Cuba leva embargo dos EUA à ONU e perde apoio da Venezuela
Com falta de luz e água e sob embargo reforçado pelos EUA, Cuba tenta na ONU, pela 34ª vez, aprovar resolução contra o bloqueio, em meio ao enfraquecimento da aliança com a Venezuela após captura de Maduro.

Economia Internacional
Cuba enfrenta dificuldades econômicas agravadas pelo embargo dos EUA e pela perda de apoio político da Venezuela.
Leia também: Brasil Adiante pode elevar PIB Brasil em R$ 2,3 tri até 2036
Cuba leva nesta semana à Assembleia Geral da ONU, pela 34ª vez, uma resolução pedindo o fim do embargo econômico dos Estados Unidos, enquanto enfrenta apagões, falta de água e o abalo da aliança com a Venezuela após a captura de Nicolás Maduro por forças americanas.
Cuba aposta em nova ofensiva diplomática na ONU
O governo do Cuba, presidido por Miguel Díaz-Canel, tenta transformar em capital político a ampla solidariedade internacional contra o bloqueio, num momento de maior vulnerabilidade interna e regional. A resolução contra o embargo será votada nos dias 27 e 28 de outubro, em Nova York.
Segundo o embaixador cubano no Brasil, Victor Manuel Cairo Palomo, o texto repete o apelo pelo fim das sanções econômicas, comerciais e financeiras impostas por Washington. Na última votação, 187 países apoiaram a resolução, o que evidencia o isolamento diplomático dos Estados Unidos no tema, embora a decisão da Assembleia não seja vinculante e não obrigue a Casa Branca a suspender o embargo.
Na prática, Havana busca usar esse respaldo para pressionar politicamente o governo americano e, ao mesmo tempo, reforçar para sua população e aliados que não está isolada, mesmo com a perda de peso da parceria com Caracas.
Entenda o contexto
O embargo dos EUA limita o acesso de Cuba a crédito internacional, impede transações bancárias com instituições americanas e dificulta operações com empresas de terceiros países que temem sanções secundárias. O governo cubano afirma que as restrições travam investimentos, comprometem a infraestrutura energética e dificultam a importação de alimentos, medicamentos e peças de reposição.
Ao mesmo tempo, a principal aliada regional, a Venezuela, passou por uma guinada após a captura do ex-presidente Nicolás Maduro por forças americanas em janeiro. Com a suspensão do envio de petróleo venezuelano para a ilha e a pressão direta dos EUA sobre Caracas, a cooperação estratégica de mais de duas décadas entrou em rota de desgaste.
Como a pressão dos EUA tem afetado a vida cotidiana em Cuba?
A pressão dos EUA se traduz em Cuba em falta recorrente de luz e água, longas filas para compra de itens básicos e encarecimento de produtos importados. As sanções econômicas e financeiras restringem a entrada de combustíveis, insumos industriais e alimentos, o que afeta diretamente o dia a dia da população.
Com menos combustível disponível, o governo reduz a geração de eletricidade, provoca apagões prolongados e diminui o transporte público. Bombas de água deixam de funcionar em períodos de cortes de energia, interrompendo o fornecimento em cidades e áreas rurais. Brasileiros que vivem na ilha relatam dias alternados de abastecimento e necessidade de estocar água quando há fornecimento.
Como o Estado segue sendo o principal importador, qualquer quebra de cadeia logística ou dificuldade de pagamento internacional se reflete em prateleiras vazias ou produtos a preços proibitivos em mercados dolarizados, num cenário já marcado por queda de poder de compra dos salários.
Quais são os impactos do embargo dos EUA no sistema de saúde cubano?
O embargo pressiona o sistema de saúde cubano ao dificultar a compra de equipamentos, reagentes e medicamentos, inclusive quando esses produtos não são fabricados nos EUA, mas utilizam tecnologia, peças ou licenças americanas. Empresas e bancos muitas vezes se recusam a vender ou processar pagamentos com medo de punições.
