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Lançamentos de IA

IA reduz acesso à Wikipédia em 50% e acadêmicos alertam risco

Explosão da inteligência artificial generativa reduz leitura e engajamento na Wikipédia, fragiliza comunidade voluntária e acende alerta ético entre pesquisadores.

IA reduz acesso à Wikipédia em 50% e acadêmicos alertam risco

Tecnologia

O crescimento da IA generativa impacta significativamente o uso da Wikipédia, preocupando especialistas com consequências éticas e comunitárias.

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A explosão dos sistemas de inteligência artificial generativa está cortando caminho entre usuários e a Wikipédia, reduzindo a leitura direta da enciclopédia e acendendo um alerta sobre sua sobrevivência. A pesquisadora Helen Choi afirma que acadêmicos, como “guardiões do conhecimento”, têm responsabilidade ética de defender a comunidade voluntária que mantém o maior repositório de referência do mundo.

IA assume a resposta e deixa a Wikipédia na sombra

No dia a dia, quem recorre a ferramentas como Google Gemini ou ChatGPT recebe respostas prontas em segundos. Esses textos muitas vezes se alimentam da Wikipédia e ocasionalmente exibem links para a enciclopédia, mas a maior parte dos usuários não clica nessas referências nem verifica as páginas originais.

Na prática, isso derruba o tráfego direto ao site e afeta o motor que faz a plataforma funcionar: uma comunidade de voluntários que escreve, revisa, programa e administra os verbetes. Menos leitores significam menos gente disposta a corrigir erros, atualizar informações ou criar novos artigos, o que pode levar, nas palavras de Choi, a uma enciclopédia abandonada.

“O uso crescente de IA que não direciona para a Wikipédia ameaça a continuidade da enciclopédia”, alerta a pesquisadora. Para ela, o impacto não é apenas digital: a perda de vitalidade da Wikipédia seria um retrocesso para o acesso público ao conhecimento e, ironicamente, também para a própria indústria de IA, altamente dependente do conteúdo ali disponível.

Entenda o contexto

A Wikipédia reúne cerca de cinco bilhões de palavras, produzidas e mantidas por voluntários em dezenas de idiomas. Ao longo de duas décadas, tornou-se a principal obra de referência consultada na internet, superando projetos comerciais e até motivando proibições em países que veem risco em sua independência editorial.

Esse acervo aberto alimenta diretamente os grandes modelos de linguagem que sustentam a nova geração de produtos de IA. Parte das empresas de tecnologia extrai o conteúdo via raspagem de dados, sem autorização explícita. Outras, como grandes grupos que operam buscadores e nuvens globais, pagam por acesso acelerado à API da enciclopédia, o que garante fornecimento em alta velocidade para treinar e alimentar seus sistemas.

Choi lembra, porém, que reduzir a Wikipédia a “combustível” para máquinas distorce sua natureza. “A Wikipédia é mais do que dados para máquinas; é uma comunidade autônoma que produz e compartilha conhecimento para o bem comum”, afirma.

Acadêmicos como linha de frente do conhecimento aberto

No centro do debate está o papel da academia. Choi recorre ao modelo de conexão social da filósofa Iris Marion Young, segundo o qual quem participa de uma estrutura que produz injustiças tem o dever de agir para corrigi-las. No caso da Wikipédia, a lógica é direta: pesquisadores e professores estão estruturalmente ligados aos processos de produção e circulação de conhecimento.

“Acadêmicos, como guardiões do conhecimento, têm o dever de ajudar a defender a Wikipédia daqueles que a prejudicam”, resume Choi. Ela argumenta que, embora as universidades não sejam responsáveis pela crise provocada pela IA comercial, ocupam uma posição privilegiada para enfrentá-la, com acesso a recursos, prestígio social e expertise.

Esse apoio pode vir de várias frentes. Uma delas é bem prática: atuar como editores. Especialistas em diferentes áreas conseguem preencher lacunas, corrigir imprecisões, ajustar conceitos complexos e acrescentar referências de qualidade às páginas, em sintonia com os padrões de citação já usados na enciclopédia, que dialogam com a cultura acadêmica.

Outra frente é o reconhecimento institucional. Hoje, a maior parte das carreiras universitárias segue baseada em métricas de pesquisa, ensino e serviços internos. Contribuições a plataformas de conhecimento aberto costumam não contar como critério formal de avaliação, o que desestimula o engajamento. Choi defende que universidades passem a considerar esse tipo de trabalho como serviço público relevante, alinhado à missão de servir à sociedade.

Wikipédia na sala de aula e nos artigos científicos

Além de editar diretamente verbetes, professores podem incorporar a Wikipédia em seu cotidiano acadêmico, tanto na sala de aula quanto nas publicações científicas. Um primeiro passo é a transparência: citar a enciclopédia quando ela é efetivamente usada em pesquisas, do mesmo modo que se propõe a citação de saídas geradas por IA quando essas influenciam artigos ou relatórios.

Apesar do ceticismo que marcou a relação de parte da academia com a plataforma, Choi observa mudança de cenário. “Citações à Wikipédia em periódicos acadêmicos, inclusive em áreas como ciências da saúde, estão aumentando”, afirma. Esse reconhecimento explícito, argumenta, ajuda a legitimar o uso responsável da enciclopédia e dá visibilidade ao valor do trabalho voluntário que a sustenta.

No ensino, a proposta é ir além de discutir se estudantes podem ou não usar a Wikipédia como fonte. Professores podem orientar turmas inteiras a criar ou melhorar verbetes como parte da disciplina, o que treina habilidades de escrita, checagem de fatos, leitura crítica de fontes e compreensão de direitos autorais, ao mesmo tempo em que fortalece a própria enciclopédia.

Há ainda um efeito colateral alinhado aos tempos de IA generativa: como a Wikipédia proíbe textos produzidos por máquinas em seus artigos, tarefas de edição na plataforma obrigam estudantes a escrever e argumentar por conta própria, sem delegar o trabalho ao chatbot de preferência.

Disputa por dados e por princípios

No fundo, o conflito em torno da Wikipédia expõe uma disputa mais ampla sobre quem controla a infraestrutura do conhecimento digital. De um lado, comunidades abertas e autogeridas, que produzem informação sob licenças livres. De outro, um punhado de empresas que concentram poder tecnológico e econômico e operam sistemas que mediam quase todo o acesso à informação na internet.

Para a pesquisadora, a forma como esse embate será resolvido passa pela capacidade de articulação entre voluntários, acadêmicos e sociedade civil, e pela pressão para que empresas de IA negociem acesso justo, transparente e responsável aos dados que usam. A forma como universidades vão — ou não — reconhecer a defesa do conhecimento aberto como parte de sua missão vai definir, em grande medida, o fôlego da enciclopédia nos próximos anos.

Choi sintetiza a urgência do momento ao lembrar que a própria indústria de IA depende da sobrevivência da enciclopédia que hoje ajuda a fragilizar. Se a comunidade que produz e revisa esses cinco bilhões de palavras se desmobiliza, os sistemas que hoje parecem conhecer tudo podem acabar aprendendo cada vez menos — e pior.

Fonte: matéria original