Perfis com IA ligam apoio a Lula e Flávio a venda de nudes
Levantamento identifica 37 perfis com influenciadoras falsas que somam 7 milhões de seguidores, exploram disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro e empurram público para conteúdo adulto pago.

Inteligência Artificial
Perfis falsos usam disputa política para atrair seguidores e promover conteúdo adulto pago nas redes sociais.
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Uma rede de ao menos 37 perfis no Instagram e no TikTok usa influenciadoras digitais geradas por inteligência artificial para postar conteúdo político em apoio a Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro e, em seguida, direcionar o público para a venda de conteúdo adulto em plataformas como OnlyFans e Telegram. Juntas, essas contas somam cerca de 7 milhões de seguidores e mais de 500 mil interações.
Influenciadoras que não existem impulsionam política e pornô
Os perfis publicam fotos e vídeos de mulheres virtuais em atos e cenas políticas, muitas vezes inseridas digitalmente ao lado de figuras reais da disputa presidencial. Em várias montagens, essas personagens aparecem com camisetas com o rosto de Flávio Bolsonaro ou com símbolos ligados a Lula e ao PT, misturando elogios à aparência com manifestações de voto nos comentários.
Um dos casos mais chamativos envolve uma personagem que surge acenando ao lado de Flávio Bolsonaro em cima de um trio elétrico no Farol da Barra, em Salvador. Depois de o influenciador Guga Figueiredo expor as montagens, o perfil chegou a ficar indisponível, mas voltou ao ar com mais de 500 mil seguidores, mantendo a combinação de imagens políticas e anúncios de lives e vídeos sexuais.
O levantamento contabilizou 504.105 interações nos 37 perfis, com quase 500 mil curtidas e 18,6 mil comentários. A maior parte das páginas não informa que as imagens são geradas por inteligência artificial, o que contraria as próprias regras de transparência de Instagram e TikTok.
Como funciona o negócio por trás dos perfis
A estratégia se apoia em temas de alto engajamento, como eleições e a disputa Lula e Flávio Bolsonaro, para atrair seguidores. A partir daí, os perfis passam a divulgar links e convites para OnlyFans, canais de Telegram e outras plataformas de conteúdo adulto, onde o público é orientado a pagar em contas no exterior ou por empresas intermediárias.
Em alguns casos, há indícios de que várias contas são operadas por um mesmo grupo: páginas se seguem mutuamente e empurram usuários para o mesmo canal no Telegram, que ultrapassa 50 mil inscritos. Em outra frente, um perfil no TikTok com 24,4 mil seguidores divulga imagens de grupos de mulheres virtuais em atos pró-PT, também conectadas a links para conteúdo pago.
Segundo a presidente do Instituto de Pesquisa em Direito e Tecnologia do Recife (IP.rec), Raquel Saraiva, trata-se de uma operação comercial organizada, que se apoia na polarização política para vender sexo online. “Quem produz esse conteúdo faz o pacote completo”, afirma. Para ela, a produção das imagens, a criação dos perfis e o encaminhamento do público para ambientes pagos fazem parte de uma mesma cadeia.
Entenda o contexto
A descoberta da rede ocorre em meio à corrida presidencial, em que buscas como “Lula e Flávio Bolsonaro quem está na frente” e “pesquisa Lula e Flávio segundo turno hoje” movimentam discussões nas redes e alimentam a disputa por atenção. Ao usar influenciadoras virtuais, os operadores dos perfis exploram tanto a curiosidade em torno da inteligência artificial quanto a estética padrão de mulheres jovens e atraentes voltada ao público masculino.
Raquel Saraiva avalia que esse modelo de negócio reforça padrões de beleza e exploração da imagem feminina. Embora as personagens não existam, diz, elas replicam elementos de misoginia presentes fora das telas. “Nada disso é dissociado da misoginia na sociedade. Tudo é uma grande cadeia”, afirma, defendendo fiscalização mais rigorosa por parte das plataformas.
Além do Brasil, casos parecidos já foram identificados em outros países, com personagens artificiais usadas para defender políticos, partidos ou posições ideológicas e, em paralelo, vender conteúdo adulto ou produtos diversos. Para especialistas em direito digital e segurança da informação, a combinação de avatares políticos com pornografia cria um desafio adicional para a integridade do debate público.
Montagens reaproveitam políticos reais
As montagens brasileiras não se limitam à criação de cenários fictícios. Em diversos casos, imagens de políticos reais são reaproveitadas: vídeos mostram, por exemplo, uma influenciadora virtual “substituindo” o deputado federal Nikolas Ferreira em uma cena ao lado de Flávio Bolsonaro, ou ocupando o lugar que já foi de Cristina Graeml em manifestações políticas.
Também há contas em que a mesma personagem declara apoio aos dois lados da disputa. Em um perfil com cerca de 175 mil seguidores no Instagram, uma mulher de cabelo curto aparece com camiseta vermelha estampada com Lula e, em outra postagem, com vestido verde com o rosto de Flávio Bolsonaro. Em outro caso, uma personagem trans afirma apoiar tanto Lula quanto Flávio em peças diferentes, o que provoca comentários de estranhamento e também de flerte.
Nos comentários, seguidores se dividem entre elogiar as personagens, declarar voto e questionar se o conteúdo é real ou produzido por IA. “IA tá começando a confundir a galera”, admite um usuário sob uma das publicações.
Investigações e pressão por regras mais rígidas
As plataformas de rede social afirmam, em suas diretrizes, que conteúdos manipulados ou gerados por inteligência artificial com potencial de enganar usuários devem ser rotulados. No caso dos 37 perfis mapeados, a exigência raramente é cumprida. Instagram e TikTok são pressionados a identificar a origem desses conteúdos, derrubar contas que violem regras e aprimorar sistemas automáticos de detecção.
Órgãos e centros de pesquisa em direito digital acompanham o caso e veem risco direto para o ambiente eleitoral: com personagens artificiais falando de política e mobilizando sentimentos ligados a Lula e Flávio Bolsonaro, cresce a possibilidade de manipulação de usuários que acreditam interagir com pessoas reais. Ao mesmo tempo, os operadores da rede lucram com a venda de conteúdo adulto para um público capturado por narrativas políticas.
A avaliação de especialistas é que episódios como este devem acelerar o debate sobre regulação das redes no Brasil, especialmente em relação à transparência de conteúdos políticos, rotulagem de material gerado por IA e responsabilidade das plataformas sobre esquemas que misturam desinformação, erotização e campanhas de influência.
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