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Inteligência Artificial

Vídeo deepfake finge fala de Brizola sobre Bolsonaro e viraliza

Vídeo que circula em redes sociais desde 15 de outubro usa inteligência artificial para colocar na boca de Leonel Brizola uma crítica a Jair Bolsonaro que nunca ocorreu em debate de 1989.

Vídeo deepfake finge fala de Brizola sobre Bolsonaro e viraliza

Inteligência Artificial

Vídeo manipulado com IA atribui falsamente a Brizola uma crítica a Bolsonaro em debate histórico.

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Um vídeo que circula em X, Facebook, Instagram e TikTok desde 15 de outubro atribui falsamente a Leonel Brizola (1922-2004) uma fala em que o ex-governador ligaria Jair Bolsonaro a milícias e a um esquadrão da morte. A gravação é um deepfake: teve rosto e áudio manipulados com inteligência artificial e não corresponde ao que foi dito no debate presidencial de 1989 em que Brizola participou.

Ferramentas de IA apontam 99% de chance de fraude

No vídeo adulterado, Brizola aparece supostamente comentando sobre o então vereador carioca Jair Bolsonaro. A montagem coloca na boca do político a frase: “Eu já falei isso e sei que a maioria do povo não entendeu, principalmente com os jovens, sobre o [então] vereador [Jair] Bolsonaro, do Rio de Janeiro. Quase ninguém conhece esse político que manda na milícia e no esquadrão da morte. Ele é o único bandido, corrupto que seus eleitores consideram honesto. Ele ensina os filhos como se fossem soldados revoltados, apenas com o objetivo de enganar as pessoas. Eu penso: qual é o futuro de um vereador na política com esse cidadão?”.

A checagem submeteu o material a três ferramentas especializadas na detecção de manipulações por IA. A HiveModeration indicou “99,4% de probabilidade de o áudio ter sido manipulado com IA”. O sistema Hiya/Invid avaliou que há 99% de chance de o som ter sido gerado artificialmente e registrou: “Hiya.com considera este fragmento de áudio como muito provavelmente gerada por IA”. Já o Detector Mever/Invid apontou que “Detector Mever de vídeo deepfake. Probabilidade 98%. Provas muito sólidas”, com 99% de probabilidade de o vídeo ter sido produzido com esse tipo de técnica.

Os laudos combinados mostram que tanto a voz atribuída a Brizola quanto a imagem de seu rosto foram alteradas digitalmente, numa tentativa de dar aparência de autenticidade a uma fala que ele jamais proferiu.

Entenda o contexto

O trecho usado na montagem foi recortado de um debate presidencial promovido por uma emissora de TV em 1989, no primeiro turno da eleição, do qual participaram, além de Brizola, candidatos como Lula, Paulo Maluf, Roberto Freire, Guilherme Afif Domingos, Ronaldo Caiado e Mário Covas. A equipe de verificação consultou a transcrição integral desse encontro e não encontrou qualquer menção a Jair Bolsonaro ao longo do programa.

Para localizar o vídeo original, o conteúdo adulterado foi fragmentado em quadros estáticos por meio da plataforma Invid. Uma dessas imagens foi então submetida ao Google Lens, que levou à gravação autêntica do debate. A comparação frame a frame mostrou que a movimentação de boca e alguns detalhes faciais de Brizola no vídeo que viralizou não correspondem ao áudio que se ouve, sinal típico de deepfake.

No registro verdadeiro, o ex-governador falava sobre repressão a trabalhadores durante a ditadura, sem citar Bolsonaro nem milícias: “Mas, no entanto, em plena ditadura, estavam nas capas das revistas das multinacionais aqui em São Paulo, como é o caso da revista ‘Veja’, quando se matavam sindicalistas em plena operação urbana. Quer dizer, essa crítica de que realmente foi uma legislação tomada do fascismo. Olha, era numa época em que a polícia era municipal, em que patronal, a igreja era contra os sindicatos, que não era possível nunca um grupo de trabalhadores fundar um sindicato”.

Manipulação busca dar peso histórico a ataque político

A adulteração tenta colar em Bolsonaro, ex-presidente e ex-vereador do Rio de Janeiro, uma acusação grave vinda de uma liderança histórica já morta, o que impede qualquer contestação direta. Ao reescrever o passado com ajuda de IA, os autores da montagem exploram a credibilidade associada a Brizola para reforçar um ataque político no presente.

Desde que começou a circular, o vídeo é acompanhado, em algumas postagens, de textos que sugerem que “Brizola já alertava na época” sobre Bolsonaro. A frase busca dar ao conteúdo um caráter de profecia ou denúncia antecipada, quando, na verdade, a checagem do debate mostra que essa associação nunca ocorreu.

Especialistas em desinformação alertam que a combinação entre imagens históricas reais e trechos gerados por inteligência artificial aumenta o potencial de engano, porque o público tende a reconhecer o contexto visual — o cenário, a roupa, o enquadramento — e a supor que o áudio também seja fiel aos fatos.

Deepfake: o que é e por que exige cuidado redobrado

Deepfake é o nome dado a vídeos ou fotos que têm imagem, voz ou ambos alterados por inteligência artificial. Com esses recursos, é possível trocar o rosto de uma pessoa por outro, sincronizar lábios com falas que nunca existiram e até imitar timbre e jeito de falar de figuras conhecidas.

Ferramentas como as usadas nesta checagem analisam padrões de áudio e vídeo em busca de sinais de síntese digital, como variações artificiais de voz, bordas imprecisas em rostos e inconsistências na iluminação. Nenhum desses sistemas é infalível isoladamente, mas a convergência de resultados altos — 99,4%, 99% e 99% de probabilidade de manipulação, neste caso — reforça a conclusão de fraude.

O episódio de hoje, desmentido por verificadores, se soma a outros exemplos recentes em que conteúdos fabricados com IA circulam como se fossem registros jornalísticos ou históricos. A orientação de especialistas é desconfiar de frases bombásticas atribuídas a figuras públicas em vídeos antigos, checar se há registro daquela fala em reportagens da época e buscar verificações independentes antes de compartilhar.

Fonte: matéria original