Salário mínimo 2026: Lula e Flávio travam duelo decisivo hoje
No último debate antes do 2º turno, Lula defende reajuste real do salário mínimo, enquanto Flávio Bolsonaro admite estudar cortes em aposentadorias e no piso. Proposta de mandato de 5 anos sem reeleição também entra em cena.

Economia
Lula e Flávio Bolsonaro discutem reajuste do salário mínimo e possíveis cortes em aposentadorias no debate decisivo antes do 2º turno.
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No último debate antes do segundo turno presidencial, nesta sexta-feira (23), o salário mínimo e eventuais cortes em aposentadorias dividiram Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL-RJ), em um embate que expôs escolhas opostas para a economia e o poder de compra dos brasileiros.
Em rede nacional pela TV Globo, Lula defendeu a política de reajuste do salário mínimo acima da inflação, repetida nos governos petistas, e afirmou que, sem essa estratégia, o piso hoje estaria próximo de R$ 900. Flávio reagiu acusando o atual governo de destruir o poder de compra e aumentar o endividamento das famílias. Ao mesmo tempo, sua equipe econômica admitiu estudar um pacote de até 300 medidas de corte de gastos, incluindo possíveis ajustes na Previdência e no próprio salário mínimo.
O que a coordenadora de Flávio Bolsonaro disse sobre cortes na aposentadoria e no salário mínimo?
Daniella Marques, coordenadora econômica da campanha de Flávio Bolsonaro e ex-presidente da Caixa, afirmou que a equipe trabalha com 300 alternativas de cortes de despesas e não descartou ajustes em aposentadorias e no salário mínimo.
Em entrevista a um podcast, Daniella disse que o objetivo é reorganizar as contas públicas logo no início de um eventual governo, com revisão de regras fiscais, enxugamento de gastos e mudanças na administração federal, em negociação com o Congresso. Ela reforçou a ideia de que o governo precisaria dar exemplo antes de mexer em benefícios.
“Você não tem moral como governo para debater ajuste de previdência, de salário mínimo e tal, se você não for cortar na carne”, declarou a economista, ao lado de Flávio Bolsonaro.
Segundo ela, um grupo de cerca de 30 economistas discute alternativas para conter despesas, em diálogo com nomes como o ex-ministro da Economia Paulo Guedes e os economistas Roberto Campos Neto e Mansueto Almeida. “Quais são os cortes que vão fazer? A gente vai entregar um cardápio na mão dele, né? Tem 300”, afirmou.
A coordenadora não detalhou quais das 300 medidas atingiriam diretamente aposentadorias ou o salário mínimo, nem o impacto estimado de cada uma. A simples menção à possibilidade, porém, abriu espaço para ataques do PT e acendeu o alerta entre aposentados e trabalhadores que recebem o piso.
Entenda o contexto
Pela Constituição, nenhum benefício previdenciário que substitui renda pode ser menor que o salário mínimo. Na prática, qualquer mudança na fórmula de reajuste do piso tende a afetar diretamente milhões de aposentadorias e pensões atreladas a ele.
Hoje, a política de valorização em vigor prevê correção pela inflação e ganho real quando há crescimento da economia, dentro de limites legais. A dúvida central do debate é se um eventual governo Flávio manteria essa lógica ou buscaria desindexar parte dos gastos, como foi discutido em planos econômicos anteriores.
Por que o salário mínimo de São Paulo em 2026 é maior que o nacional?
O salário mínimo de São Paulo em 2026 é de R$ 1.874,36, cerca de 15,6% acima do piso nacional de R$ 1.621, porque a legislação federal permite que estados fixem pisos regionais para categorias sem salário mínimo específico em lei ou acordo coletivo.
O valor paulista está em vigor desde 1º de junho, após reajuste de R$ 70,36 promulgado pelo governador Tarcísio de Freitas. A lei estadual define faixas próprias para aproximadamente 70 categorias profissionais que não têm piso definido em normas federais ou convenções, como empregados domésticos, cuidadores de idosos, motoboys, vendedores, trabalhadores de limpeza e funcionários de serviços administrativos.
Esse mecanismo é autorizado por lei complementar federal, que abriu espaço para pisos regionais justamente para categorias mais vulneráveis na negociação salarial. Em São Paulo, a política de um mínimo estadual mais alto virou vitrine no debate: Lula citou o caso como exemplo de proteção do poder de compra, enquanto Flávio argumentou que, sem ajuste duro dos gastos federais, estados podem perder capacidade de manter políticas semelhantes.
Disputa sobre poder de compra
Durante o debate, Lula usou o histórico da política de valorização do salário mínimo como trunfo. Segundo o presidente, o piso só se sustenta no patamar atual porque os reajustes superaram a inflação em anos anteriores, ampliando a renda de quem ganha menos.
“O salário mínimo seria R$ 900 se dependesse do seu pai [Jair Bolsonaro] e [Michel] Temer. É isso o que eles querem para o Brasil”, atacou Lula, associando o adversário ao campo que defendia correções mais tímidas.
Flávio Bolsonaro reagiu dizendo que o problema não está na política de reajuste em si, mas na inflação e no endividamento atuais. “O poder de compra foi destruído pelo atual governo. Lula endividou o povo brasileiro”, afirmou. Em outro momento, tentou falar diretamente com o eleitor: “Você lembra a última vez que foi ao mercado? Eu sei que está difícil comprar comida, e vou ajudar [a população]”.
No centro da disputa estão os efeitos concretos das propostas. A manutenção da regra que combina inflação e aumento real tende a preservar ou ampliar o poder de compra de quem recebe o mínimo, com impacto também em aposentadorias e em benefícios sociais vinculados ao piso. Já a agenda de cortes e possíveis mudanças em Previdência e salário mínimo, defendida pelo entorno de Flávio, pode significar freio nos reajustes e, na prática, perda relativa de renda para trabalhadores e aposentados.
Mandato, reeleição e uso do “capital político”
Além da economia, o debate trouxe à tona a proposta de Flávio Bolsonaro para mudar as regras do jogo político. O senador defende o fim da reeleição presidencial e admite ampliar o mandato para cinco anos, com impacto já sobre um eventual governo seu.
“Eu sou autor da PEC e vou usar o capital político que um presidente recém-eleito tem também para conseguir aprovar isso no Congresso para que sirva para mim já no meu mandato. E aí, se vai ser quatro ou cinco anos, se valer para governador, prefeito, o processo legislativo é que vai dizer”, disse o candidato.
Hoje, o mandato presidencial é de quatro anos. Qualquer mudança exige emenda à Constituição aprovada pela Câmara e pelo Senado. Juristas apontam que estender o mandato de quem já foi eleito pode esbarrar na garantia do voto periódico, uma cláusula considerada intocável na Constituição, e defendem transições graduais que só valham para eleições futuras.
Daniella Marques também defendeu aproveitar a renovação de dois terços do Senado para empurrar as reformas econômicas mais duras logo no início do governo. “Tem capital político. Dois terços do Senado, que é onde a discussão aprofunda, é técnico. Só vai ter eleição daqui a oito anos para a gente botar o Brasil no lugar”, afirmou, em referência ao ciclo dos mandatos de senadores.
Com o segundo turno às portas, o embate entre uma agenda de valorização do salário mínimo e outra centrada em cortes e flexibilização de gastos tende a ser decisivo para trabalhadores, aposentados e para o rumo da política econômica a partir do ano que vem.


