Mercados na América Latina perdem força após alta pós-eleições
Após rali impulsionado por virada política à direita, crises fiscais e queda de popularidade de líderes na América Latina fazem gestores reduzir exposição e adotar cautela.

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Crises fiscais e instabilidade política levam investidores a adotar cautela na América Latina após alta pós-eleições.
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O rali que empurrou ações, moedas e títulos da América Latina para fortes altas após a eleição de líderes de direita na região começa a perder força, à medida que crises fiscais se aprofundam, a popularidade dos presidentes cai e cresce a dificuldade de aprovar reformas econômicas.
Rali pós-eleições dá lugar à cautela
Nas últimas semanas, a onda de otimismo que tomou conta dos mercados após as vitórias de Abelardo de la Espriella na Colômbia, José Antonio Kast no Chile e o favoritismo de Flávio Bolsonaro no Brasil vem dando sinais de exaustão. Na Colômbia, a moeda chegou a disparar e os rendimentos dos títulos públicos recuaram, enquanto as ações subiram mais de 20% em relação às mínimas. Pouco mais de dois meses depois da posse, porém, os ganhos se dissipam diante do que o próprio governo classifica como a pior crise fiscal desde o século XIX.
No Chile, o movimento é parecido: o índice acionário que rompeu recordes históricos após a chegada de Kast ao poder perdeu fôlego, em meio a dificuldades para avançar com a agenda pró-mercado. O quadro reforça a leitura de que a guinada política à direita, ainda que favorável a negócios, esbarra em restrições orçamentárias e resistência social.
Em paralelo, a percepção de melhora generalizada na região levou um índice MSCI de ações latino-americanas a acumular valorização de mais de 70% desde o início do ano passado. Esse impulso, alavancado por apostas em reformas liberais e correção de distorções fiscais, agora é reavaliado por gestores diante da deterioração de alguns fundamentos.
Gestores reduzem risco e revertem apostas
Parte relevante do capital internacional que correu para a América Latina começa a ser retirada ou reposicionada. Martin Bercetche, gestor de carteiras da Frontier Road, conta que diminuiu de forma drástica a exposição à região depois de mais de 18 meses de otimismo com a virada política. “Essa tese se confirmou em grande parte”, afirma. “Continuamos gostando do Equador, pois acreditamos que há valor nos spreads por lá”, completa, destacando que, fora esse caso, a gestora está “muito leve” em ativos latino-americanos.
O movimento de maior cautela não é isolado. Fundos globais que vinham ampliando posições em dívida soberana e ações locais agora fazem contas diante do avanço dos riscos fiscais. Em alguns casos, a estratégia deixa de ser “carregar o beta da região” e passa a ser escolher poucos nomes e países com histórias muito específicas de recuperação.
Eric Fine, gestor da VanEck, ainda mantém uma posição classificada como de “sobreponderação máxima” em títulos da dívida brasileira em moeda local, apostando em ganhos adicionais se houver ajuste fiscal. Ele reconhece, contudo, que os desequilíbrios nas contas públicas podem limitar o potencial de alta e tornar mais volátil o desempenho dos ativos.
Quais são os riscos para investidores na América Latina?
Os riscos principais hoje são o quadro fiscal frágil, a queda de popularidade dos presidentes e a dificuldade de aprovar reformas, fatores que já se traduzem em correções de preços em títulos e ações. “Existem riscos reais de que essa euforia inicial dê lugar à desilusão”, alerta Matthew Graves, gestor de portfólio da PPM America. Para ele, as eleições recentes foram mais um voto contra o status quo do que um endosso claro a políticas de austeridade.
Essa leitura ajuda a explicar por que o ambiente político segue volátil mesmo após a alternância de poder. Sem um mandato explícito para cortes de gastos ou reformas duras, governos enfrentam resistência de parte do eleitorado e do Congresso quando tentam mexer em subsídios, aposentadorias ou impostos. Em países com histórico de crises de dívida, como a Colômbia, qualquer frustração em relação a metas fiscais rapidamente se reflete nas curvas de juros e no câmbio.
O risco político também se manifesta na forma de choques de confiança. No Peru, por exemplo, a presidente Keiko Fujimori perdeu apoio popular poucos meses depois de assumir o cargo, em meio a preocupações com violência e desaceleração econômica. Na Argentina, a queda da aprovação do presidente Javier Milei já pressiona os rendimentos dos títulos soberanos, que voltam a patamares de dois dígitos em meio ao temor de que o aperto fiscal afete ainda mais o crescimento e o emprego.
Entenda o contexto
O grande fluxo de capital para a América Latina começou quando investidores passaram a ver a região como um dos poucos pontos de alívio em meio à desaceleração da China e à volatilidade em outros emergentes. Juros ainda elevados em alguns países, moedas depreciadas e a possibilidade de uma guinada pró-mercado tornaram ações e títulos relativamente baratos e atraentes.
Ao longo desse ciclo, a especulação com uma “onda conservadora” semelhante à que levou Javier Milei ao poder na Argentina reforçou a narrativa de que governos mais ortodoxos adotariam rapidamente agendas de ajuste fiscal, privatizações e corte de subsídios. O avanço de nomes como Espriella, Kast, Noboa e Flávio Bolsonaro parecia encaixar-se nesse enredo, o que ajudou a impulsionar preços antes mesmo da implementação de medidas concretas.
