Ryanair prevê alta de até 20% nas passagens aéreas em 2027
Ryanair prevê alta de até 20% nas passagens na Europa com guerra no Irã, México reforma órgão de aviação após pressão dos EUA e Anac aperta regras da aviação geral em Congonhas.

Aviação
Impactos geopolíticos e mudanças regulatórias pressionam preços das passagens aéreas na Europa e no Brasil.
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O avanço da guerra no Irã, a pressão de reguladores dos Estados Unidos e o aperto nas operações em Congonhas empurram a aviação civil global para um ciclo de passagens mais caras, regras mais rígidas e menos espaço para amadores. Europa, México e Brasil movem peças ao mesmo tempo para tentar manter margens e segurança num setor sob forte estresse.
Por que a Ryanair prevê a maior alta das passagens aéreas da história na Europa?
A Ryanair projeta para 2027 um aumento de até 20% nas tarifas na Europa porque o combustível de aviação disparou com a guerra no Irã e a maior parte das companhias está pouco protegida financeiramente contra essa alta.
Em coletiva em Bruxelas, o diretor-presidente da Ryanair, Michael O’Leary, afirmou que o continente se prepara para um salto inédito nos bilhetes. “Vocês verão as passagens aéreas subirem no próximo ano na Europa, acho que em 10%, 15%, talvez 20%. Vocês verão o maior aumento das passagens aéreas, eu diria, da história da Europa nos próximos 12 meses”, disse.
O combustível é hoje o principal fator por trás da escalada de preços. O’Leary explicou que, quando o conflito começou, a Ryanair já tinha 80% de suas necessidades de combustível até março de 2027 travadas a US$ 67 por barril. Esse tipo de proteção, conhecido como hedge, dá previsibilidade de custo mesmo com o petróleo em alta.
A partir de abril de 2027, porém, o cenário muda. Segundo o executivo, a companhia tem só 15% do combustível do ano seguinte protegido, a US$ 85 por barril, enquanto os preços à vista estão em torno do dobro disso. Outras empresas europeias, diz ele, estão em situação ainda mais exposta, o que deve comprimir margens e empurrar todo o setor a reajustar tarifas.
Além disso, O’Leary prevê uma oferta menor de assentos no continente, com a combinação de falências e aquisições de companhias pressionadas pelos custos. Menos voos e menos concorrentes tendem a sustentar preços mais altos para o passageiro.
Ao mesmo tempo em que prepara o caixa para o combustível mais caro, a Ryanair aposta em ganho de eficiência com frota nova. O’Leary disse estar confiante de que a Administração Federal de Aviação dos Estados Unidos conclua ainda em outubro a certificação do Boeing 737 Max 10. “A Boeing espera ter o Max 10, a nova aeronave, certificado antes do fim de outubro (…) Estamos bastante otimistas de que esse prazo será cumprido”, afirmou. A expectativa é receber 16 unidades no início de 2027, o que pode reduzir custo por assento e ajudar a mitigar parte da pressão dos combustíveis no médio prazo.
Quais mudanças o México fez no órgão regulador da aviação após a auditoria dos EUA?
O México decidiu reforçar seu órgão regulador da aviação civil com mais recursos financeiros, aumento de pessoal e novas estratégias de fiscalização para corrigir falhas de segurança apontadas por uma auditoria das autoridades norte-americanas.
O movimento é uma resposta direta à avaliação feita pela Secretaria de Transportes dos Estados Unidos e pela Administração Federal de Aviação, que identificaram deficiências capazes de colocar em risco a classificação máxima de segurança do país. Manter essa nota é crucial para que empresas mexicanas operem e ampliem rotas para o mercado americano sem restrições.
Na prática, o governo mexicano se comprometeu a robustecer a agência responsável por supervisionar companhias aéreas, manutenção, formação de pilotos e controle de tráfego. O pacote inclui contratação de técnicos, ampliação de equipes de inspeção e atualização de procedimentos, além de investimentos em tecnologia para acompanhamento mais rigoroso das operações.
Especialistas ouvidos pelo setor veem ganho de segurança e de credibilidade internacional, mas apontam um efeito colateral: as companhias aéreas mexicanas devem enfrentar custos adicionais de adaptação a novas exigências, tanto em processos internos quanto em treinamento de pessoal e upgrades de sistemas.
Para passageiros, o impacto tende a vir em duas frentes. De um lado, maior segurança operacional e menor risco de restrições impostas por outros países. De outro, o repasse gradual de custos às tarifas, num momento em que a aviação mundial já sente a pressão do combustível caro e de juros elevados.
Quais são as novas regras para voos executivos e táxi aéreo no aeroporto de Congonhas?
Desde 15 de outubro, operadores de táxi aéreo e aeronaves privadas só conseguem reservar horários de pouso e decolagem em Congonhas se tiverem, antes, contrato com um provedor de serviços de base fixa (FBO) para atendimento em solo. Sem esse vínculo formal, não há slot.
A medida, editada pela Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) com apoio do Departamento de Controle do Espaço Aéreo (Decea), muda a dinâmica de um dos aeroportos mais disputados do País. O objetivo é garantir que cada operação da aviação geral tenha estrutura de atendimento previamente contratada — do pushback ao abastecimento — evitando improvisos que possam atrasar a malha e comprometer a segurança.
Hoje Congonhas opera com 44 slots, sendo 36 da aviação comercial, quatro da aviação executiva e quatro de buffer para ajustes operacionais. Antes de 2025, a aviação geral tinha oito slots; o número foi reduzido pela metade em meio ao aperto da capacidade do aeroporto e ao crescimento da malha regular.
Ao exigir contrato com FBO para a aviação geral, a Anac mira também o comércio paralelo de slots, prática em que intermediários reservam janelas apenas para revendê-las depois a quem realmente precisa operar no terminal. A agência promete fiscalização intensa para coibir esse mercado cinza.
“Na prática, as novas regras também restringem as condições de utilização de Congonhas pela aviação geral, ao exigir maior planejamento e comprovação prévia da estrutura necessária para cada operação”, afirma o diretor-presidente da Anac, Tiago Faierstein. Ele reforça que, na aviação civil, “segurança operacional está sempre em primeiro lugar”.
A Associação Brasileira de Aviação Geral (Abag), que representa o segmento de negócios, avalia que a mudança reforça a segurança no aeroporto, embora operadores menores temam perda de espaço. Já a administradora Aena diz que apenas provê a infraestrutura e não interfere na distribuição de slots, enquanto a Associação Brasileira das Empresas Aéreas (Abear) preferiu não comentar.
Entenda o contexto
A pressão regulatória em Congonhas ocorre num momento de forte aquecimento da aviação de negócios no País. A frota brasileira desse segmento já passa de 11,3 mil aeronaves entre jatos, turboélices e helicópteros, com crescimento de 9,1% nos últimos 12 meses. É a segunda maior aviação de negócios do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos.
Congonhas, na zona sul de São Paulo, é peça central dessa engrenagem. No primeiro trimestre de 2026, o aeroporto movimentou 24,6 milhões de passageiros e segue atrás apenas de Guarulhos em fluxo no Brasil. A proximidade com o centro financeiro da capital paulista e a disputa por horários tornam qualquer desequilíbrio na operação um risco imediato para a aviação comercial.
Com combustível em patamar historicamente elevado, guerra aberta em uma região produtora de petróleo e reguladores mais atuantes em diferentes países, a aviação civil vive uma fase em que segurança, custo e eficiência se chocam. As decisões tomadas agora na Europa, no México e no Brasil devem redesenhar rotas, preços e o acesso de passageiros e empresas à aviação nos próximos anos.
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