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Economia

Plano Safra: Lula liberou R$ 60 bi a mais que Bolsonaro no campo?

Comparação mostra aumento nominal forte do crédito rural nos Planos Safra sob Lula em relação ao auge do governo Bolsonaro, mas juros altos e inflação limitam o ganho real e mantêm disputa sobre propostas para o próximo mandato.

Plano Safra: Lula liberou R$ 60 bi a mais que Bolsonaro no campo?

Economia Rural

Análise revela aumento nominal do crédito rural no Plano Safra de Lula, mas juros e inflação desafiam ganhos reais no setor agrícola.

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Os dados oficiais do Plano Safra mostram que o governo Luiz Inácio Lula da Silva colocou mais crédito rural à disposição do agronegócio e da agricultura familiar do que a gestão de Jair Bolsonaro, como o presidente afirmou no debate presidencial da Globo desta semana. A disputa agora avança para o próximo mandato, com programas de governo que divergem sobre prioridades, metas e forma de ampliar o financiamento ao campo.

Plano Safra: o que mudou entre Lula e Bolsonaro

O maior Plano Safra do governo Bolsonaro somou R$ 340,88 bilhões em crédito rural, incluindo custeio, investimento e comercialização, com R$ 53,61 bilhões reservados ao Pronaf, linha voltada à agricultura familiar. No atual governo, o Plano Safra empresarial 2025/2026 prevê R$ 516,2 bilhões, enquanto o Plano Safra da Agricultura Familiar do mesmo ciclo chega a R$ 89 bilhões, dos quais R$ 78,2 bilhões vão para o Pronaf.

Na prática, o segmento que mais cresce proporcionalmente é o da agricultura familiar, que depende de crédito subsidiado para plantar, investir e adotar práticas mais sustentáveis. O montante destinado ao Pronaf salta de R$ 53,61 bilhões para R$ 78,2 bilhões na comparação entre os ciclos de referência, reforçando a aposta do governo em pequenos produtores, produção de alimentos básicos e agroecologia.

Do lado empresarial, o volume também avança de forma expressiva, de R$ 340,88 bilhões para R$ 516,2 bilhões. A leitura de analistas é que esse reforço tende a irrigar investimentos em modernização de máquinas, irrigação e tecnologia, mas enfrenta o freio do custo elevado do dinheiro.

Os valores, porém, são nominais e representam crédito ofertado, não gasto direto do Tesouro nem montante efetivamente contratado pelos produtores. O próprio Plano Safra empresarial 2025/2026 cresce 1,5% em relação ao anterior, abaixo da inflação acumulada de 5,32% no período, o que indica perda de fôlego em termos reais. Juros altos também encarecem o financiamento, tema utilizado por Flávio Bolsonaro no debate para criticar a atual política.

Apesar dessas ressalvas, a comparação dos planos anunciados pelos dois governos sustenta a frase de Lula no estúdio da Globo. “Eu duvido que em algum momento do governo do pai dele houve investimento no agronegócio como houve no meu governo. Eu duvido que houve a quantidade de investimento na agricultura familiar que houve no meu governo, nos quatro anos”, disse o presidente.

Entenda o contexto

O Plano Safra é o principal instrumento federal de apoio ao agro. Todos os anos, o governo define o volume de crédito rural disponível, as linhas específicas e as taxas máximas de juros subsidiadas, atendendo desde grandes empresas exportadoras até agricultores familiares.

Entidades do setor, como a Associação Brasileira do Agronegócio (Abag), a Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg) e a Associação Nacional das Instituições de Crédito, Financiamento e Investimento (Acrefi), estimam que há uma diferença de quase R$ 500 bilhões entre a necessidade anual de financiamento do agronegócio e os recursos previstos no Plano Safra. Esse descompasso força produtores a buscar outras fontes, como cooperativas de crédito, bancos privados e instrumentos do mercado de capitais.

Nesse cenário, a discussão eleitoral não se limita ao tamanho do plano, mas também ao custo dos financiamentos, à burocracia na contratação e à diversificação das origens do dinheiro que chega ao campo.

O governo Lula destinou mais crédito ao agronegócio e à agricultura familiar do que o governo Bolsonaro no Plano Safra?