Hospitais relatam dificuldade para repor peças de equipamentos de diagnóstico e terapia intensiva, o que reduz a capacidade de atendimento em alta complexidade. O país, que historicamente exportou médicos e se projetou como referência em atenção básica, enfrenta hoje falta de insumos e remédios para doenças crônicas e tratamentos especializados.
Programas de cooperação médica no exterior, como a presença de profissionais cubanos na Venezuela, também foram afetados pela crise política em Caracas e pela pressão americana, o que reduz a entrada de divisas e enfraquece financeiramente o sistema de saúde doméstico.
Como a captura de Maduro influenciou a relação entre Cuba e Venezuela?
A captura de Nicolás Maduro por forças dos EUA em janeiro desencadeou o esvaziamento da cooperação entre Cuba e Venezuela e encerrou, na prática, a condição de Caracas como principal aliada estratégica da ilha. O episódio resultou na morte de 32 cubanos ligados às Forças Armadas e à área de segurança de Havana, expondo o alcance da presença cubana no aparato militar venezuelano.
Após a operação, os EUA passaram a controlar a venda de petróleo venezuelano e mantiveram suspenso o envio de combustível para Cuba, que já vinha sendo prejudicado por um bloqueio marítimo à costa venezuelana. Relatos indicam a retirada de agentes de segurança e médicos cubanos da Venezuela, sob forte pressão americana sobre o novo governo em Caracas.
A mudança ficou explícita no discurso da presidente interina venezuelana, Delcy Rodríguez, na Assembleia Geral da ONU este mês: pela primeira vez em duas décadas, um líder venezuelano não citou Cuba. Em 2009, Hugo Chávez mencionou a ilha 11 vezes; em 2015, Maduro, 13 vezes.
Dias após assumir, Rodríguez chegou a defender, em discurso no Parlamento, a autonomia da política externa de seu país: “Temos o direito de manter relações diplomáticas com a China, com a Rússia, com o Irã, com Cuba, com todos os povos do mundo. Também com os EUA. Somos uma nação soberana”, afirmou.
Hoje, porém, Havana admite que a relação já não é a mesma. “[A Venezuela] é um país amigo. Aliado é uma palavra muito forte”, disse o vice-ministro das Relações Exteriores de Cuba, Carlos Fernández de Cossío, em entrevista recente. É o primeiro reconhecimento oficial de que a “relação estratégica” construída por Chávez e Fidel Castro foi desidratada.
Especialistas em relações internacionais, como Frank Mora, da Universidade Internacional da Flórida, avaliam que “tudo ou quase tudo mudou” na relação bilateral. Segundo ele, o projeto de “cubanização” das Forças Armadas venezuelanas, com forte presença de agentes de contrainteligência de Havana, foi revertido após a captura de Maduro, em um processo descrito como “descubanização” do aparato de segurança em Caracas.
Qual é a posição de Cuba na ONU em relação às sanções dos EUA?
Cuba usa a tribuna da ONU para condenar o embargo como uma política “unilateral, ilegal e genocida” e sustenta que as sanções violam o direito internacional e a Carta das Nações Unidas. A resolução que será votada nos dias 27 e 28 repete esse argumento central e pede que todos os países deixem de aplicar leis e medidas relacionadas ao bloqueio.
Nas 33 votações anteriores, a ilha conquistou vitórias expressivas, com apoio de grande maioria dos Estados-membros — na última, 187 votaram a favor. Mesmo sem efeito jurídico obrigatório, essa sequência serve como termômetro do isolamento americano e será usada por Havana para mostrar que a política de sanções não tem respaldo internacional.
O governo Díaz-Canel tenta, assim, contrabalançar o desgaste econômico interno e a perda de um parceiro-chave na região com um discurso de resistência e legitimidade externa, na expectativa de atrair investimentos e cooperação de países que se opõem às sanções.
Fontes: matéria original 1 · matéria original 2 · matéria original 3


