FMI revela: IA ameaça 60% dos empregos em países ricos até 2030
Estudo do FMI aponta que a inteligência artificial vai atingir sobretudo economias avançadas, inclusive trabalhadores altamente qualificados, e tende a ampliar a desigualdade global.

Inteligência Artificial
Relatório do FMI destaca impacto da IA no mercado de trabalho e aumento da desigualdade nas nações desenvolvidas.
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A inteligência artificial deve atingir diretamente 60% dos empregos nas economias avançadas, com risco de substituir inclusive profissionais altamente qualificados e bem pagos, alerta um novo estudo do Fundo Monetário Internacional (FMI) divulgado nesta semana. A projeção aponta para ganhos de produtividade, mas também para um aumento da desigualdade e da pressão sobre sistemas de proteção social.
Como a inteligência artificial pode afetar 60% dos empregos nas economias avançadas, segundo o FMI?
Para o FMI, cerca de 60% dos postos de trabalho em economias avançadas estão expostos à inteligência artificial, seja por risco de substituição direta, seja por uma transformação profunda das tarefas. O cálculo considera o potencial da tecnologia de automatizar rotinas que hoje exigem raciocínio, análise de dados, escrita e tomada de decisão.
O estudo mostra que esta onda tecnológica é diferente das anteriores: não se concentra apenas em funções repetitivas ou de baixa qualificação. Profissões que dependem de conhecimento especializado — como finanças, tecnologia, serviços profissionais, parte da gestão e até áreas da saúde — passam a ter tarefas que podem ser desempenhadas por sistemas de IA.
Segundo o relatório, aproximadamente metade dos trabalhadores afetados pode ser prejudicada, com perda de renda ou eliminação do posto de trabalho. A outra metade tende a usar a IA como aliada para ganhar produtividade, mantendo o emprego, mas com funções reorganizadas e exigência maior de adaptação.
Nas economias emergentes, o FMI calcula que 40% dos empregos estejam expostos. Já nos países de baixa renda, a taxa cai para 26%. Nesses casos, porém, o risco é outro: a falta de infraestrutura digital e de qualificação pode impedir que a IA gere ganhos de produtividade, ampliando a distância em relação aos países ricos.
Trabalhadores qualificados entram na linha de fogo
O relatório destaca que, ao contrário de ondas passadas de automação, a inteligência artificial alcança com força os estratos mais escolarizados. “Ao contrário das ondas anteriores de automação, que tiveram seu maior impacto nos trabalhadores com qualificações médias, os riscos de deslocamento da IA se estendem aos que recebem salários mais altos”, afirma o FMI no estudo.
Na prática, isso significa que advogados, analistas financeiros, programadores, consultores, gestores e outros profissionais de alta renda deixam de estar relativamente protegidos. A mesma tecnologia que aumenta sua produtividade pode, em muitos casos, assumir parte ou a totalidade de suas funções.
Quem conseguir incorporar a IA de forma complementar, aprendendo a comandar sistemas, interpretar resultados e combinar capacidade humana com ferramentas digitais, tende a sair fortalecido. Já quem não se adaptar corre mais risco de ser substituído.
Entenda o contexto
A diretora-gerente do FMI, Kristalina Georgieva, resume o dilema em duas frases. “Estamos à beira de uma revolução tecnológica que pode impulsionar a produtividade, promover o crescimento global e aumentar os rendimentos em todo o mundo”, afirma. Ao mesmo tempo, alerta que a inteligência artificial “pode substituir empregos e aprofundar a desigualdade”.
O FMI projeta que os benefícios da IA devem se concentrar em quem já tem renda mais alta e maior acesso à tecnologia, inclusive em grandes economias emergentes. Em muitos países de baixa renda, a falta de internet de qualidade, equipamentos e formação técnica pode impedir que trabalhadores e empresas aproveitem as novas ferramentas, o que tende a ampliar a desigualdade entre nações.
Outras análises recentes ajudam a dimensionar o cenário. Estimativa da OCDE aponta que 27% da força de trabalho de seus países membros está ameaçada por automação avançada. Um estudo do banco Goldman Sachs calcula que 300 milhões de empregos no mundo podem desaparecer total ou parcialmente com a disseminação da IA.
Quais são os riscos do domínio tecnológico da inteligência artificial sobre o ser humano?
O FMI avalia que o principal risco no mercado de trabalho é o aumento da desigualdade, tanto dentro dos países quanto entre eles. “Na maioria dos cenários, a IA provavelmente piorará a desigualdade geral”, admite Georgieva. Isso ocorre porque os ganhos de produtividade tendem a se concentrar em empresas e profissionais que já têm mais recursos para investir em tecnologia e qualificação.
Se não houver políticas públicas específicas, a expansão da IA pode fortalecer grandes corporações, pressionar salários em ocupações intermediárias e deixar trabalhadores com menos educação formal ainda mais vulneráveis. Em países pobres, a defasagem tecnológica pode significar menor crescimento econômico, fuga de talentos e dependência maior de empresas estrangeiras.
O relatório também aponta para o risco de um desemprego estrutural mais persistente, caso a criação de novos postos não compense a rapidez da automação. Isso pode alimentar frustração social, queda de confiança nas instituições e tensões políticas em várias regiões.
Quais medidas o FMI defende para proteger trabalhadores?
Diante desse quadro, o FMI insiste em respostas rápidas dos governos. “É crucial que os países estabeleçam redes abrangentes de segurança social e ofereçam programas de reciclagem para os trabalhadores vulneráveis”, afirma Georgieva. A recomendação vale especialmente para economias avançadas e emergentes mais desenvolvidas, onde o impacto será mais imediato.
Para esses países, o organismo defende três frentes principais: regulamentar o uso da IA, inclusive com regras de transparência e responsabilidade; apoiar a realocação da mão de obra afetada, com intermediação de vagas e incentivos à contratação; e reforçar benefícios como seguro-desemprego e transferência de renda para quem ficar sem trabalho.
Já mercados emergentes e países de baixa renda são orientados a priorizar investimentos em infraestrutura digital — como conectividade e equipamentos — e em capacitação da força de trabalho, para não ficarem presos a funções de baixa produtividade. O objetivo é reduzir a lacuna tecnológica e ampliar as chances de que a IA gere crescimento, em vez de apenas aprofundar diferenças de renda.
Para o FMI, a combinação de inovação com inclusão social será decisiva para evitar que a nova revolução tecnológica se traduza em mais exclusão. Sem isso, o organismo vê risco real de agravamento da desigualdade, desemprego de longa duração e instabilidade social em várias partes do mundo.


