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Sequoia fecha escritório em Londres e encerra programa de scouts

Sequoia Capital anunciou o fim de seu histórico programa de scouts e o fechamento do escritório em Londres, em uma guinada para menos dispersão e mais foco em investimentos.

Sequoia fecha escritório em Londres e encerra programa de scouts

Investimentos

Sequoia Capital redefine sua estratégia com foco maior e menos dispersão após mudanças em Londres.

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A Sequoia Capital decidiu encerrar seu tradicional programa de scouts e fechar o escritório em Londres, em uma reformulação estratégica anunciada nesta semana em um comunicado publicado na rede social X. A firma de venture capital quer concentrar “mais energia em menos pessoas e coisas”, abandonando o modelo de scouting em larga escala que ajudou a popularizar no mercado.

O que muda com o fim dos scouts da Sequoia

Criado há 17 anos, o programa de scouts da Sequoia permitia que fundadores e operadores selecionados investissem cheques em nome da firma, ampliando o alcance da casa na busca por startups promissoras. Na prática, o fim do programa significa que essa rede ampla de olheiros deixa de existir, dando lugar a uma abordagem mais enxuta e centralizada na própria equipe da gestora.

O fechamento do escritório em Londres faz parte do mesmo movimento, mas não é visto como um sinal de fraqueza do ecossistema local. A capital britânica segue como polo forte, especialmente em inteligência artificial. O recado principal está no corte do scouting: a Sequoia considera que o modelo atual chegou ao limite e prefere reduzir a dispersão de apostas, criticada no mercado como estratégia “spray and pray” — pulverizar muitos cheques e torcer para alguns poucos grandes acertos.

Com a mudança, fundadores e operadores que atuavam como scouts perdem uma via relevante de acesso privilegiado a grandes fundos e de construção de histórico como investidores. Para a Sequoia, o movimento promete ganhos de foco e eficiência: menos intermediários, mais relacionamento direto com os empreendedores que já batem à sua porta.

Críticas ao modelo e efeito em outros fundos

Nem todos viam o programa de scouts com bons olhos. O investidor de risco Sheel Mohnot foi direto ao comentar a decisão. “Eles pioneiraram o programa de scouts, mas [para ser honesto] nunca fez sentido para mim! Os próprios scouts não se importam muito com os investimentos, você ainda pode perder (como fizeram com a Uber), não sei o que isso traz. Suspeito que outras firmas também vão encerrar os seus”, escreveu.

O diagnóstico de que o modelo se desgastou não é exclusivo da Sequoia. A Andreessen Horowitz, uma das principais rivais, também vem reformulando sua rede global de scouts. A firma reduziu o número de participantes e aumentou os recursos destinados aos mais engajados, cobrando contrapartidas mais claras, como ajuda na organização de eventos e aproximação ativa de empreendedores.

“Eles recebem mais orçamento, mas reduzimos o número”, resumiu Gabriel Vasquez, sócio da Andreessen Horowitz, ao descrever a nova abordagem. O ajuste indica uma tendência mais ampla: menos volume, mais seletividade, e scouts atuando quase como extensões formais do fundo, em vez de uma rede massiva e difusa.

Entenda o contexto

Programas de scouts ganharam força à medida que o volume de capital em venture capital cresceu e a competição por bons negócios se acirrou. Ao permitir que fundadores influentes e executivos em operação fizessem cheques em nome de grandes casas, fundos como a Sequoia tentavam chegar antes nas startups mais quentes, inclusive em mercados emergentes e nichos geográficos onde não tinham presença dedicada.

Com o tempo, porém, duas forças passaram a minar esse arranjo. De um lado, operadores mais experientes perceberam que poderiam investir como anjos com capital próprio, capturando sozinhos o retorno dos acertos. De outro, os grandes fundos se tornaram tão conhecidos que os melhores fundadores passaram a procurá-los diretamente, reduzindo a dependência de redes de scouts para gerar negócios.

O resultado é um redesenho do modelo. Em vez de redes amplas e pouco integradas, cresce o espaço para formatos mais restritos e alinhados, como parcerias do tipo venture partner, em que investidores externos atuam de forma mais próxima e estratégica dos fundos.

Europa sente o corte, mas ecossistema segue forte

Na Europa, o fim do programa da Sequoia é sentido de forma particular. Para muitos, a rede de scouts ajudou a amadurecer o mercado de investimentos em estágio inicial no continente, conectando empreendedores e capital internacional num momento em que o ecossistema ainda se estruturava.

Roxanne Varza, que atuou como scout da Sequoia entre 2020 e 2025 e hoje é chefe do campus de inovação Station F, em Paris, lamentou publicamente a decisão. “Estou triste ao saber que o programa está sendo cortado e espero que outros fundos não sigam o mesmo caminho”, afirmou.

Ela destaca o impacto do programa na formação de carreiras e na profissionalização do setor. “Não consigo nomear todos os incríveis scouts que passaram a integrar ou criar fundos, mas são muitos. E os programas de scouts podem ter ajudado eles a chegar lá — permitindo construir histórico de investimentos, relacionamentos com fundos, e mais”, escreveu.

Para Varza, o efeito foi além do ganho individual. “Acredito que eles ajudaram a fomentar a cultura de investimento e o cenário de investimento em estágio inicial que vemos hoje na Europa, por exemplo”, avaliou. O encerramento do escritório em Londres não muda, porém, o fato de que a cidade segue como um dos centros mais vibrantes de tecnologia e inteligência artificial no continente.

Scouts acabam ou serão redesenhados?

Apesar do corte, a avaliação de quem conhece o modelo por dentro é que o conceito não desaparece, mas se transforma. Varza acredita que a própria Sequoia deve manter outras estruturas para se conectar a investidores externos. “Enquanto a Sequoia pode estar cortando o programa, negócios no estilo venture partner provavelmente vão continuar. Scouts era apenas uma forma de escalar o formato. Não imagino que a Sequoia vá acabar com todas as formas de venture partners, mas eles são cheios de surpresas”, disse.

Para o mercado de venture capital, o movimento aponta para uma fase de consolidação e foco estratégico. Grandes fundos, mais conhecidos e capitalizados, competem diretamente pelos melhores empreendedores, enquanto ajustam suas estruturas para evitar a dispersão de capital em muitas pequenas apostas de baixa convicção.

O fim do programa de scouts da Sequoia, que marcou época e inspirou concorrentes, encerra um ciclo e deve servir de sinal para outras gestoras reavaliarem suas próprias redes de olheiros — seja para enxugar, redesenhar ou, em alguns casos, desligar de vez o modelo que ajudou a moldar a última década de investimentos em startups.