Vídeo de IA de Bolsonaro desafia regras do TSE e normas escolares
Convenção do PL usa vídeo sintético de Jair Bolsonaro e vira primeiro teste das novas regras do TSE sobre IA. Ao mesmo tempo, pesquisa mostra uso acelerado e sem diretrizes da tecnologia em escolas brasileiras.

Inteligência Artificial
Evento político e pesquisa escolar revelam desafios no uso de vídeos sintéticos e IA no Brasil.
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Um vídeo gerado por inteligência artificial com a imagem e a voz do ex-presidente Jair Bolsonaro, exibido na convenção nacional do PL que oficializou Flávio Bolsonaro candidato à Presidência, virou o primeiro grande teste das novas regras do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sobre uso de conteúdo sintético em campanhas e escancarou, em paralelo ao cenário nas escolas, como o país ainda tateia os limites da tecnologia.
Vídeo na convenção do PL vira caso no TSE
Na convenção, realizada em julho, Bolsonaro apareceu nos telões em um vídeo produzido por IA, simulando uma fala ao público, apesar de cumprir pena em prisão domiciliar. A peça marcou simbolicamente a presença do ex-presidente no evento eleitoral do filho e reforçou a narrativa do partido em torno do bolsonarismo.
O caso chegou ao TSE porque a Resolução 23.755/2026, em vigor desde março, proíbe o uso de conteúdo sintético para criar ou alterar imagem ou voz de uma pessoa, viva ou morta, com o objetivo de favorecer ou prejudicar candidaturas, mesmo quando há autorização do retratado.
Ao julgar a representação, o tribunal decidiu não aplicar multa ao senador Flávio Bolsonaro. Os ministros entenderam que, nas condições em que foi exibido, o vídeo não configurou pedido explícito de voto ao eleitorado. A própria corte reconheceu que a decisão foi “o primeiro teste concreto das novas regras do uso de conteúdo de IA em campanhas eleitorais”.
Especialistas em direito eleitoral e tecnologia veem a decisão como um precedente ambíguo, que tende a orientar outras campanhas na fronteira entre marketing político e infração às normas. O receio é que campanhas passem a explorar brechas, usando avatares de líderes políticos e celebridades em situações de forte impacto emocional, mas sem o pedido de voto literal.
Autoridades e pesquisadores alertam ainda para o risco maior: “O grande temor de autoridades e especialistas no tema é que a proliferação deste tipo de conteúdo, também conhecido como deepfakes, sabote a confiança do eleitorado e inviabilize o debate democrático antes mesmo que qualquer checagem consiga conter o estrago”.
Entenda o contexto
O TSE enquadra como “conteúdo sintético” materiais em que a imagem ou a voz de alguém é criada, alterada ou manipulada por ferramentas de inteligência artificial, a ponto de simular declarações e situações que nunca existiram ou distorcer fatos reais.
Para o eleitor comum, a diferença entre um registro verdadeiro e um deepfake de alta qualidade tende a ficar cada vez menos perceptível. Por isso, a resolução tenta agir na origem da produção, proibindo conteúdo sintético usado para favorecer ou atacar candidaturas, e não apenas na remoção posterior de peças classificadas como falsas.
No caso do PL, a corte avaliou que o vídeo tinha forte carga simbólica, mas não rompia, na leitura dos ministros, o limite jurídico do pedido de voto. A decisão, porém, acende um sinal amarelo sobre a interpretação prática das regras à medida que a campanha avança.
IA avança nas escolas sem regra clara
Enquanto a Justiça Eleitoral estreia suas normas para IA na política, a tecnologia se espalha rapidamente pelo sistema de ensino brasileiro, mas com muito menos baliza. É o que mostra a pesquisa TIC Educação 2025, do Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação.
O levantamento, realizado entre agosto de 2025 e abril de 2026 com gestores de 2.404 escolas públicas e privadas, indica que 53% dos entrevistados já recorrem a ferramentas de IA generativa em atividades pedagógicas, administrativas ou financeiras.
Na prática, diretores, coordenadores e professores usam esses sistemas para montar apresentações de aula, redigir avisos e comunicados às famílias, organizar cronogramas e simplificar tarefas burocráticas, liberando tempo para o planejamento pedagógico.
O problema é que o uso avança quase sempre na base da iniciativa individual: apenas 22% das escolas dizem ter um guia formal com orientações sobre como empregar IA no dia a dia. Em muitas redes, não há definição clara sobre o que é permitido, quais dados podem ser inseridos nas plataformas ou como proteger a privacidade de alunos e profissionais.
Entre os estudantes, o descompasso é ainda maior. Segundo a pesquisa, 63% das escolas não autorizam que alunos utilizem IA em projetos educacionais. Apesar disso, dados de 2024 já mostravam que sete em cada dez jovens do Ensino Médio usuários de internet declaravam usar IA em trabalhos escolares.