Sim. Na comparação dos planos de maior volume, o governo Lula oferece hoje mais crédito nominal tanto ao agronegócio empresarial quanto à agricultura familiar do que o auge do governo Bolsonaro.

No ciclo mais robusto da gestão Bolsonaro, o conjunto do Plano Safra somou R$ 340,88 bilhões, com R$ 53,61 bilhões voltados ao Pronaf. Já sob Lula, o Plano Safra empresarial 2025/2026 sozinho chega a R$ 516,2 bilhões, enquanto o Plano Safra da Agricultura Familiar adiciona R$ 89 bilhões, sendo R$ 78,2 bilhões apenas para o Pronaf.

Os números reforçam o discurso do presidente no debate da Globo, sobretudo no recorte da agricultura familiar, que é a principal beneficiária, proporcionalmente, da expansão. Pequenos produtores ganham mais espaço nas linhas de custeio e investimento, com foco na produção de alimentos da cesta básica, em práticas agroecológicas e na inovação em propriedades de menor porte.

Especialistas ponderam, porém, que inflação e juros corroem parte desse ganho. Como o crescimento mais recente do plano empresarial ficou abaixo da variação de preços, o aumento de recursos não se converte integralmente em poder de investimento. Além disso, taxas mais altas podem desestimular a tomada de crédito, principalmente entre produtores mais endividados.

Quais são as principais medidas de crédito rural propostas por Flávio Bolsonaro e Lula para o Plano Safra?

Os programas de governo de Flávio Bolsonaro e de Luiz Inácio Lula da Silva apresentam caminhos diferentes para o crédito rural, com graus distintos de detalhamento e metas.

Flávio Bolsonaro vincula o acesso ao crédito à regularização fundiária. A proposta é retomar em ritmo acelerado a titulação de pequenos imóveis rurais sob o argumento de que a documentação facilita a oferta de garantias e, assim, a liberação de financiamentos. O plano cita a reorganização de dívidas rurais e a ampliação do seguro agrícola, mas não define metas de expansão do crédito oficial, nem valores específicos para futuros Planos Safra ou para linhas de custeio e investimento.

Críticos alertam que, ao atrelar o crédito à posse formal da terra sem apresentar mecanismos alternativos, parte relevante dos produtores pode continuar de fora, especialmente agricultores familiares em processo de regularização, assentados da reforma agrária e comunidades tradicionais.

Já o programa de Lula promete ampliar o crédito rural e garantir juros compatíveis com a rentabilidade das atividades agropecuárias. O documento elenca prioridades: financiamento de máquinas, equipamentos, sistemas de irrigação e tecnologias que elevem a produtividade, além de reforço a linhas para inovação.

Outra aposta é diversificar as fontes de recursos, ampliando o uso do mercado de capitais e de títulos do agronegócio para reduzir a dependência do orçamento público. “Queremos consolidar o crédito como instrumento de modernização, priorizando o financiamento de máquinas, equipamentos, sistemas de irrigação e tecnologias para o aumento da produtividade. Buscaremos também continuar diversificando as fontes de financiamento, estimulando o mercado de capitais e títulos do agronegócio. Haverá medidas para simplificar ainda mais o acesso ao crédito, com processos menos burocráticos e critérios claros”, diz o programa.

Para a agricultura familiar, o texto prevê expansão do Plano Safra específico, com juros ajustados ao perfil de risco e ao tipo de produto financiado. Entre as prioridades aparecem a produção de alimentos da cesta básica, a agroecologia, a produção orgânica e a sociobiodiversidade. Jovens agricultores, mulheres, cooperativas e associações teriam condições diferenciadas de acesso.

Assim como no programa de Flávio, o plano de Lula não apresenta, por enquanto, metas numéricas para o volume total de crédito nem taxas exatas para cada linha no próximo mandato. A definição desses parâmetros depende de espaço fiscal no Orçamento e da política de juros que será adotada.

Na avaliação de entidades como Abag, CNseg e Acrefi, qualquer governo que assumir em janeiro terá diante de si um desafio duplo: aumentar o bolo de recursos, inclusive por meio de instrumentos privados, e tornar o crédito mais acessível e menos burocrático para produtores de diferentes portes, sob risco de frear investimentos em tecnologia, renovar menos máquinas e comprometer a expansão da produção de alimentos.