Estudantes tomam o poder na Sérvia e derrubam Vucic hoje
Movimento estudantil conquista maioria no Parlamento sérvio, encerra domínio de Aleksandar Vucic e prepara governo de escopo limitado, focado em combate à corrupção.

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Movimento estudantil assume controle parlamentar e promete governo focado no combate à corrupção na Sérvia.
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Um movimento estudantil formado por jovens ativistas venceu as eleições parlamentares antecipadas na Sérvia e tirou do poder o líder populista Aleksandar Vucic, abrindo um novo ciclo político no país balcânico de cerca de 6 milhões de habitantes. Com maioria folgada no Parlamento, os estudantes prometem focar em combate à corrupção e reforma do Estado após quase dois anos de protestos nas ruas.
Movimento estudantil conquista maioria no Parlamento
A chamada Lista dos Estudantes deve ficar com entre 135 e 140 das cadeiras do Parlamento sérvio, contra 105 do partido de Vucic. Nenhuma outra legenda conseguiu ultrapassar a barreira de entrada no Legislativo, o que deixa o país dividido entre apenas dois blocos.
O próprio Aleksandar Vucic reconheceu publicamente a derrota na noite de domingo. “Ainda não temos os resultados finais, mas, com base em uma amostra (…), está claro que perdemos esta eleição. A Lista dos Estudantes venceu, terá entre 135 e 140 cadeiras, e nós teremos 105. Nenhum outro partido entrou no Parlamento”, afirmou o ex-primeiro-ministro e ex-presidente, que dominava a política sérvia desde 2014.
Apesar da vitória, os estudantes ainda não anunciaram oficialmente quem serão os líderes que vão chefiar o futuro governo. A expectativa é de um gabinete jovem, apoiado por técnicos e especialistas, com mandato político mais enxuto e metas bem delimitadas.
Entenda o contexto
As eleições antecipadas foram convocadas por Vucic em setembro, em meio à pressão de quase dois anos de manifestações estudantis. Os protestos começaram após o desabamento da cobertura de uma estação ferroviária em Novi Sad, em 2024, que matou 16 pessoas e escancarou, para os manifestantes, a combinação de má gestão pública, corrupção e autoritarismo.
A partir da tragédia, universidades e coletivos estudantis passaram a organizar marchas regulares em grandes cidades, com forte adesão de jovens e apoio crescente de trabalhadores do setor público, professores e profissionais da saúde. As mobilizações se consolidaram como a maior ameaça política a Vucic desde sua chegada ao comando do governo, primeiro como chefe de governo e depois como presidente.
Indignados com o que chamam de captura do Estado por aliados do governo e com o encolhimento de liberdades civis, os estudantes transformaram a energia das ruas em organização eleitoral. O movimento se unificou em torno de uma plataforma simples: responsabilização por casos de corrupção, transparência em contratos públicos e despolitização da administração estatal.
Governo de escopo limitado e foco anticorrupção
Para o historiador e analista político Aleksandar Zivotic, a chegada dos estudantes ao poder não significa uma revolução total das estruturas de uma vez, mas uma mudança de direção clara. “O que é certo é que, muito provavelmente, será um governo de escopo limitado, com uma agenda política e programática clara”, avalia.
Segundo Zivotic, a prioridade do novo governo será atacar nichos de corrupção e redes de influência construídas durante o longo ciclo de poder de Vucic, além de revisar nomeações políticas na administração pública e em estatais estratégicas. As áreas de Justiça, controle interno e órgãos reguladores devem ser os primeiros alvos de reorganização.
O analista vê na vitória estudantil o surgimento de uma nova geração política no país. “Trata-se de uma geração jovem, uma geração completamente nova que atingiu a maturidade nesta época. É uma geração que buscou seu lugar na sociedade e apresentou algumas ideias novas e fundamentais”, diz. Para ele, o movimento nasce em meio a uma crise mais ampla, que atravessa a política global. “O movimento estudantil na Sérvia já é, de fato, um fenômeno, e fala-se dele na Europa”, afirma.
Impacto interno e afastamento de aliados de Vucic
A derrota de Vucic encerra mais de uma década em que o líder populista concentrou poder e influência nos principais organismos do Estado. Com a nova correlação de forças no Parlamento, aliados históricos do ex-presidente devem começar a ser afastados de cargos-chave na máquina pública.
A expectativa de Zivotic é que, após uma primeira rodada de reformas e substituições, o país volte às urnas. O analista prevê novas eleições depois que o governo for reformulado e o núcleo político ligado a Vucic perder espaço, o que abriria caminho para uma cena partidária menos polarizada entre o ex-governo e os estudantes.
Ao mesmo tempo, o sucesso eleitoral do movimento estudantil aumenta a pressão sobre a nova maioria. Sem experiência administrativa extensa e sob escrutínio permanente, os jovens dirigentes precisarão mostrar resultados rápidos em áreas simbólicas, como transparência em licitações, investigação de grandes contratos de infraestrutura e punição a casos de corrupção associados ao antigo bloco governista.
Efeito na Europa e derrota do populismo
A reviravolta em Belgrado se soma à recente derrota do húngaro Viktor Orbán e reforça a leitura de que governos populistas e de viés autoritário enfrentam uma reação coordenada de movimentos juvenis e estudantis na Europa Central e nos Bálcãs.
Analistas veem na vitória sérvia um possível estímulo para protestos e candidaturas independentes em outros países, sobretudo onde a frustração com a corrupção e a falta de perspectivas para jovens é maior. Nos últimos meses, universidades em diferentes capitais europeias registraram ocupações, paralisações e assembleias que ecoam bandeiras semelhantes às dos estudantes sérvios, como mais transparência, acesso à educação e renovação política.
Na Sérvia, o primeiro efeito concreto é a abertura de um novo capítulo institucional, com um Parlamento dominado por uma geração que cresceu sob governos de Vucic e agora promete virar a página. A velocidade e a profundidade das mudanças, porém, dependerão da habilidade do movimento estudantil em transformar seu capital simbólico em governabilidade e em superar a resistência de estruturas estatais ainda marcadas por velhas lealdades.


