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Startup brasileira testa software que vira data center em órbita

Após 13 meses de desenvolvimento, a Satlyt valida em órbita um software que reparte tarefas entre satélites e dá passo rumo a data centers virtuais no espaço, com apoio da NASA.

Startup brasileira testa software que vira data center em órbita

Tecnologia Espacial

Satlyt avança com software que distribui processamento entre satélites, inovando data centers no espaço.

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A Satlyt, startup fundada por Rama Afullo, ex-Google e SpaceX, concluiu nesta semana um teste bem-sucedido em órbita terrestre baixa de um software que distribui tarefas computacionais entre satélites, aproximando o setor espacial do conceito de data centers virtuais no espaço e prometendo acelerar a entrega de dados úteis para a Terra.

Software reparte tarefas entre satélites em tempo real

O experimento, desenvolvido ao longo de 13 meses em parceria com a Universidade de Houston e financiado pela NASA, simulou uma rede com quatro computadores, quatro usuários e oito serviços. Apenas um computador físico, a bordo de um satélite real em órbita, executou o software; os outros três foram simulados em solo para testar o sistema de planejamento e alocação de recursos.

Na prática, o programa avalia automaticamente onde e quando cada tarefa deve rodar, levando em conta capacidade de processamento disponível e janelas de comunicação entre os nós da rede espacial. Depois, envia os resultados de volta para a Terra, reduzindo a necessidade de transmitir volumes brutos de dados para análise em solo.

Segundo Afullo, a ambição é permitir que diversos satélites “conversem” entre si e compartilhem trabalho computacional de forma transparente para o usuário. “O objetivo é obter respostas úteis para as pessoas mais rapidamente e fazer melhor uso das janelas limitadas de comunicação”, afirma o fundador da Satlyt. Hoje, o software da empresa já está embarcado em três satélites em órbita.

Entenda o contexto

Missões espaciais operam sob restrições severas: computadores de bordo com potência limitada, comunicação intermitente com o solo e pouco tempo de contato com antenas terrestres para escoar dados. Em muitos casos, a nave coleta grandes volumes de informação, mas só uma fração chega a ser baixada e analisada a tempo de uso prático.

Ao levar mais processamento para o espaço e distribuí-lo entre vários satélites, a Satlyt busca inverter essa lógica. Em vez de mandar tudo para a Terra e filtrar depois, as constelações passam a tratar imagens, sinais e medições em órbita, enviando apenas alertas e produtos refinados. Isso interessa a aplicações que exigem resposta rápida, como monitoramento ambiental, detecção de incêndios florestais e segurança.

Como foi o teste com o satélite em órbita

No ensaio desta semana, a Satlyt montou uma rede simulada de quatro computadores, cada um associado a diferentes serviços e usuários, com prioridades e limites definidos. O software, rodando a bordo do satélite real, recebeu esse cenário e gerou planos de execução, escolhendo onde alocar cada tarefa e em que ordem, de acordo com as restrições impostas pela capacidade de processamento e pela disponibilidade de links.

Os resultados foram processados em órbita e enviados de volta para a Terra, demonstrando que o sistema consegue planejar e executar cargas de trabalho reais no espaço, ainda que, por enquanto, com apenas um nó físico. “O desenvolvimento do software, execução a bordo e retorno dos resultados foram bem-sucedidos”, resume Afullo. Empolgado com o marco, ele celebrou nas redes com um espontâneo: “Vamos GOOOO”.

O teste também permitiu comparar diferentes abordagens de planejamento. De acordo com o fundador, uma delas se mostrou mais eficiente em termos de qualidade das decisões de alocação, mas exigiu mais poder de computação, evidenciando o tipo de compromisso que missões terão de avaliar ao adotar sistemas deste tipo.

Correções técnicas e próximos desafios

Apesar do desempenho considerado positivo, a Satlyt identificou pontos a corrigir. Um erro na forma como o software referenciava atrasos temporais, por exemplo, fazia com que o sistema marcasse o horário de chegada dos dados em vez do atraso total no percurso — um detalhe que impacta a forma de medir desempenho e ajustar o planejamento.

Para além de bugs, há obstáculos estruturais. Afullo lista a necessidade de garantir links de comunicação realmente utilizáveis entre espaçonaves, obter permissão de operadores para compartilhar recursos, implementar transferências de dados seguras, criar mecanismos robustos de agendamento de recursos e assegurar recuperação quando um nó da rede ficar indisponível.

Os próximos passos incluem testar o software sob diferentes cargas de trabalho, variações de hardware e cenários de conectividade, além de expandir as demonstrações para além da órbita terrestre baixa. “Nossos próximos passos técnicos são validação mais ampla e integração, seguidos por demonstrações de trabalho computacional compartilhado entre diferentes espaçonaves”, detalha o executivo.

Impacto para a indústria espacial

A proposta da Satlyt atinge diretamente o coração da nova corrida espacial comercial: aumentar a autonomia das naves e extrair mais valor de cada byte produzido em órbita. Ao transformar satélites em nós de uma espécie de nuvem espacial, a empresa pretende oferecer uma infraestrutura sobre a qual operadores possam rodar aplicações de inteligência artificial e análise de dados sem redesenhar toda a arquitetura a cada missão.

Na avaliação de Afullo, isso abre caminho para uma nova geração de serviços espaciais, com constelações inteiras capazes de cooperar para identificar desmatamento, monitorar infraestrutura crítica, apoiar respostas a desastres naturais e alimentar sistemas de previsão em tempo quase real. Ao mesmo tempo, uma parte do trabalho hoje feita em grandes centros de dados em solo poderia migrar para o espaço, reduzindo a pressão sobre a infraestrutura de comunicação terrestre.

A longo prazo, a visão é que a camada de software se torne um padrão de mercado. “A longo prazo, queremos que desenvolvedores construam aplicações para o espaço sem precisar reconstruir a infraestrutura para cada missão”, afirma o fundador. “É um bloco de construção para satélites compartilharem trabalho computacional”.

Se conseguir superar barreiras técnicas e regulatórias, o modelo de data centers virtuais em órbita tende a atrair novas parcerias e investimentos, impactando empresas de tecnologia espacial, desenvolvedores de software embarcado e equipes que trabalham com inteligência artificial no espaço. Até lá, a Satlyt corre para transformar o sucesso inicial deste teste em uma plataforma operacional pronta para integrar múltiplas espaçonaves.