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Lançamentos de IA

Startup 42AI lança IA que prevê decisões de traders em 24h

Startup israelense 42AI estreia com US$ 62,5 milhões e software que prevê, com 98% de precisão, como traders vão operar em mercados voláteis, levantando debate ético.

Startup 42AI lança IA que prevê decisões de traders em 24h

Tecnologia

Nova IA da 42AI promete antecipar movimentos de traders em mercados instáveis com alta precisão.

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A startup israelense 42AI estreou nesta segunda-feira (2) no mercado global de tecnologia financeira com um software de inteligência artificial capaz de prever, com base em perfis comportamentais, como traders individuais tendem a operar em momentos de forte volatilidade — ferramenta que promete mudar a gestão de risco de corretoras e, ao mesmo tempo, acende um alerta ético sobre o uso de dados psicológicos.

IA antecipa fluxo de operações em até 24 horas

Fundada por Amit Gal-Or (cofundador e CEO) e Ehud Ezra (CTO), a 42AI nasce com um aporte inicial de US$ 62,5 milhões, levantado ao longo de três anos pelos próprios fundadores e pelo grupo de investimento Infinity Group, liderado por Amir Gal-Or. A empresa já inicia as operações comerciais atendendo dez grandes corretoras ao redor do mundo e afirma ter alcançado receita de sete dígitos.

O software estima, para cada cliente da corretora, as probabilidades das escolhas nas próximas 24 horas: qual instrumento financeiro deve negociar, em que direção (compra ou venda) e em que volume. Com isso, as mesas de risco podem montar estratégias de hedge dinâmico antes que uma enxurrada de operações semelhante chegue ao livro da casa, reduzindo a exposição em cenários de estresse de mercado.

Segundo a empresa, uma dessas corretoras já teria gerado cerca de US$ 30 milhões em valor adicional usando o sistema para ajustar posições com antecedência. A 42AI cobra uma taxa fixa ou um percentual sobre o valor financeiro que ajuda a gerar para o cliente institucional.

Como funciona o modelo comportamental

O coração da tecnologia é um modelo comportamental probabilístico que transforma dados pessoais e de uso em representações matemáticas de traços de personalidade. A partir daí, um modelo baseado em transformadores calcula a probabilidade de cada decisão em cenários específicos de mercado, enquanto um modelo de linguagem gera explicações sobre quais traços e contextos pesaram em cada previsão.

Entre as entradas usadas pela 42AI estão informações coletadas no onboarding (conheça-seu-cliente), dados de uso da conta, frequência de chamadas do cliente para a corretora e até a análise de sentimento da voz nessas interações. A empresa afirma ter validado o modelo ao longo de três anos de pesquisa, começando com milhares de avaliações psicológicas e ampliando a base para mais de 2 milhões de perfis em estudos iniciais, até chegar hoje a dados que abrangem cerca de 30 milhões de pessoas.

Em um artigo científico publicado neste ano, Ezra e coautores detalharam um “Large Behavioral Model” de 8 bilhões de parâmetros, adaptado a partir da arquitetura Llama 3.1, para prever escolhas estratégicas de indivíduos com base em perfis psicométricos detalhados. Na prática, o sistema não tenta acertar cada trade isolado, mas se o fluxo de negociações de um cliente ficará dentro de uma faixa de comportamento prevista. A empresa diz alcançar 98% de precisão nesse nível agregado.

“Comportamento não é determinístico; é constantemente probabilístico”, resume Amit Gal-Or, defendendo que o ganho está em antecipar tendências com alto grau de confiança, e não em adivinhar cliques individuais.

Entenda o contexto

A proposta da 42AI ataca um dos pontos mais sensíveis da indústria financeira: como reduzir riscos em eventos de alta volatilidade, quando decisões simultâneas de milhares de clientes podem colocar uma corretora sob forte pressão. Hoje, a maior parte dos sistemas de gestão de risco se baseia em históricos de preços, posições abertas e, no máximo, padrões agregados de comportamento.

Ao deslocar o foco para o nível individual e para traços psicológicos, a startup tenta oferecer um mapa antecipado de como cada trader tende a reagir a choques de mercado. Isso interessa especialmente a corretoras de derivativos, forex e cripto, além de investidores institucionais que operam com alta frequência e exigem ajustes contínuos de hedge.

Privacidade, ética e limites da previsão

O modelo da 42AI foi treinado a partir de grandes bases de dados psicológicos, governamentais e de biobancos, com a promessa de não utilizar informações pessoalmente identificáveis. “O modelo nunca sabe quem a pessoa é”, afirma Gal-Or. Ainda assim, a tecnologia constrói um perfil individual a partir da atividade vinculada às contas dos clientes, o que levanta dúvidas sobre a fronteira entre anonimização e rastreabilidade comportamental.

Questionado sobre o risco de uma corretora usar essas previsões contra seus próprios clientes, por exemplo para explorar vulnerabilidades em vez de apenas se proteger, o CTO Ehud Ezra admite tratar-se de “uma preocupação válida”. Os fundadores dizem apostar em regulação, monitoramento e em um comitê interno de ética como barreiras a esse tipo de abuso.

A própria 42AI reconhece limites técnicos para a leitura do comportamento humano. O modelo perde precisão quando não captura influências externas relevantes, como recomendações de colegas, consultores ou redes sociais. “Existe um teto natural porque você não tem acesso a tudo o que a pessoa experiencia”, afirma Gal-Or. Essa lacuna indica um caminho de evolução futura, possivelmente com integração a mais fontes de contexto — o que, por sua vez, ampliaria ainda mais o debate sobre privacidade.

Planos de expansão e outros mercados

Com o aporte inicial de US$ 62,5 milhões classificado como rodada seed, a 42AI planeja novas captações para acelerar a expansão global e o desenvolvimento da tecnologia. A Infinity Group, presidida por Amir Gal-Or, é um dos pilares financeiros do projeto, enquanto o time de pesquisa conta com a consultoria do químico Dan Shechtman, ganhador do Prêmio Nobel de Química e conselheiro científico da empresa.

Além do mercado financeiro, a 42AI já mira aplicações em jogos, prevenção de fraudes e cibersegurança, onde a capacidade de antecipar o comportamento de usuários e atacantes pode se traduzir em vantagem competitiva. A ambição de longo prazo, segundo os fundadores, é usar o modelo comportamental para ajudar robôs e agentes de IA a entender melhor as pessoas em diferentes contextos, o que tende a ampliar ainda mais as discussões sobre transparência, regulação e o papel da inteligência artificial na leitura — e na influência — do comportamento humano.