Lula aceita todas as condições de Flávio para quebra de sigilos
Campanha de Lula diz que presidente aceitou integralmente as exigências de Flávio Bolsonaro para abrir sigilos dele e da família, desde que senador faça o mesmo até quinta (22), antes do segundo turno.

Política
Presidente concorda com todas as exigências para abertura dos sigilos, condicionando a reciprocidade do senador até o prazo estabelecido.
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Lula aceitou todas as condições impostas por Flávio Bolsonaro para a quebra dos sigilos bancário, fiscal e telefônico dele, de familiares e de assessores, e deu prazo até esta quinta-feira (22), às 11h, para que o senador também libere seus dados e os de seus parentes e empresas junto ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), em Brasília.
Lula aceita condições e impõe reciprocidade
Segundo o coordenador político da campanha petista, senador Camilo Santana, a resposta formal de Lula às exigências de Flávio será protocolada no TSE nesta quinta, no mesmo horário em que o PT cobra que o adversário cumpra o acordo, a três dias do segundo turno marcado para domingo (25).
Camilo afirma que o presidente topou integralmente o pacote apresentado por Flávio, que inclui a ampliação do escopo dos dados a serem divulgados, desde assessores próximos até registros de visitas ao Planalto, gastos do cartão corporativo da Presidência e agendas da primeira-dama, Rosângela Lula da Silva, a Janja.
“Todas as condicionantes a única resposta é que o presidente não se opõe em absolutamente nada que ele colocou, contanto que ele [Flávio Bolsonaro] faça”, disse Camilo Santana. Mais cedo, ele reforçou: “Se não tem nada a dever, que ele cumpra o que o presidente propôs. Presidente não tem nada a se opor ao que ele colocou condicionantes. Amanhã às 11h estaremos no TSE para protocolar a resposta do presidente e é o prazo para ele estar lá também”.
Pela proposta já levada por Lula ao TSE, ficam autorizadas a liberação e a ampla divulgação, em sistema de acesso público, dos sigilos bancário, fiscal e eletrônico relativos aos últimos oito anos do presidente e de seus familiares diretos.
Quem entra no pacote de cada lado
Do lado de Lula, o pedido protocolado inclui, além do próprio presidente, Janja e os filhos Lurian Cordeiro Lula da Silva, Marcos Cláudio Lula da Silva, Fábio Luís Lula da Silva (Lulinha), Sandro Luís Lula da Silva e Luís Claudio Lula da Silva.
Em contrapartida, a campanha condiciona a efetivação da abertura desses dados à autorização equivalente, por parte de Flávio Bolsonaro, para a divulgação dos sigilos dele e de seus parentes mais próximos: o pai, Jair Bolsonaro; a mãe, Rogéria Bolsonaro; os irmãos Carlos, Eduardo e Jair Renan Bolsonaro; e a esposa, Fernanda Bolsonaro.
O pedido de Lula também alcança empresas ligadas ao senador, entre elas a Flávio Bolsonaro Sociedade Individual de Advocacia e a All In One Corretora de Seguros Ltda, além de outras sociedades citadas na petição. A campanha petista cobra que todas estas também tenham dados bancários e fiscais tornados públicos.
Flávio, por sua vez, respondeu ao desafio lançado no debate de domingo ampliando o raio de alcance sobre o entorno de Lula. Exigiu termos de autorização de quebra de sigilo de assessores como Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, ex-chefe de gabinete, a abertura de contas e sigilos de empresas ligadas a familiares do presidente – incluindo sociedades de Lulinha, negócios recentes no exterior, empresas de outros filhos – e de entidades como o Instituto Lula e a empresa L.I.L.S.
O senador também condicionou o acordo à divulgação integral dos registros de visitantes no Palácio do Planalto e detalhes da reunião de Lula com o banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, além de informações sobre relações do governo com a lobista Roberta Luchsinger e registros de suas entradas em palácios presidenciais e voos em aeronaves da Força Aérea Brasileira.