Na prática, porém, a governabilidade mostrou-se mais complexa. Sociedades marcadas por alta desigualdade, serviços públicos precários e insegurança cobram respostas rápidas, o que limita o espaço político para cortes de gastos e reformas impopulares. Sem entregas claras, a confiança do mercado murcha na mesma velocidade com que foi inflada.
Equador e Peru: pressão em títulos em dólar
O Equador ilustra bem essa rápida inversão de humor. O presidente Daniel Noboa chegou ao poder com um discurso duro contra o crime organizado, o que elevou sua popularidade e abriu margem para ajustes fiscais. Em pouco tempo, no entanto, seu índice de aprovação desabou. Diante de um choque energético ligado à guerra com o Irã, o governo decidiu reintroduzir subsídios aos combustíveis, medida que alivia o bolso do eleitor no curto prazo, mas volta a pressionar as contas públicas.
O resultado aparece nos preços: os títulos em dólar do Equador, que vinham entre os destaques positivos nos mercados emergentes, caíram mais de 3% nos últimos três meses, movimento semelhante ao observado nos papéis do Peru, também comandado por um presidente favorável ao mercado. A correção indica que investidores passaram a exigir prêmio maior para financiar esses governos em meio a dúvidas sobre a consistência das políticas econômicas.
Mesmo assim, alguns gestores enxergam oportunidades pontuais. É o caso do próprio Martin Bercetche, da Frontier Road, que segue posicionado no Equador. Para ele, apesar da piora recente, o nível atual de spreads embute um pessimismo exagerado em relação à capacidade do país de honrar seus compromissos.
Colômbia tenta reação com promessa de ajuste
Na Colômbia, onde as ações avançaram mais de 20% após a eleição de Abelardo de la Espriella, o foco se desloca agora para a urgência de um plano crível de ajuste. Membros do governo têm classificado o rombo nas contas públicas como o mais grave em muitas décadas e passaram a se empenhar na construção de apoio a um programa de consolidação fiscal.
Em reunião recente com investidores em Nova York, autoridades colombianas demonstraram confiança em aprovar uma proposta que prevê reduzir o déficit em mais de quatro pontos percentuais até 2030. Se bem-sucedida, a iniciativa pode ajudar a estabilizar a curva de juros e a devolver alguma tração à bolsa local, hoje sob pressão de revisões negativas de crescimento e risco de rebaixamento de rating.
O desafio, porém, é político: medidas para cortar despesas ou elevar receitas tendem a enfrentar resistência no Congresso e nas ruas, especialmente em um ambiente de desaceleração econômica. Qualquer sinal de enfraquecimento do apoio ao presidente, que ainda tenta consolidar sua base, tende a ser rapidamente precificado.
Brasil ainda pode entregar retorno alto?
Os ativos brasileiros seguem no centro do radar dos investidores globais, em especial diante da possibilidade de mudança de governo. Desde meados de agosto, a aposta de que Flávio Bolsonaro pode derrotar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva nas eleições deste mês impulsionou o mercado acionário local em mais de 20%.
O rali reflete a expectativa de uma guinada em direção a maior austeridade orçamentária e diálogo mais estreito com o Congresso para travar gastos. Polina Kurdyavko, chefe de mercados emergentes da RBC BlueBay Asset Management, avalia que um governo comprometido em aprovar um orçamento mais enxuto poderia destravar ganhos expressivos. “Se o próximo líder do país se concentrar mais em trabalhar com o Congresso e aprovar um orçamento governamental muito mais enxuto, então todos os ativos de risco no Brasil podem gerar retornos de dois dígitos a partir de agora, como ponto de partida, nos próximos 12 meses”, afirma.
O cenário, porém, está longe de garantido. A mesma Polina faz um alerta: “Se houver mais foco em outras prioridades políticas, então acreditamos que esse protesto poderá ter uma duração relativamente curta”. Em outras palavras, se a eleição for interpretada mais como um voto de protesto contra o governo atual do que como um mandato para ajuste fiscal, o entusiasmo pode esvaziar rapidamente.
Um eventual governo Flávio Bolsonaro teria, em tese, ambiente mais favorável no Legislativo. A partir de 2027, aliados do ex-senador devem controlar mais de um terço do Senado, o que facilitaria a aprovação de medidas econômicas. Ainda assim, permanece a dúvida sobre qual agenda terá prioridade: a consolidação das contas públicas ou pautas de impacto político mais imediato.
Investidores reposicionam apostas
Na prática, a leitura que prevalece entre grandes gestores é a de que a região ainda oferece oportunidades, mas exige seleção rigorosa e atenção redobrada à política. Em vez de comprar “América Latina” como um bloco homogêneo, fundos passam a olhar caso a caso, comparando níveis de preço com a disposição real dos governos em enfrentar problemas estruturais.
Para Matthew Graves, da PPM America, a mensagem das urnas até aqui não é suficiente para sustentar uma narrativa de conversão generalizada à ortodoxia econômica. “Essas eleições foram ‘eleições de mudança’, mais sobre uma rejeição do status quo do que necessariamente um voto forte a favor de algo como austeridade fiscal”, diz. A consequência, segundo ele, é um ambiente propício a decepções rápidas caso os governos não entreguem resultados consistentes.
No médio prazo, o desempenho dos mercados latino-americanos deve depender menos de ralis eleitorais e mais da capacidade de equilibrar demandas sociais com responsabilidade fiscal. Enquanto essa equação não for resolvida, volatilidade elevada e reversões abruptas de humor dos investidores tendem a seguir como marca registrada da região.
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