% acima do valor de abertura. O paralelo serve como lembrete de que a trajetória pós-listagem pode ser turbulenta, mesmo para negócios considerados revolucionários.

Para investidores mais conservadores, o prejuízo superior a US$ 80 bilhões pesa e aumenta a exigência por um caminho mais claro até a lucratividade. O temor é que, se a Anthropic não conseguir mostrar uma curva de resultados positivos em horizonte razoável, parte da avaliação embutida no IPO possa ser revista, trazendo riscos de desvalorização logo após a estreia.

Do lado competitivo, a oferta é acompanhada de perto por outras gigantes de tecnologia e por rivais diretos na área de IA. Se o IPO confirmar a faixa de US$ 1 trilhão a US$ 2 trilhões, o recado para o mercado será de que há disposição para pagar caro por participação em empresas que lideram a infraestrutura da nova geração de software. Isso tende a intensificar a corrida por integrações, fusões e parcerias estratégicas em torno de modelos de IA generativa.

Para o público corporativo, a abertura de capital também funciona como termômetro: indica até que ponto os investidores acreditam que a IA pode se tornar o motor central de produtividade em setores como serviços financeiros, indústria e tecnologia da informação. Ao mesmo tempo, reforça que, assim como aconteceu com Google e Amazon em seus primeiros anos, a transformação de crescimento acelerado em lucro concreto continua sendo o grande ponto de interrogação da era da inteligência artificial.