Outra exigência é a abertura de todos os gastos do cartão corporativo da Presidência da República desde janeiro de 2023, bem como a divulgação de agendas institucionais de Janja desde o início do mandato.
Entenda o contexto
O chamado “desafio dos sigilos” começou no debate de domingo (18), quando Lula propôs a Flávio a abertura dos dados bancários e telefônicos de ambos, de suas esposas e filhos, para, nas palavras do presidente, mostrar “quem é honesto e quem é ladrão” na disputa presidencial.
No dia seguinte, Lula foi ao TSE e apresentou um requerimento autorizando a divulgação dos próprios dados e dos de seus parentes diretos, relativos aos últimos oito anos. Flávio respondeu com um conjunto de condições mais amplo, tentando incluir assessores, terceiros e empresas ligadas ao petista.
Ao aceitar todas as exigências, mas condicioná-las à reciprocidade, a campanha de Lula tenta transformar o movimento, visto internamente como risco calculado, em instrumento de pressão sobre o adversário, agora com data e hora marcadas no tribunal.
Pressão eleitoral e impacto político
Na prática, a estratégia cria um jogo de tudo ou nada na reta final do segundo turno. Se o acordo for cumprido pelas duas partes, o eleitor poderá ter acesso a um volume inédito de informações financeiras, fiscais e eletrônicas sobre os dois candidatos, seus núcleos familiares e redes de apoio.
Camilo Santana classifica as exigências de Flávio como “manobra”, mas diz que a aceitação integral por Lula expõe o senador caso ele recue. “Se ele não deve nada, ele deveria ter aceito o desafio do presidente Lula naquele domingo”, afirmou o coordenador.
Em ato de campanha em Belo Horizonte, Lula adotou tom de desafio e recorreu a uma metáfora do truco para descrever a troca de petições no TSE. “Essa semana eu pedi para o Flávio abrir sigilo. Hoje ele inventou um monte de mentiras e trucou 6. Eu vou meter um 9 na cara dele amanhã. Vou meter um 9. Ele não tem nenhuma carta boa, só tem mentira. As cartas dele são todas falsas. Eu tô com zap, sete copas, espada e ouro. E ainda tenho três de reserva. Ele vai saber o que é um campeão de truco que aprendeu a jogar como mineiro”, discursou.
O entorno de Flávio avalia que a ampliação da lista de nomes e empresas a terem sigilos quebrados redistribui o desgaste e pode atingir quadros do governo e do PT. Já aliados de Lula apostam que, se o senador não aparecer no TSE até as 11h de quinta com as autorizações, o episódio será explorado como sinal de falta de transparência do adversário.
O embate ocorre enquanto Flávio é alvo de dois inquéritos que tramitam no Supremo Tribunal Federal, um sobre lavagem de dinheiro em negócios ligados ao advogado Willer Tomaz e outro sobre o financiamento do filme “Dark Horse”, cinebiografia de Jair Bolsonaro, envolvendo recursos do Banco Master.
Paralelamente ao duelo dos sigilos, a campanha de Lula mantém ofensiva na Justiça Eleitoral contra a Meta, dona do Facebook, Instagram e WhatsApp. A área jurídica do PT informou que apresenta ainda nesta quarta representações no TSE contra a empresa, sob alegação de que suas políticas afetam o ambiente informacional da disputa. “A Meta é motivo de grande preocupação pra gente e para o mundo democrático. Não vamos aceitar esse tipo de interferência, esse tipo de coisa”, disse Sidônio Palmeira, ministro da Secretaria de Comunicação.
Com o relógio eleitoral correndo, a quinta-feira no TSE tende a concentrar atenções: de um lado, o protocolo da resposta formal de Lula às condições de Flávio; de outro, a expectativa sobre se o senador repetirá o gesto e abrirá seus sigilos e os de sua rede familiar e empresarial antes que o eleitor vá às urnas.
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