Na prática, boa parte desses adolescentes recorre às ferramentas para obter respostas prontas, resumos ou até textos inteiros, muitas vezes sem orientação de professores. Menos de um quinto relatava ter conversado com um docente sobre como usar a tecnologia.
Sem esse acompanhamento, aumenta o risco de exposição às chamadas “alucinações algorítmicas”, quando sistemas de IA inventam fatos, dados ou referências históricas com aparente segurança. Pesquisadores alertam ainda para o efeito de longo prazo no desenvolvimento da escrita, da capacidade de pesquisa e do pensamento crítico dos estudantes.
Pressão por diretrizes na Educação
A adoção acelerada da IA nas escolas corre em paralelo a um cenário de infraestrutura e formação insuficientes. Estudos recentes apontam que cerca de quatro em cada dez professores relatam ausência de suporte técnico adequado em suas unidades. Faltam conexão estável, computadores atualizados e treinamento específico para integrar as ferramentas ao currículo.
O Ministério da Educação já publicou um referencial nacional sobre uso responsável de IA, propondo duas frentes para a sala de aula: aprender com IA (usando a tecnologia como recurso) e aprender sobre IA (tratando-a como conteúdo de estudo). O documento reforça a centralidade do professor e o papel do letramento digital.
Mais recentemente, o Conselho Nacional de Educação aprovou diretrizes que estabelecem níveis de risco e algumas proibições, como delegar a correção de redações e provas dissertativas a ferramentas de IA ou permitir acesso autônomo de crianças mais novas a sistemas generativos.
Mesmo assim, o ritmo de implementação de políticas locais e formação docente ainda é bem mais lento que o de adoção espontânea da tecnologia. Redes públicas e privadas são pressionadas a transformar esses princípios gerais em regras claras de uso em sala de aula, avaliações e deveres de casa.
Como a inteligência artificial pode facilitar a preparação para o Enem e outros exames?
A IA pode facilitar os estudos para o Enem e outros exames ao automatizar tarefas mecânicas, personalizar rotinas de revisão e oferecer feedback rápido, desde que o aluno saiba o que pedir e confira criticamente as respostas.
Ferramentas generativas podem ser usadas para montar planos semanais de estudo a partir da carga horária disponível, sugerir distribuição equilibrada entre disciplinas e criar cronogramas até o dia da prova. Também ajudam a transformar um mesmo conteúdo em resumos, mapas mentais, flashcards e questões de múltipla escolha, adaptando o formato ao estilo de aprendizagem de cada estudante.
Outra possibilidade é simular redações: o aluno propõe temas, escreve seu texto e pede à IA comentários sobre clareza, estrutura e coesão, sempre conferindo depois com a grade oficial das provas e, se possível, com um professor. A tecnologia ainda pode explicar passo a passo a resolução de questões de matemática e ciências, mostrar formas alternativas de chegar ao resultado e sugerir listas extras de treino em conteúdos em que o candidato demonstra mais dificuldade.
Especialistas recomendam, porém, três cuidados básicos: nunca copiar respostas prontas como se fossem suas, sempre verificar dados e fórmulas em fontes confiáveis, e usar a IA como apoio, não como substituta da leitura dos materiais didáticos e das questões das provas anteriores.
Existe alguma inteligência artificial gratuita para ajudar nos estudos para concursos?
Existem diversas ferramentas de IA gratuitas que podem apoiar a preparação para concursos, em versões com limitações de uso diário, mas suficientes para montar rotinas de estudo, gerar questões e revisar conteúdos.
Plataformas de chat baseadas em IA permitem que o concurseiro cole editais e peça a organização dos conteúdos em um plano de longo prazo, dividido por semanas ou meses. Também é possível solicitar listas de questões simuladas por assunto, pedir explicações detalhadas de temas cobrados em provas anteriores e criar resumos personalizados das leis mais importantes, sempre confrontando o material com a legislação atualizada.
Outros recursos gratuitos incluem geradores de flashcards, que usam IA para transformar textos extensos em cartões de memorização, e sistemas capazes de corrigir, em linhas gerais, textos dissertativos, apontando problemas de estrutura, coesão e argumentação. Advogados e professores especializados em concursos ressaltam, porém, que nenhum desses serviços substitui o estudo direto das leis, da jurisprudência e do material preparado para o certame específico.
Em todos os casos, o uso responsável passa por transparência (não apresentar como seu um texto que foi praticamente escrito pela IA), checagem de informações sensíveis — especialmente em direito, contabilidade e legislação — e pela combinação entre recursos digitais e métodos tradicionais, como resolução de provas anteriores em tempo real e revisão manual de anotações.


